eua x belgica
Copa do Mundo

Bélgica transforma revolta com caso Balogun em combustível para eliminar os Estados Unidos

A polêmica que dominou os dias anteriores ao confronto terminou com uma resposta dentro de campo. A Bélgica goleou os Estados Unidos por 4 a 1, eliminou um dos países anfitriões da Copa do Mundo e deixou provocações para uma decisão da Fifa que havia causado revolta entre os belgas.

Sensação de injustiça aumentou a motivação da Bélgica

Bélgica

Folarin Balogun parecia ser um desfalque certo dos Estados Unidos para as oitavas de final. O atacante havia recebido cartão vermelho direto na partida contra a Bósnia e Herzegovina, após uma falta sobre Tarik Muharemovic, e deveria cumprir a suspensão automática de um jogo.

O cenário mudou completamente pouco antes do confronto.

A Fifa decidiu suspender por 12 meses a punição de Balogun, permitindo que o atacante ficasse disponível para enfrentar a Bélgica. A decisão causou enorme repercussão porque o americano havia marcado três gols na Copa do Mundo e era uma das principais referências ofensivas de sua seleção.

A Bélgica reagiu imediatamente.

A federação Belga de afirmou estar surpresa com a decisão e contestou a elegibilidade do atacante para disputar a partida. A federação ainda tentou recorrer, mas um comitê da Fifa considerou que os belgas não eram parte interessada no processo, pois não estavam envolvidos na decisão original e eram apenas os próximos adversários dos Estados Unidos.

Dentro do elenco, a situação criou uma sensação de injustiça.

Nicolas Raskin revelou depois da partida que muita coisa havia acontecido fora de campo nos dois dias anteriores ao confronto. Segundo o meio campista, os jogadores belgas estavam determinados a responder no gramado.

O capitão Youri Tielemans confirmou a mesma versão. A equipe transformou a insatisfação em motivação e entrou em campo com a ideia de que a melhor resposta seria eliminar os Estados Unidos.

Foi exatamente o que aconteceu.

A Bélgica venceu por 4 a 1, aplicou a maior derrota sofrida pelos americanos desde 1990 e encerrou a participação de um dos coanfitriões da Copa. Balogun foi titular, mas não conseguiu ser decisivo como havia sido nas partidas anteriores.

Depois do quarto gol, a resposta belga ganhou um tom de provocação. Alguns jogadores comemoraram imitando a dança que ficou associada a Donald Trump durante a campanha presidencial de 2024.

A conta oficial da seleção belga foi ainda mais direta.

Uma imagem de Romelu Lukaku com a mão na orelha foi publicada com a frase “Anulem essa”, em uma clara referência à decisão que havia retirado a suspensão de Balogun.

Trump entrou na discussão e aumentou a dimensão da polêmica

Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)
Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)

O caso deixou de ser apenas uma discussão sobre futebol quando chegou ao mais alto nível da política americana.

Donald Trump confirmou que conversou com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e pediu uma revisão da suspensão. Segundo o presidente dos Estados Unidos, o lance que provocou a expulsão não deveria ter sido considerado uma falta.

Trump afirmou que não exigiu a liberação de Balogun e que apenas pediu uma nova análise do caso. Também declarou que a suspensão teria deixado uma “grande mancha” na Copa do Mundo e classificou a decisão final como correta.

A participação do presidente americano aumentou a repercussão.

A Uefa criticou duramente o que aconteceu e afirmou que intervir para cancelar, na prática, uma suspensão durante uma competição significava ultrapassar uma “linha vermelha”.

Thomas Tuchel também questionou o precedente criado pela Fifa.

O técnico da Inglaterra tinha um motivo imediato para acompanhar o assunto. Jarell Quansah havia sido expulso na vitória inglesa por 3 a 2 sobre o México nas oitavas de final. Diante da liberação de Balogun, a pergunta sobre a aplicação das punições ganhou ainda mais força.

Tuchel resumiu a preocupação ao questionar onde deveria ser estabelecido o limite.

Os dados históricos mostram por que o episódio causou tanta surpresa. Entre os outros 189 cartões vermelhos registrados na história das Copas do Mundo, apenas uma vez um jogador expulso conseguiu escapar de uma suspensão.

O caso aconteceu em 1962.

Garrincha foi expulso na semifinal entre Brasil e Chile, mas acabou liberado para disputar a decisão contra a Tchecoslováquia. O episódio ocorreu antes da existência das suspensões automáticas.

Balogun se tornou, assim, protagonista de uma situação quase sem precedentes em mais de nove décadas de Copa do Mundo.

A diferença é que o caso atual aconteceu em um futebol com regulamentos muito mais detalhados, mecanismos disciplinares estruturados e enorme exposição pública. Por isso, a interferência de uma decisão excepcional causou questionamentos que ultrapassaram a situação individual do atacante.

A goleada virou resposta belga dentro e fora de campo

Estados Unidos é goleado pela Bélgica de De Ketelaere,
Foto: Alex Grimm/Getty Images

Depois de toda a discussão, a Bélgica conseguiu transformar a partida em sua própria resposta.

Os jogadores afirmaram que a polêmica serviu como motivação, venceram por 4 a 1 e fizeram questão de mostrar sua insatisfação nas comemorações e nas redes sociais.

Rudi Garcia adotou uma postura diferente em relação a Balogun.

O treinador belga contou que o atacante americano o procurou depois do jogo. Garcia afirmou ter gostado da atitude e deixou claro que não considerava o jogador responsável pelo que aconteceu.

A posição faz sentido.

Balogun não criou a regra, não tomou a decisão de suspender sua punição e não controlou a participação de Trump ou a análise da Fifa. Ele recebeu o cartão vermelho, foi informado posteriormente de que estava disponível e entrou em campo quando foi escalado.

A revolta belga estava direcionada ao processo.

A própria equipe fez questão de separar as duas coisas. Balogun foi tratado com respeito depois da partida, enquanto a Fifa e a decisão disciplinar continuaram sendo alvos de críticas.

O caso ainda ganhou outro capítulo com a participação do Irã.

A seleção iraniana publicou uma comparação entre seu empate com a Bélgica e a derrota americana por 4 a 1. A mensagem dizia que o mundo estava dançando com a “derrota humilhante da política para o futebol”.

A provocação estava relacionada a declarações anteriores do chefe da Segurança Interna dos Estados Unidos, Markwayne Mullin, que havia afirmado ter “dançado de felicidade” com a eliminação do Irã na fase de grupos. A participação iraniana na Copa também havia sido cercada por problemas de vistos e viagens devido à guerra dos Estados Unidos no país.

No fim, uma partida de oitavas de final ganhou uma dimensão muito maior do que o futebol.

A Fifa tomou uma decisão raríssima. A Bélgica tentou contestá-la. Trump entrou publicamente no caso. A Uefa afirmou que uma linha vermelha havia sido ultrapassada. Tuchel questionou o precedente criado. O Irã aproveitou a eliminação americana para fazer sua própria provocação.

E a Bélgica respondeu da forma que havia prometido.

Dentro de campo, marcou quatro gols e eliminou os Estados Unidos. Fora dele, deixou uma frase que resumiu toda a revolta acumulada nos dias anteriores.

Desta vez, não havia suspensão para revisar nem cartão para anular.

Restou aos belgas apenas apontar para o placar e provocar: “Anulem essa”.

(Foto de capa: FIFA)

author
Kaique