O Athletico deixou o Barradão com um ponto importante na disputa pelas primeiras posições do Brasileirão, mas o empate por 1 a 1 com o Vitória, pela 32ª rodada, voltou a expor um problema que ameaça comprometer a campanha rubro-negra: a fragilidade defensiva no segundo turno. Com o gol sofrido em Salvador, o Furacão chegou a 19 gols concedidos desde o início da segunda metade da competição, igualando o número registrado em todo o primeiro turno, disputado em 19 partidas. O dado chama a atenção porque a equipe alcançou essa marca em apenas 13 jogos, evidenciando uma queda de rendimento que exige respostas de Odair Hellmann justamente quando cada resultado ganha importância na luta pela permanência entre os primeiros colocados.
O empate, considerado isoladamente, não representa um resultado ruim para um time que enfrenta desfalques importantes e precisou recorrer a jogadores da base para montar sua defesa. A equipe permanece na quarta colocação, com 54 pontos, e segue em posição favorável na reta final do campeonato. Entretanto, a dificuldade para evitar gols deixou de ser um problema pontual e passou a representar uma preocupação recorrente. O Athletico não consegue repetir a consistência defensiva que apresentou na primeira metade da competição, e a sequência recente mostra que os problemas vão além de uma única escolha de escalação.
A defesa perdeu a consistência que sustentou o primeiro turno
O contraste entre as duas metades do campeonato é o principal sinal de alerta para o Athletico. Nos primeiros 19 jogos, a equipe sofreu 19 gols e conseguiu construir uma campanha sustentada por maior equilíbrio defensivo. Desde a vitória sobre o Internacional, na abertura do segundo turno, até o empate com o Vitória, o time voltou a ser vazado outras 19 vezes, mas em apenas 13 partidas. O total de 38 gols sofridos no campeonato evidencia que a proteção da própria área se tornou uma das principais dificuldades da equipe.
A comparação não significa que todo gol sofrido tenha a mesma origem ou que a defesa seja a única responsável pelos resultados recentes. O desempenho coletivo depende da pressão exercida pelos jogadores da frente, da proteção oferecida pelo meio-campo, do posicionamento da última linha e da capacidade do goleiro de responder às finalizações adversárias. Ainda assim, a repetição dos gols sofridos indica que o problema não pode ser tratado apenas como consequência de episódios isolados.
A última partida em que o Athletico terminou sem sofrer gols foi contra o Santos, pela 22ª rodada, em agosto. Desde então, foram 19 gols concedidos em dez jogos, uma sequência que demonstra a dificuldade para recuperar a solidez defensiva. Quando uma equipe passa tantas partidas sem conseguir proteger a própria meta, torna-se mais difícil administrar vantagens no placar e conquistar resultados mesmo nos dias em que o ataque não funciona como esperado.
Essa fragilidade tem impacto direto na margem de erro do time. Uma defesa consistente permite que a equipe atravesse períodos de menor produção ofensiva sem necessariamente perder pontos, enquanto uma sequência de falhas obriga o ataque a produzir mais para compensar os gols sofridos. Na reta final do Brasileirão, essa dinâmica pode ser especialmente prejudicial, porque os adversários também disputam pontos importantes e tendem a aproveitar qualquer espaço oferecido.
O Athletico ainda está em uma posição competitiva, mas a colocação na tabela não elimina a necessidade de corrigir o problema. A campanha do primeiro turno mostrou que o time tinha condições de defender melhor, e a diferença entre os dois períodos sugere que as dificuldades atuais estão relacionadas tanto às ausências quanto à perda de estabilidade na formação defensiva.
Desfalques obrigam Odair Hellmann a improvisar na última linha
A situação do elenco ajuda a explicar parte da queda de rendimento. Contra o Vitória, Odair Hellmann não pôde contar com os zagueiros Arthur Dias e Dantas, ambos entregues ao departamento médico. Sem Carlos Terán, que está fora dos planos, e com Léo preterido, o treinador precisou recorrer a alternativas para completar a defesa e escalou Bruno Baldini, jogador da base, ao lado de Aguirre e Esquivel.
A estreia de Baldini no Campeonato Brasileiro representou uma oportunidade importante para o jovem, mas também o colocou diante de uma responsabilidade considerável em um momento delicado da temporada. A adaptação ao nível de exigência da competição envolve não apenas a capacidade de disputar duelos individuais, mas também o entendimento dos posicionamentos, a comunicação com os companheiros e a leitura das movimentações adversárias. Em uma linha defensiva que já precisa lidar com mudanças frequentes, essas exigências se tornam ainda maiores.
Não seria justo atribuir a queda de rendimento exclusivamente ao jovem zagueiro. Uma estreia em um sistema que depende de coordenação entre três defensores exige tempo de adaptação, e as dificuldades coletivas não podem ser resumidas à atuação de um único atleta. O problema central é que Odair tem encontrado obstáculos para repetir a mesma estrutura defensiva de uma rodada para outra, situação que dificulta a criação de mecanismos de proteção mais estáveis.
Na partida anterior, contra o Palmeiras, o treinador precisou improvisar o volante Luiz Gustavo na zaga porque Esquivel estava ausente. A última vez que o Athletico havia utilizado três zagueiros de ofício tinha sido diante do Bahia, quando contou com Dantas, Aguirre e Arthur Dias. A sequência evidencia como as lesões alteraram as possibilidades de escalação e obrigaram a comissão técnica a procurar soluções diferentes para manter o sistema de jogo.
A utilização de jogadores da base pode ser necessária diante das circunstâncias, mas a equipe precisa encontrar uma forma de reduzir o impacto dessas mudanças. Isso passa pela organização coletiva, pela proteção do meio-campo e pela definição de responsabilidades claras para cada jogador. Quando a última linha muda com frequência, o restante do time precisa oferecer referências que ajudem a compensar a falta de continuidade entre os defensores.
Mycael também entra na discussão sobre os gols sofridos
Além dos desfalques na defesa, o desempenho do goleiro Mycael aparece como outro ponto de atenção na análise da campanha. O arqueiro está entre aqueles que menos evitam gols no Campeonato Brasileiro, indicador que reforça a necessidade de avaliar sua contribuição para a proteção da meta rubro-negra. A análise, porém, precisa considerar que o rendimento de um goleiro também é influenciado pela qualidade e pela dificuldade das finalizações que enfrenta.
Não é possível atribuir os 19 gols sofridos em dez partidas apenas ao camisa 23, assim como seria inadequado ignorar sua participação na discussão. A defesa de uma equipe funciona como um conjunto: quando os adversários encontram espaço para finalizar em boas condições, a responsabilidade começa antes de a bola chegar ao goleiro. Ao mesmo tempo, as intervenções individuais podem impedir que erros de posicionamento ou falhas de marcação se transformem em gols.
O Athletico precisa, portanto, encontrar um equilíbrio entre corrigir a organização defensiva e melhorar a resposta nos momentos em que o adversário consegue finalizar. A atuação do goleiro deve ser avaliada dentro desse contexto, sem transformar Mycael no único responsável por uma sequência que envolve problemas de disponibilidade de jogadores e de consistência coletiva.
O dado mais preocupante é que o Furacão não consegue encerrar uma partida sem sofrer gols desde agosto. A repetição dessa situação sugere que a equipe precisa recuperar mecanismos que permitam controlar melhor os ataques rivais, diminuir o número de oportunidades concedidas e aumentar a segurança nos momentos de maior pressão. Mesmo quando não é possível evitar todas as finalizações, reduzir a qualidade das chances adversárias pode fazer diferença na reta decisiva.O retorno de Dantas pode ajudar o Furacão a recuperar o equilíbrio
A perspectiva de contar novamente com Dantas é uma notícia positiva para o Athletico. O zagueiro está em fase de transição e pode reforçar a equipe nesta sequência final, enquanto Arthur Dias também será acompanhado após ficar fora por dores na coxa. A recuperação dos dois pode oferecer mais opções a Odair e diminuir a necessidade de improvisações que marcaram as últimas rodadas.
O retorno de Dantas, contudo, não deve ser tratado como uma solução automática para todos os problemas. A presença de um defensor habitual pode aumentar a familiaridade entre os jogadores e facilitar a organização da última linha, mas a sequência de gols sofridos mostra que o Athletico precisa melhorar também a proteção coletiva e a capacidade de controlar as oportunidades adversárias. A disponibilidade de mais zagueiros oferece condições melhores para trabalhar, mas a correção precisa aparecer no comportamento de toda a equipe.
A prioridade será recuperar a estabilidade que marcou o primeiro turno. Isso significa diminuir as falhas de posicionamento, melhorar a comunicação entre os defensores e evitar que o time permita tantas finalizações em situações favoráveis. Também será importante reduzir a dependência de mudanças emergenciais durante as partidas, embora as lesões tornem inevitável algum grau de adaptação.
O Athletico continua em uma posição que lhe permite sonhar com um encerramento positivo de campeonato, e o empate com o Vitória contribuiu para preservar essa condição. Entretanto, a sequência defensiva não pode ser ignorada. Sofrer em 13 jogos do segundo turno o mesmo número de gols concedidos ao longo de toda a primeira metade da competição é um sinal claro de que a equipe perdeu parte do equilíbrio que sustentava sua campanha.
O Furacão precisa transformar os pontos conquistados em uma base para reagir, não em motivo para adiar os ajustes necessários. A quarta colocação, com 54 pontos, mantém o clube na disputa, mas a permanência entre os primeiros dependerá da capacidade de voltar a defender melhor. O retorno de peças importantes pode ajudar, desde que venha acompanhado de uma resposta coletiva. Na reta final do Brasileirão, o Athletico ainda tem condições de sustentar sua campanha, mas precisará recuperar a segurança defensiva para que os desfalques não continuem custando pontos.
(Foto: Luís Miguel Ferreira/Athletico)


