Cabo Verde fez história novamente no empate contra o Uruguai, por 2 a 2, no Hard Rock Stadium, em Miami (EUA). O resultado garantiu mais uma história memorável para o legado das Copas do Mundo, mas mais ainda: permitiu que os estreantes no torneio sonhem com uma classificação para a próxima fase.
Do outro lado, os uruguaios reabrem o debate sobre o onze inicial escalado por Marcelo Bielsa, que segue indiferente quanto a sua postura temperamental, mas sem nenhum resultado expressivo na competição. O empate garantiu mais um ponto para os dois — só que com gosto doce para o lado africano e amargo para os sul-americanos.
A seguir, quatro impressões que ficaram do histórico empate entre Uruguai e Cabo Verde:
Fernando Muslera e a vilania uruguaia
Cinco participações em Copas no currículo não é para qualquer um, ainda mais quando se representa a farda de uma bicampeã mundial. Fernando Muslera nunca esteve no caminho de se tornar um Roque Máspoli ou Ladislao Mazurkiewicz — goleiros da Celeste nos anos 50 e 70, respectivamente.—, mas sua assiduidade nas convocações da seleção davam a entender que ele entraria no mesmo hall que as duas lendas. Só que a atuação do arqueiro contra Cabo Verde veio para desarmar qualquer tipo de trama épica.
O Uruguai acumulou falhas individuais consecutivas, entre elas as de Muslera. O atual jogador do Estudiantes de la Plata fez apenas duas defesas em 12 arremates tentados pelos cabo-verdianos — sendo que outros dois balançaram as redes.
No primeiro, claramente houve um equívoco na montagem da barreira. Desde que Cabo Verde deu seu primeiro toque na bola em Copas do Mundo, era sabido que Kevin Pina tentaria o chute de fora da área, ao invés do levantamento. A execução do chute não foi tão esplêndida, entretanto foi suficiente para ver que erros infantis acontecem em torneios de calibre como a Copa.
Tendo uma barreira com dois homens somente — e estes mesmos que compõem o bloqueio abrem espaço para a bola passar — e ainda sofrer o gol, certamente é para tirar o treinador do sério. Independentemente disso, Marcelo Bielsa já estava em seu estado normal de fúria, estando em desvantagem no placar ou não.
Bielsa resolve um problema e encontra outro
Na partida contra a Arábia Saudita, era evidente que o Uruguai carecia de ideias no campo de ataque. Sem Arrascaeta, o método de Marcelo Bielsa foi montar um esquema que se baseava nos “Federico’s”, Valverde e Viñas, junto de Maxi Araújo, flutuando atrás de Darwin Núñez.
O grande ponto nesta sacada é que o time tinha velocidade e rotação de sobra no meio, mas não tinha que pensasse as tramas. Valverde, apesar de ser conhecido pela sua versatilidade, está longe de prestar-se ao papel de exímio armador. É um grande finalizador, mas não tem a característica de ser inventivo.
Por isso, Arrascaeta, é segurado ao máximo pela comissão técnica, evitando qualquer decisão precipitada por um corte na convocação. Lesionado, o camisa 10 do Flamengo segue em tratamento de uma lesão na panturrilha, embora já treine com o restante do elenco do Uruguai. A prioridade é para uma postura mais cautelosa e preventiva, evitando maiores problemas.
De todo o modo, na primeira rodada, o meio estava veloz e infértil, e lento no último terço — já que Darwin Núñez é um centroavante. Na segunda etapa daquele confronto, Bielsa mexeu e colocou mais mobilidade no comando de ataque, com Canobbio. A estratégia deu certo e o time empatou.
Só que contra Cabo Verde, Bielsa manteve o time mais móvel semelhante ao que terminou o duelo contra os árabes, e encontrou um novo problema: a conclusão.
O cenário era completamente oposto ao que foi contra os sauditas: o time criava, mas não tinha quem empurrasse a bola para as redes. Era uma sinuca de bico. “El Loco” mudou o taco, mas seguiu sem encaçapar uma vitória.
Cabo Verde e um desempenho impecável defensivamente
Contra a Espanha, uma atuação sublime. Diante do Uruguai, repete-se a dose. Esse é o sinônimo de regularidade, definição para o que foi Cabo Verde nos dois jogos contra campeões mundiais.
A Celeste Olímpica acelerou o jogo em diversos momentos e a atuação do quarteto de zaga, Steven Moreira, Pico, Diney e Lopes Cabral, foi irrepreensível novamente. Com ênfase no camisa 4, que teve sucesso em todos os desarmes e perdeu somente três dos oito duelos disputados, pelo chão e pelo alto.
No total, foram 16 desarmes para cada lado. É em virtude desses gigantes na retaguarda que Cabo Verde interceptou as tramas uruguaias e teve contragolpes para fazer, até mesmo, o terceiro gol. A vitória não veio, mas se tivesse, não seria nenhum absurdo.
Vozinha sente a pressão e não consegue repetir a boa atuação
Destaque da estreia, Vozinha foi o ponto negativo da exibição de Cabo Verde contra o Uruguai. Tenso e afobado em diversos momentos da partida, o camisa 1 não conseguiu fazer uma defesa sequer e ainda foi vazado duas vezes.
Nos lances dos gols, principalmente o de Maxi Araújo — o primeiro do Uruguai —, o arqueiro cabo-verdiano não se posicionou bem. Em outras oportunidades, foi mal sucedido nas intervenções e teve muita sorte em não ter sofrido mais gols.
Ao que pareceu, a confiança da primeira rodada deu lugar ao nervosismo, do qual até mesmo o prejudicou na saída de jogo. Para tanta experiência — já que se trata de um atleta de 40 anos — sentir o peso de um confronto de segunda rodada, soa até anormal. Contudo, se tratando de um momento histórico e por ser representante de uma nação inteira, explica-se o estado do goleiro.
No fim, o resultado premiou novamente uma performance eficiente e competente dos cabo-verdianos. A capital do país, Praia, realmente merece novamente um dia de feriado. Até aqui, Cabo Verde consolidou-se como a ‘Zebra’ da Copa do Mundo 2026 e ruma para a última rodada com chances de classificar para os 16 avos de final.
Créditos da foto de capa: Amanda Perobelli/Reuters