O prêmio de melhor jogador do mundo nunca esteve livre de polêmicas, mas a edição de 2025 pode ter elevado esse debate a um novo patamar. Ousmane Dembélé conquistou a Bola de Ouro, superando nomes como Lamine Yamal e Mohamed Salah, e reacendendo uma discussão antiga: quais são, afinal, os critérios reais que norteiam a eleição do maior troféu individual do futebol?
Dembélé viveu, sem dúvida, a melhor temporada de sua carreira. Foram 21 gols no Campeonato Francês e 8 gols na Champions League, desempenhando papel fundamental para levar o Paris Saint-Germain ao inédito título europeu. Ainda assim, a conquista gera dúvidas.
Um jogador que, até então, jamais havia se consolidado como artilheiro consistente, que atravessou sete anos de altos e baixos no Barcelona e que só duas vezes ultrapassou a marca dos dez gols em ligas nacionais, pode ser coroado o melhor do mundo com base em uma única temporada de destaque? Se pode, por que outros não puderam?
O histórico de polêmicas do prêmio
A Bola de Ouro já viveu momentos de contestação no passado. Em 2021, por exemplo, a decisão de entregar o troféu a Lionel Messi e não a Robert Lewandowski, que havia batido recordes pelo Bayern, foi vista como injustiça histórica. Em 2018, Luka Modric quebrou a hegemonia Messi-Cristiano Ronaldo após campanha memorável no Real Madrid e com a Croácia, mas sem números ofensivos comparáveis aos concorrentes. Em 2023, Rodri superou Vinícius Júnior, decisão também contestada por muitos analistas.
Dembélé, portanto, entra para a lista de vencedores que levantam questionamentos, ainda que por motivos distintos: sua vitória se apoia em uma temporada isolada, e não em um histórico de consistência.
Entre os principais concorrentes, dois nomes se destacavam. Lamine Yamal, joia do Barcelona de apenas 18 anos, completou uma temporada extraordinária, se tornando peça central do time e referência ofensiva apesar da pouca idade. Já Mohamed Salah, embora sem conquistas de igual peso, manteve a mesma regularidade que o coloca, há quase uma década, como um dos atacantes mais decisivos do futebol mundial.
O peso dos títulos
É inegável que o fator determinante foi a Champions League vencida pelo PSG. Dembélé não apenas participou, mas foi protagonista em momentos decisivos. Ainda assim, esse critério escancara uma fragilidade: se o prêmio tende a premiar o jogador de maior impacto no time campeão da Champions, então sua definição se torna mais restrita e previsível, afastando-se da ideia de “melhor jogador do mundo” em termos absolutos.
Se esse for o paradigma, Salah e Lewandowski dificilmente terão chances de vencer — assim como nomes históricos, como Maldini ou Baresi, nunca conseguiram. O risco é o prêmio se transformar mais em um reconhecimento ao contexto da temporada do que em uma avaliação objetiva do talento e impacto individual.
Nada disso significa que Dembélé não mereça reconhecimento. Sua temporada foi brilhante, e o salto de rendimento que deu em 2024/25 representa a redenção de uma carreira marcada por lesões, inconsistência e desconfiança. Aos 28 anos, ele enfim se consolidou como protagonista em uma equipe de elite, liderando o PSG no maior título de sua história.
O ponto, no entanto, é a relativização.
Um prêmio que precisa de clareza
O caso Dembélé expõe uma necessidade urgente: a Bola de Ouro precisa de critérios mais claros e consistentes. A cada ano, o debate se repete: se deve premiar títulos, estatísticas individuais, regularidade, ou impacto global. Essa falta de transparência mina a credibilidade do troféu e transforma a premiação em um palco de controvérsias mais do que em uma celebração indiscutível do melhor do futebol.
Em alguns anos, como 2025, essa sensação é ainda mais forte. Ousmane Dembélé pode ter vivido a temporada de sua vida, mas muitos analistas e torcedores se perguntarão se ele realmente foi o melhor jogador do planeta — ou apenas o nome certo, na hora certa, dentro da equipe que finalmente alcançou o topo da Europa.
No entanto, é inegável que ele foi o jogador mais decisivo e que jogou mais na temporada. A grande questão é: Antoine Griezmann não jogou mais na temporada 2018? Lewandowski não jogou mais em 2021? Franck Ribery não jogou mais em 2013?
O prêmio precisa se decidir se premia a temporada ou o talento puro.
(Foto: Divulgação/UEFA)