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Canelo Alvarez mostrou que ainda pertence à elite, mas divisão dos super-médios precisa oferecer desafios maiores

Canelo Alvarez voltou ao ringue para demonstrar que, aos 36 anos, ainda possui recursos técnicos e experiência suficientes para controlar os principais adversários da categoria dos super-médios. Na vitória por pontos sobre Christian Mbilli, em Riad, o mexicano neutralizou justamente a característica que tornava o francês uma ameaça: a pressão constante. Com um trabalho eficiente de jab, posicionamento defensivo e contragolpes, o campeão do WBC controlou o ritmo da luta e deixou uma mensagem importante para a divisão. O problema é que, embora tenha reafirmado sua competitividade, Canelo ainda precisa encontrar adversários capazes de transformar seu caminho até novas grandes lutas em um desafio esportivo à altura de seu currículo.

O confronto também ajudou a revelar questões que vão além do resultado principal. Jaime Munguia venceu Nikita Zon, mas voltou a apresentar vulnerabilidades defensivas que podem custar caro contra adversários mais qualificados. Entre os possíveis rivais de Canelo, nomes como Hamzah Sheeraz, Lester Martinez e Osleys Iglesias oferecem características interessantes, embora nenhum reúna, neste momento, todos os elementos necessários para se transformar em um grande evento. Fora do ringue, a transmissão prolongada e as preocupações com a segurança em Riad também levantaram dúvidas sobre o planejamento de grandes noites do boxe.

Canelo neutralizou a principal arma de Mbilli

A vitória de Canelo sobre Mbilli merece ser valorizada pela maneira como foi construída. O francês chegou à luta conhecido pela capacidade de pressionar os adversários, manter um volume elevado de golpes e transformar o combate em uma disputa física. Contra Lester Martinez, em 2025, e Sergiy Derevyanchenko, em 2024, havia demonstrado justamente essa disposição ofensiva. Diante do mexicano, entretanto, encontrou dificuldades para repetir o mesmo desempenho.

Os números ajudam a dimensionar a diferença. Mbilli acertou uma média de 10,6 golpes por round contra Canelo, bem abaixo dos 21,5 registrados diante de Derevyanchenko e dos 27,3 contra Martinez. Sua precisão também caiu consideravelmente: ficou em 17,5%, enquanto havia alcançado 30,9% e 34,7% nos confrontos anteriores, respectivamente. Mesmo quando aumentou o volume na segunda metade da luta, o francês não conseguiu transformar a iniciativa em golpes efetivos.

Essa queda de rendimento não deve ser interpretada apenas como uma dificuldade de Mbilli para lidar com a dimensão do evento ou com a presença de um adversário consagrado. Canelo teve participação direta nesse cenário ao controlar a distância e impedir que o francês estabelecesse sua pressão habitual. O mexicano utilizou o jab para interromper os avanços, manteve um posicionamento defensivo que dificultava a entrada do rival e encontrou oportunidades para responder com contragolpes.

A estratégia também teve um efeito psicológico. À medida que as investidas de Mbilli eram neutralizadas, o francês passou a demonstrar maior hesitação para iniciar novas trocas. Seu volume de golpes aumentou nos últimos seis rounds, mas a precisão continuou baixa, indicando que a urgência por buscar o resultado não foi acompanhada por uma melhora na qualidade das ações.

Aos 36 anos, Canelo talvez já não apresente a mesma explosão física de seu auge, mas continua sendo um boxeador extremamente experiente, capaz de identificar padrões e adaptar sua estratégia durante o combate. Contra Mbilli, não precisou transformar a luta em uma disputa de força ou velocidade. Foi suficiente controlar o ritmo e obrigar o adversário a lutar em condições desfavoráveis.

O resultado reforça que o mexicano ainda merece ser tratado como uma referência da divisão. Sua atuação não significa que seja invulnerável ou que tenha recuperado todas as características de seu melhor momento, mas demonstra que continua sabendo neutralizar adversários perigosos quando consegue impor sua leitura do combate.

Jaime Munguia venceu, mas suas vulnerabilidades continuam preocupantes

A vitória de Jaime Munguia sobre Nikita Zon ofereceu um contraste interessante com a atuação de Canelo. Os dois trabalham sob a orientação de Eddy Reynoso, treinador associado à disciplina defensiva, à pressão calculada e à eficiência nos contragolpes do principal nome de sua equipe. Munguia, entretanto, apresenta um estilo muito diferente, baseado no volume de golpes, na agressividade e na capacidade de suportar situações de perigo.

O mexicano venceu por decisão unânime e manteve o cinturão da WBA, mas o placar de 117-111, repetido por dois juízes, e o 116-112 do terceiro não mostram completamente o risco que correu durante a luta. Zon conseguiu desorganizar seu ritmo nos primeiros rounds, aproveitou as brechas defensivas e chegou perto de mudar o resultado no sexto assalto, quando acertou um uppercut que abalou Munguia e abriu espaço para uma sequência de golpes que chamou a atenção do árbitro Tony Weeks.

Munguia sobreviveu ao momento mais delicado e conseguiu recuperar o controle. Depois de também machucar Zon no quinto round, passou a trabalhar melhor os golpes no corpo e aproveitou o desgaste do adversário na segunda metade do confronto. Sua experiência nos rounds de campeonato foi importante para administrar a luta e garantir a vitória, mas o susto deixou evidente que algumas limitações continuam presentes.

O mexicano ainda oferece espaços para uppercuts, aceita trocas desnecessárias e nem sempre demonstra responsabilidade defensiva quando parte para o ataque. A agressividade pode ser uma vantagem contra adversários que não conseguem acompanhar seu ritmo, mas se transforma em um problema diante de boxeadores capazes de aproveitar os erros com precisão.

A próxima defesa obrigatória, diante de Bektemir Melikuziev, prevista para o início de 2027, pode representar um teste mais severo. O uzbeque reúne força e experiência suficientes para explorar as brechas apresentadas por Munguia. Se o campeão repetir os mesmos comportamentos defensivos, poderá encontrar dificuldades maiores do que aquelas impostas por Zon.

A diferença entre os dois mexicanos também mostra que trabalhar com o mesmo treinador não significa necessariamente desenvolver o mesmo estilo. Canelo construiu uma identidade baseada no controle e na seleção dos golpes, enquanto Munguia continua dependendo muito da intensidade ofensiva e da resistência física. Reynoso pode contribuir para corrigir suas limitações, mas a evolução defensiva do campeão ainda precisa aparecer de maneira mais consistente.

Quem realmente pode desafiar Canelo nos super-médios?

A vitória sobre Mbilli também recoloca uma questão importante: quais adversários ainda podem oferecer a Canelo um desafio esportivo relevante dentro dos super-médios? A categoria reúne nomes promissores e campeões de diferentes organizações, mas ainda carece de um confronto que combine ameaça técnica, reconhecimento internacional e apelo comercial.

Hamzah Sheeraz é uma das possibilidades mais interessantes. O britânico possui aproximadamente 1,91 metro de altura, vantagem física considerável para a divisão, além de alcance e potência que poderiam dificultar o trabalho do mexicano. Sua vitória contundente sobre Edgar Berlanga, em 2025, aumentou as expectativas em torno de seu potencial. Entretanto, o desempenho posterior contra Simon Zachenhuber, quando venceu por decisão majoritária, não confirmou plenamente a impressão deixada na luta anterior.

Lester Martinez também merece atenção. Como campeão interino do WBC, possui um caminho natural para enfrentar Canelo e já demonstrou capacidade de competir contra adversários relevantes. Suas vitórias sobre Immanuwel Aleem e Luka Plantic fortaleceram sua posição, mas o empate dividido contra Mbilli, em 2025, dificulta a construção de uma narrativa favorável. Afinal, Canelo acabou de superar o francês com relativa tranquilidade, o que torna mais difícil apresentar Martinez como um adversário capaz de oferecer um desafio superior.

Osleys Iglesias talvez seja o nome mais perigoso do ponto de vista técnico. Aos 28 anos, o cubano é campeão dos super-médios pela IBF e combina potência, precisão e uma postura ofensiva que o diferencia dos adversários mais conhecidos de Canelo. Canhoto, Iglesias venceu 15 de suas 16 lutas por interrupção e nocauteou Oliver Zaren em outubro, preservando uma trajetória que o coloca entre os nomes mais interessantes da divisão.

O cubano também já manifestou interesse em uma unificação contra Canelo. O obstáculo, nesse caso, não parece ser a falta de argumentos esportivos, mas a diferença de projeção comercial entre os dois. Iglesias ainda não possui o reconhecimento de outros nomes do boxe internacional, o que pode dificultar a organização de uma luta desse porte, mesmo que represente um risco considerável dentro do ringue.

Munguia, apesar de possuir um cinturão, também não parece ser uma alternativa provável. Além de treinar com Canelo sob a orientação de Reynoso, foi derrotado pelo mexicano em 2024. Uma revanche poderia despertar interesse comercial, mas não representa necessariamente o desafio mais convincente para o campeão.

A divisão, portanto, tem candidatos, mas ainda não apresenta um adversário incontestável. Iglesias parece oferecer a ameaça técnica mais interessante, Martinez possui uma justificativa esportiva clara e Sheeraz apresenta atributos físicos capazes de criar dificuldades. Canelo, por sua vez, continua em uma posição na qual pode escolher entre diferentes possibilidades sem que nenhuma delas pareça obrigatória.

A transmissão do evento mostrou que o boxe precisa respeitar o tempo do público

A noite em Riad também voltou a expor um problema recorrente na organização de grandes eventos de boxe: a duração excessiva das transmissões. A programação do pay-per-view passou longos períodos entre as lutas com entrevistas, análises de estúdio, reportagens de bastidores e conteúdos promocionais que pouco acrescentavam à experiência de quem acompanhava o evento.

A crítica não está direcionada à qualidade dos profissionais responsáveis pela transmissão, mas à maneira como os organizadores estruturam a programação. Quando uma luta termina antes do previsto, o intervalo poderia ser reduzido para permitir que o card avançasse com maior fluidez. Em vez disso, o público frequentemente precisa esperar longos períodos até o próximo combate, mesmo quando não existe uma necessidade esportiva ou técnica que justifique a demora.

Dana White, presidente do UFC e cofundador da Zuffa Boxing, já criticou publicamente esse modelo, argumentando que o boxe transforma eventos esportivos em longas sequências de programas de estúdio. A noite de Canelo e Mbilli reforçou essa percepção, especialmente porque a transmissão parecia oferecer mais tempo de discussão do que de ação no ringue.

O problema não é exclusivo de Riad. A edição de julho do evento entre Anthony Joshua e Kristian Prenga também foi marcada por uma programação excessivamente longa, apesar de contar com um card que poderia ter avançado de maneira mais objetiva. Outras modalidades de combate, como o wrestling profissional de Real American Freestyle e o boxe sem luvas do Bare Knuckle Fighting Championship, oferecem exemplos de eventos que conseguem manter maior continuidade entre as disputas.

O boxe não precisa copiar integralmente o formato do UFC, mas deveria compreender que a experiência do público também depende de uma programação eficiente. Uma transmissão mais dinâmica não exige eliminar análises ou entrevistas, e sim encontrar um equilíbrio entre conteúdo editorial e tempo de espera. O objetivo deve ser valorizar as lutas, não fazer com que elas pareçam interrupções em meio a uma programação televisiva.

A ausência de incidentes não elimina os riscos de realizar eventos em Riad

A realização do evento na Arábia Saudita também levantou preocupações que ultrapassam o esporte. Durante a semana da luta, moradores de Riad receberam alertas oficiais sobre ameaças aéreas, com orientações para permanecer em locais seguros e evitar áreas próximas a janelas e portas. As recomendações incluíam cautela com grandes aglomerações e locais públicos que poderiam representar alvos em situações de risco.

O contexto tornava a realização de um evento internacional de grande porte uma decisão que exigia avaliação cuidadosa. Havia relatos de ataques com vítimas e feridos na região, além de alertas de governos estrangeiros sobre os riscos de viagens não essenciais ao país. Não se tratava, portanto, de uma preocupação abstrata ou de uma hipótese sem relação com a situação de segurança local.

A programação esportiva ocorreu sem um incidente durante a noite, mas isso não significa que os riscos fossem inexistentes ou que a decisão de manter o evento tenha sido necessariamente adequada. A ausência de uma tragédia não transforma automaticamente uma escolha arriscada em uma decisão bem planejada. A segurança de atletas, equipes, profissionais de transmissão e espectadores deveria ser uma prioridade anterior a qualquer compromisso comercial.

A expansão do boxe na Arábia Saudita tem sido acompanhada por investimentos expressivos e pela tentativa de transformar Riad em um dos principais centros mundiais da modalidade. Esse projeto trouxe grandes confrontos e oportunidades para atletas, mas também precisa demonstrar que consegue conciliar ambição comercial com responsabilidade na organização dos eventos.

A noite de Canelo e Mbilli deixou, assim, uma avaliação dividida. Dentro do ringue, o mexicano mostrou que continua capaz de controlar adversários de alto nível e que ainda pode oferecer desafios relevantes à divisão dos super-médios. Fora dele, porém, a transmissão prolongada e as preocupações com a segurança revelaram problemas que não podem ser ignorados.

Canelo saiu de Riad com o cinturão e uma vitória que reforça sua posição entre os principais nomes do boxe. A questão agora é encontrar um adversário capaz de testar de verdade o estágio atual de sua carreira. Iglesias, Martinez e Sheeraz oferecem caminhos diferentes, mas a categoria ainda precisa transformar essas possibilidades em confrontos concretos. O mexicano mostrou que ainda tem muito a oferecer; cabe ao boxe encontrar maneiras de construir uma sequência de eventos que esteja à altura do que acontece dentro do ringue.

(Foto: Getty Images)