A vitória da Inglaterra por 2 a 0 sobre o Panamá garantiu a classificação da seleção inglesa para a fase de mata-mata, mas também mostrou algo que vai além do resultado. Se antes da Copa do Mundo havia dúvidas sobre o papel de Jude Bellingham dentro da equipe de Thomas Tuchel, agora o meio-campista parece ter se tornado a peça mais importante do sistema inglês.
Mais do que participar dos gols, Bellingham foi responsável por fazer a ideia de jogo de Tuchel funcionar. Atuou em diferentes funções durante a partida, corrigiu problemas defensivos, ajudou na construção das jogadas e foi decisivo ofensivamente no segundo tempo. Sua versatilidade permitiu que a Inglaterra modificasse seu comportamento durante o jogo sem precisar alterar a estrutura da equipe.
A atuação contra o Panamá mostrou que o sucesso da Inglaterra talvez dependa menos do brilho individual de seus atacantes e muito mais da capacidade de Bellingham interpretar o jogo e ocupar os espaços certos em cada momento.
Bellingham deu equilíbrio ao novo sistema de Tuchel

Desde que assumiu a seleção inglesa, Thomas Tuchel implantou uma identidade bastante clara. A Inglaterra procura atrair a pressão adversária antes de acelerar as jogadas com passes verticais, utiliza muito os corredores laterais para construir ataques e pressiona imediatamente após perder a posse de bola.
Contra o Panamá, o treinador precisou fazer ajustes importantes.
Sem Declan Rice e com Reece James lesionado, Tuchel alterou o posicionamento da equipe. Jarell Quansah passou a formar uma linha de três defensores quando a Inglaterra tinha a posse, enquanto Nico O’Reilly manteve liberdade para avançar pelo lado esquerdo.
A principal mudança aconteceu justamente com Bellingham.
Nos primeiros jogos da Copa, Harry Kane costumava recuar para participar da construção das jogadas ao lado de Elliott Anderson. Desta vez, foi Bellingham quem assumiu essa responsabilidade, aproximando-se do volante e permitindo que Kane permanecesse mais próximo da área.
A função exigia inteligência tática constante.
Quando recebia a bola pressionado entre as linhas, Bellingham raramente perdia a posse. Em vez disso, utilizava seu porte físico para proteger a bola, conquistar faltas ou encontrar passes para os companheiros que apareciam livres pelos lados do campo.
Mesmo sendo um jogador conhecido pela chegada ao ataque, precisou adaptar seu estilo para atuar em espaços muito mais congestionados do que está acostumado.
Além disso, seu trabalho defensivo foi fundamental.
Durante os primeiros 30 minutos, quando a Inglaterra perdeu várias bolas no meio-campo, Bellingham realizou diversas corridas longas para impedir contra-ataques perigosos do Panamá. Sempre que a equipe perdia a posse, era um dos primeiros jogadores a pressionar imediatamente o adversário, característica que tem marcado a seleção inglesa desde o início da competição.
Essa capacidade de participar de praticamente todas as fases do jogo explica por que Tuchel passou a tratá-lo como a principal peça de seu sistema.
A liberdade ofensiva mudou o jogo no segundo tempo

Se na primeira etapa Bellingham atuou mais próximo da construção das jogadas, no segundo tempo sua função mudou completamente.
O meio-campista passou a ocupar posições muito mais avançadas, praticamente como um camisa 10.
A alteração teve efeito imediato.
Com Nico O’Reilly e Quansah posicionados mais por dentro, os meio-campistas do Panamá eram obrigados a fechar os espaços centrais. Isso deixava Bukayo Saka e Marcus Rashford recebendo a bola em situações favoráveis pelos lados do campo.
Uma das jogadas mais repetidas pela Inglaterra começou justamente a partir desse novo posicionamento.
Rashford recuava para receber passes da defesa. Ao fazer esse movimento, atraía consigo os alas do Panamá, abrindo espaço nas costas da defesa para que outro jogador atacasse em velocidade.
Foi exatamente aí que apareceu Bellingham.
Ao contrário de Harry Kane, que havia realizado esse tipo de infiltração no primeiro tempo, Bellingham possui muito mais explosão física para atacar os espaços.
Suas corridas diagonais passaram a quebrar completamente a organização defensiva do Panamá.
O primeiro gol nasceu após uma dessas infiltrações, que terminou em escanteio para a Inglaterra.
Pouco tempo depois, novamente atacando o mesmo espaço, Bellingham encontrou Harry Kane com um cruzamento preciso para construir a assistência do segundo gol.
Curiosamente, ainda no primeiro tempo o próprio Bellingham já havia apontado para esse espaço enquanto Rashford dominava a bola, indicando ao companheiro que aquele passe poderia ser a melhor solução ofensiva. A leitura tática estava correta e acabou sendo explorada justamente após o intervalo.
O camisa 10 virou a peça que faz todo o sistema funcionar

Muito se fala sobre o talento ofensivo de Jude Bellingham, mas a partida contra o Panamá mostrou que sua principal qualidade talvez seja outra.
Poucos jogadores conseguem atuar com o mesmo nível tanto na construção das jogadas quanto na recomposição defensiva ou na chegada ao ataque.
Enquanto vários atletas se especializam em apenas uma função, Bellingham consegue interpretar diferentes momentos da partida e adaptar seu jogo conforme a necessidade da equipe.
Essa característica faz enorme diferença em torneios como a Copa do Mundo, onde ajustes táticos durante os 90 minutos costumam decidir confrontos equilibrados.
O próprio Thomas Tuchel deixou claro que deseja manter praticamente o mesmo modelo de jogo durante toda a competição. Se isso realmente acontecer, Bellingham tende a ganhar ainda mais importância, já que é o jogador responsável por dar flexibilidade a esse sistema sem que a Inglaterra precise fazer grandes mudanças na estrutura da equipe.
Antes da Copa do Mundo, existia um debate sobre qual seria o melhor meio-campo inglês e até mesmo sobre o espaço que Bellingham teria entre os titulares. Depois da atuação diante do Panamá, essa discussão parece ter perdido força.
Mais do que um dos melhores jogadores da seleção, Jude Bellingham mostrou ser o atleta capaz de conectar defesa, meio-campo e ataque, dando equilíbrio a uma Inglaterra que sonha em conquistar o título mundial. Se os ingleses chegarem longe na competição, há grandes chances de que isso passe diretamente pela inteligência tática, pela versatilidade e pela influência de seu camisa 10.
(Foto de capa: Getty Images)