O Botafogo joga como um time rebaixado, e a derrota por 2 a 1 para o Remo, na quarta-feira, expôs a dimensão dos problemas que Tite ainda não conseguiu resolver. Em Belém, o Alvinegro voltou a apresentar uma defesa vulnerável, um meio-campo incapaz de controlar a partida e um ataque que depende de lampejos isolados para ameaçar o adversário. O resultado foi especialmente preocupante porque aconteceu diante de uma equipe que ocupava a vice-lanterna do Campeonato Brasileiro e encerrou uma sequência de 12 jogos sem vencer justamente contra um Botafogo que ainda alimentava ambições mais altas na temporada.
O cenário já não permite tratar os tropeços como episódios isolados. Depois de seis partidas sob o comando de Tite, o time soma apenas uma vitória, um empate e quatro derrotas, com dez gols sofridos e quatro marcados. A sequência inclui derrotas para Mirassol, Vasco, Internacional e Remo, além de um empate com o Coritiba. O único triunfo aconteceu contra a Chapecoense, lanterna da competição. São resultados que, acompanhados pelo desempenho apresentado em campo, colocam o trabalho do treinador muito abaixo do que se esperava de uma equipe com a estrutura e o investimento do Botafogo.
O problema não está apenas na pontuação ou na distância para a zona de rebaixamento, mas na ausência de sinais consistentes de recuperação. O Botafogo não demonstra segurança para defender, organização para construir jogadas nem intensidade para disputar as segundas bolas e impor seu ritmo. Em vez de transmitir a sensação de uma equipe que pretende reagir, o Alvinegro apresenta comportamentos de um time acuado, que comete erros básicos, perde o controle emocional das partidas e só tenta mudar o cenário quando já está em desvantagem.
Tite ainda não conseguiu construir uma identidade para o Botafogo
A contratação de Tite representava uma tentativa de estabilizar o Botafogo em um momento de turbulência. Conhecido por priorizar a organização coletiva, a compactação defensiva e o equilíbrio entre os setores, o treinador chegou com a missão de recuperar a competitividade de um elenco que vinha acumulando oscilações. A expectativa era que sua experiência permitisse organizar rapidamente a equipe, corrigir os principais problemas e afastar o risco de uma reta final marcada pela luta contra o rebaixamento.
Até agora, porém, aconteceu o contrário. O Botafogo continua apresentando falhas semelhantes às que marcaram suas partidas anteriores, sem demonstrar uma evolução clara na ocupação dos espaços ou na relação entre defesa, meio-campo e ataque. A equipe ainda parece procurar uma escalação ideal, enquanto as mudanças de peças não produziram uma estrutura confiável. Os desfalques ajudam a explicar parte das dificuldades, mas não justificam todos os problemas de posicionamento, concentração e tomada de decisão.
A derrota por 3 a 0 para o Internacional já havia mostrado essa fragilidade. Em Porto Alegre, o Botafogo teve dificuldades para competir fisicamente, perdeu disputas no meio-campo e concedeu espaços que permitiram ao adversário atacar com frequência. Mesmo diante de um Internacional que também enfrentava problemas na classificação e tinha desfalques importantes, o Alvinegro não conseguiu impor seu jogo. A atuação foi marcada pela falta de combatividade e por uma defesa que parecia incapaz de responder às movimentações adversárias.
Contra o Remo, os mesmos defeitos reapareceram. O time paraense abriu o placar aos sete minutos, aproveitando uma falha na defesa alvinegra, e encontrou espaço para ampliar no segundo tempo. O Botafogo teve mais posse em determinados momentos, mas não conseguiu transformar esse controle territorial em oportunidades suficientes para assumir o comando da partida. Quando finalmente marcou, com Edenilson, já restava pouco tempo para buscar o empate, e a reação aconteceu mais na base da insistência do que como consequência de um plano ofensivo bem executado.
É justamente essa ausência de identidade que torna o momento tão preocupante. Uma equipe pode atravessar uma sequência negativa e continuar demonstrando comportamentos coletivos capazes de sustentar uma recuperação. O Botafogo, no entanto, ainda não oferece essa referência. Não se percebe um padrão defensivo consolidado, uma saída de bola que permita superar a pressão adversária ou uma dinâmica ofensiva que produza vantagens de maneira repetida.
Tite precisa ser cobrado por isso. Seis jogos representam um período curto para avaliar definitivamente qualquer treinador, mas são suficientes para exigir sinais de evolução em aspectos fundamentais, sobretudo quando o clube enfrenta uma emergência esportiva. A questão não é cobrar que o técnico transforme imediatamente o Botafogo em uma equipe dominante, e sim que consiga torná-lo mais organizado, competitivo e difícil de ser batido. Até aqui, nem mesmo esse primeiro objetivo foi alcançado.
A defesa oferece espaços que um time ameaçado não pode conceder
A fragilidade defensiva é uma das situações mais evidentes da crise. O Botafogo tem sofrido gols em situações que poderiam ser evitadas com melhor posicionamento, comunicação e concentração. Contra o Remo, o primeiro gol nasceu de uma falha em uma jogada pelo lado, seguida por um erro de Domingos Andrade na disputa dentro da área. O segundo apareceu depois do intervalo, quando a defesa voltou a permitir que o adversário trabalhasse a bola em uma região perigosa e encontrasse espaço para finalizar.
Não se trata apenas de falhas individuais, embora elas tenham influência direta nos resultados. Quando os mesmos tipos de problema se repetem, a comissão técnica precisa examinar a estrutura que permite que esses erros aconteçam. A proteção das laterais, a cobertura dos volantes, a distância entre os zagueiros e a capacidade de reagir às bolas que atravessam a área são responsabilidades coletivas. Sem coordenação entre esses elementos, qualquer adversário encontra caminhos para ameaçar.
O Botafogo também tem dificuldade para defender depois de perder a posse. O meio-campo não consegue proteger a região central com regularidade, e a equipe oferece espaços para que os rivais avancem sem enfrentar pressão suficiente. Em algumas situações, os jogadores recuam de maneira desorganizada; em outras, tentam pressionar sem que os companheiros acompanhem o movimento. O resultado é uma equipe partida, com distâncias excessivas entre os setores e pouca capacidade de recuperar a bola em condições favoráveis.
Esse comportamento é incompatível com a situação vivida pelo clube. Times que lutam contra o rebaixamento precisam, antes de tudo, reduzir a quantidade de erros que oferecem oportunidades claras aos adversários. Não é necessário defender durante os 90 minutos, mas é indispensável manter uma estrutura que permita suportar momentos de pressão sem transformar cada ataque rival em uma ameaça concreta.
A reputação de Tite torna o problema ainda mais evidente. A organização defensiva costuma ser uma das bases de seus trabalhos, mas o Botafogo não apresenta a solidez esperada. Isso não significa que o treinador tenha perdido definitivamente a capacidade de organizar uma equipe, mas mostra que sua ideia ainda não se converteu em comportamentos confiáveis neste elenco.
A ausência de Danilo e Montoro contra o Remo também precisa ser considerada, pois reduziu as alternativas do treinador no meio-campo. Ainda assim, os desfalques não explicam por que a equipe falha em situações elementares de marcação nem por que oferece tanto espaço mesmo quando utiliza dois jogadores com funções defensivas. A comissão técnica precisa encontrar uma estrutura que proteja melhor a área e diminua a exposição dos defensores, independentemente de quais atletas estejam disponíveis.
Um meio-campo sem controle deixa o ataque isolado
A dificuldade para defender está diretamente ligada ao funcionamento do meio-campo. O Botafogo não consegue controlar o ritmo dos jogos, perde disputas importantes e encontra problemas para conectar a recuperação da bola com a construção ofensiva. Em vez de funcionar como o setor que organiza a equipe e permite que os jogadores da frente recebam em boas condições, o meio-campo tem sido um espaço de passagem para os adversários e uma fonte de insegurança para o próprio time.
A falta de equilíbrio fica evidente quando o Alvinegro tenta avançar. Os jogadores ofensivos frequentemente recebem a bola longe uns dos outros, sem apoio suficiente para construir combinações curtas ou atrair a marcação antes de acelerar. A equipe acaba recorrendo a passes laterais, lançamentos e cruzamentos, mas sem uma ocupação de área que aumente consistentemente as chances de finalização.
A situação de Hakim Ziyech ilustra parte desse problema. Principal contratação do Botafogo no meio da temporada, o marroquino encontra dificuldades para influenciar as partidas quando recebe a bola cercado por adversários e sem alternativas próximas. Contra o Remo, o time não conseguiu oferecer a ele condições regulares para criar, enquanto as subidas pelos lados deixavam espaços que o adversário explorava nas transições. A presença de um jogador tecnicamente qualificado não resolve, por si só, a falta de uma estrutura coletiva que o ajude a produzir.
O setor ofensivo também sofre com a ausência de regularidade de Arthur Cabral, que chegou ao confronto com o Remo sem marcar havia 17 jogos. O centroavante teve uma oportunidade importante, acertou o travessão, mas voltou a terminar uma partida sem conseguir converter as chances em gol. A seca individual não explica toda a falta de produção do Botafogo, já que o time cria pouco e nem sempre consegue abastecer o atacante em condições favoráveis, mas reforça a dimensão do problema.
Quando a equipe não constrói jogadas com qualidade, o centroavante fica dependente de cruzamentos e bolas disputadas dentro da área. Os pontas, por sua vez, precisam resolver situações individuais contra defesas que já estão organizadas. Sem movimentações coordenadas e aproximação entre os setores, o ataque se torna previsível e perde capacidade de pressionar o adversário de maneira contínua.
A entrada de Kauan Toledo contra o Remo trouxe alguma energia ao lado esquerdo, mas não alterou a estrutura da partida. Edenilson também marcou depois de entrar, mostrando que as substituições podem oferecer alternativas, mas a reação chegou tarde e não foi acompanhada por um controle suficiente para construir o empate. O Botafogo conseguiu pressionar nos minutos finais, porém não demonstrou que sabia como desmontar a defesa adversária de forma organizada.
É difícil sustentar uma recuperação na Série A quando a equipe não consegue defender com segurança nem atacar com consistência. O Botafogo está preso justamente nessa combinação: oferece oportunidades ao adversário e, ao mesmo tempo, tem dificuldade para criar o suficiente para compensar os erros cometidos atrás.
A postura em campo lembra a de um time que já entrou em desespero
O que mais preocupa no Botafogo é a maneira como a equipe reage aos acontecimentos das partidas. Sofrer um gol cedo pode alterar qualquer planejamento, mas um time bem organizado precisa ter recursos para reorganizar a pressão, controlar a ansiedade e continuar executando suas ideias. O Alvinegro, ao contrário, parece perder referências quando fica em desvantagem, acelera jogadas sem preparação e passa a depender de ações individuais para tentar mudar o placar.
Contra o Remo, o gol inicial foi seguido por um período em que o Botafogo teve dificuldade para encontrar espaços, enquanto o adversário conseguiu administrar a vantagem e ainda criou oportunidades em contra-ataques. Depois do segundo gol, a equipe ficou ainda mais vulnerável e acumulou erros de passe e decisões precipitadas. O desconto de Edenilson, aos 37 minutos do segundo tempo, deu algum impulso ao time, mas não foi suficiente para transformar a pressão final em uma reação efetiva.
Esse comportamento é típico de equipes que entram em campo sem confiança. A cada erro, aumenta a ansiedade; a cada gol sofrido, cresce a necessidade de resolver a partida rapidamente; e, quanto maior a pressa, mais difícil se torna executar as jogadas com precisão. O problema é que o Botafogo não parece ter uma estrutura coletiva capaz de compensar essa insegurança, o que transforma os momentos adversos em uma espiral negativa.
A expressão “jogar como um time rebaixado” não deve ser confundida com uma previsão matemática sobre o destino do clube. O Botafogo ainda está fora da zona de rebaixamento, com 39 pontos e cinco de vantagem sobre o primeiro time dentro do Z-4 antes da conclusão da rodada. A questão é que seu desempenho recente se aproxima do comportamento de equipes que se complicam na reta final: erros defensivos recorrentes, pouca produção ofensiva, dificuldade para competir em jogos decisivos e incapacidade de transformar a urgência em intensidade organizada.
O risco se torna maior porque o Botafogo não enfrenta apenas adversários que disputam as primeiras posições. A derrota para o Remo, que encerrou um jejum de 12 partidas sem vitória na Série A, mostrou que o Alvinegro também pode ser superado por equipes que precisam desesperadamente de pontos. O resultado não pode ser atribuído apenas à motivação do adversário ou às circunstâncias do jogo. O Remo aproveitou falhas concretas e demonstrou maior capacidade para transformar suas oportunidades em gols.
O Botafogo precisa recuperar a competitividade antes de pensar em qualquer objetivo mais ambicioso. A prioridade agora é tornar-se uma equipe capaz de disputar cada partida com concentração, equilíbrio e clareza sobre o que fazer com e sem a bola. Sem isso, a posição na tabela corre o risco de se tornar uma referência enganosa, porque os pontos conquistados anteriormente não garantem proteção contra uma sequência negativa na reta final.
(Foto: Fernando Torres/AGIF)



