Makhachev ufc
Lutas UFC

Islam Makhachev já construiu um legado entre os maiores da história do UFC, mas onde terminaria se encerrasse a carreira agora?

Islam Makhachev começou a sinalizar que está mais perto do fim da carreira do que de uma nova fase de conquistas. Aos 35 anos, o campeão dos meio-médios afirmou que sua próxima luta será uma das últimas da trajetória no UFC, uma declaração que muda a perspectiva sobre seu legado e levanta uma pergunta inevitável: se decidisse parar agora, em que posição estaria entre os maiores lutadores da história do UFC? Com 29 vitórias em 30 combates, uma sequência de 17 triunfos consecutivos na organização e cinturões conquistados em duas categorias, o russo já reúne argumentos para ocupar um lugar de destaque na história do esporte. A discussão, porém, fica mais complexa quando seu currículo é comparado ao de nomes como Georges St-Pierre, Jon Jones, Anderson Silva e o próprio Khabib Nurmagomedov.

A declaração de Makhachev também chama a atenção pelo momento em que acontece. Depois de dominar o peso-leve durante anos, o russo abriu mão do cinturão para subir aos meio-médios e conquistar um segundo título. Em novembro de 2026, derrotou Jack Della Maddalena e alcançou o topo da nova divisão, antes de defender o cinturão contra Ian Machado Garry, em agosto de 2027. Agora, espera enfrentar o vencedor do confronto entre Carlos Prates e Michael Morales, previsto para janeiro de 2027, em uma disputa que pode representar um dos últimos capítulos de sua carreira.

O próprio Makhachev demonstrou disposição para enfrentar o adversário considerado mais perigoso entre os dois candidatos. A escolha combina com a imagem que construiu ao longo dos últimos anos: um campeão que não parece interessado em evitar desafios e que pretende encerrar a trajetória enfrentando os melhores disponíveis. Ainda assim, a possibilidade de aposentadoria torna cada luta mais importante para a avaliação histórica de seu currículo, especialmente porque o russo já conquistou feitos que poucos atletas conseguiram alcançar.

Dois cinturões e uma sequência histórica colocam Makhachev na elite

O primeiro argumento a favor de Makhachev está na combinação entre longevidade competitiva e domínio dentro do UFC. Sua sequência de 17 vitórias consecutivas é a maior da história da organização, um número que demonstra não apenas sua capacidade de vencer, mas também a regularidade necessária para permanecer no topo durante anos. Em uma modalidade na qual lesões, mudanças de categoria e confrontos de alto risco podem interromper rapidamente uma trajetória, manter esse nível de consistência representa uma conquista expressiva.

O russo também estabeleceu uma marca importante no peso-leve. Entre 2023 e 2025, defendeu o cinturão quatro vezes consecutivas, um recorde da categoria no UFC. A sequência consolidou seu domínio em uma divisão historicamente competitiva, na qual nomes como Charles Oliveira, Dustin Poirier, Justin Gaethje e Alexander Volkanovski representaram desafios de alto nível.

A vitória sobre Charles, em outubro de 2022, foi um dos momentos que ajudaram a definir sua trajetória. Ao conquistar o cinturão diante de um adversário que vinha de uma sequência impressionante de vitórias por finalização, Makhachev demonstrou que seu wrestling e seu controle posicional poderiam funcionar contra um dos lutadores mais perigosos da divisão. A partir dali, passou a construir um reinado que o colocou entre os principais nomes da história do peso-leve.

As defesas seguintes ampliaram essa percepção. Makhachev superou Alexander Volkanovski duas vezes, Dustin Poirier e outros adversários de primeira linha, demonstrando capacidade para adaptar seu jogo a diferentes estilos. A vitória sobre Volkanovski, em especial, teve valor simbólico porque colocou frente a frente dois campeões considerados entre os melhores do mundo, em um confronto que ajudou a fortalecer a posição do russo no ranking peso por peso.

A mudança para os meio-médios acrescentou outra dimensão ao legado. Em vez de permanecer em uma categoria na qual já havia estabelecido uma posição dominante, Makhachev decidiu buscar um segundo cinturão. A conquista sobre Jack Della Maddalena mostrou que seu jogo poderia funcionar também diante de adversários naturalmente maiores, embora a diferença física e as exigências da nova divisão representassem um desafio relevante.

Ser campeão em duas categorias é um feito reservado a um grupo restrito de lutadores. Mais importante, Makhachev não conquistou o segundo título apenas por uma oportunidade circunstancial: chegou aos meio-médios depois de construir um dos reinados mais consistentes do peso-leve. Essa combinação fortalece seu argumento para ser considerado um dos maiores da história, mesmo que ainda exista uma diferença entre conquistar dois cinturões e estabelecer um domínio prolongado em ambas as divisões.

Onde Makhachev ficaria na comparação com Khabib?

A comparação com Khabib Nurmagomedov é inevitável. Além da relação entre mestre e discípulo, os dois compartilham uma base técnica semelhante e construíram suas carreiras a partir de um estilo de pressão, quedas e controle posicional. Khabib encerrou sua trajetória invicto, com 29 vitórias, enquanto Makhachev chegou a 29 triunfos e uma derrota, mas desenvolveu um currículo mais extenso dentro do UFC e conquistou cinturões em duas categorias.

O legado de Khabib, entretanto, não pode ser reduzido ao número de títulos. O russo construiu uma reputação baseada em domínio absoluto sobre adversários de elite e encerrou a carreira depois de defender o cinturão peso-leve diante de Justin Gaethje. Sua aposentadoria aos 32 anos deixou a sensação de que ainda poderia conquistar outros feitos, mas também preservou uma marca que dificilmente será reproduzida: terminar a carreira sem derrotas.

Makhachev escolheu um caminho diferente. Em vez de encerrar a trajetória depois de consolidar o domínio no peso-leve, decidiu subir de categoria e buscar um novo cinturão. Essa decisão amplia seu currículo e oferece argumentos para colocá-lo acima de Khabib em algumas avaliações históricas, sobretudo quando o critério considera conquistas em diferentes divisões e a quantidade de defesas de título.

Por outro lado, a invencibilidade de Khabib continua sendo um diferencial importante. Makhachev sofreu uma derrota profissional para Adriano Martins, em 2015, no início de sua trajetória no UFC. O resultado não diminui suas conquistas posteriores, mas impede que ele reproduza o argumento de uma carreira perfeita que acompanha o antigo companheiro de equipe.

A comparação depende, portanto, do peso atribuído a cada conquista. Khabib encerrou a carreira invicto e apresentou um domínio extraordinário no peso-leve; Makhachev construiu uma sequência maior de vitórias no UFC, defendeu o cinturão quatro vezes e conquistou títulos em duas categorias. Se parasse agora, teria argumentos para disputar com Khabib a posição de maior representante da escola de luta do Daguestão, embora a discussão sobre quem deixou o legado mais forte continuasse aberta.

O que falta para alcançar Georges St-Pierre e Jon Jones?

Quando a discussão se amplia para os maiores da história do UFC, dois nomes aparecem inevitavelmente: Georges St-Pierre e Jon Jones. Ambos construíram currículos que combinam conquistas em diferentes momentos da carreira, longevidade no topo e vitórias contra adversários que marcaram suas respectivas gerações. Makhachev já possui elementos para entrar nessa conversa, mas ainda há diferenças importantes entre os legados.

St-Pierre conquistou cinturões em duas categorias e acumulou nove defesas do título dos meio-médios, além de ter encerrado a carreira com uma vitória sobre Michael Bisping para conquistar o cinturão dos médios. Sua trajetória é frequentemente lembrada pela capacidade de corrigir falhas, adaptar estratégias e voltar mais forte depois de derrotas. O canadense também construiu um domínio prolongado em uma divisão extremamente competitiva, algo que Makhachev ainda não reproduziu nos meio-médios.

Jon Jones, por sua vez, acumulou um número excepcional de vitórias em disputas de cinturão e passou anos enfrentando adversários de diferentes gerações. Seu currículo inclui conquistas no meio-pesado e no peso-pesado, embora a trajetória também tenha sido marcada por controvérsias fora do octógono e períodos de afastamento. A comparação com Makhachev envolve, portanto, não apenas títulos, mas a quantidade de tempo em que cada um conseguiu permanecer entre os principais nomes da organização.

O russo tem a vantagem de já ter conquistado cinturões em duas categorias e de possuir uma sequência de vitórias sem precedentes no UFC. Entretanto, se encerrar a carreira depois de poucas defesas no peso meio-médio, seu segundo reinado terá uma dimensão menor do que o período de domínio estabelecido no peso-leve. Essa diferença pode ser decisiva para quem considera a longevidade como um dos critérios mais importantes na avaliação dos maiores campeões.

Anderson Silva também precisa aparecer nessa discussão. O brasileiro estabeleceu um dos reinados mais longos da história do UFC, com dez defesas consecutivas do cinturão dos médios e uma sequência de 16 vitórias na organização. Seu domínio foi marcado por atuações que mudaram a percepção sobre o que era possível fazer dentro do octógono, além de uma capacidade de finalização que o transformou em uma das figuras mais reconhecidas do esporte.

Makhachev pode apresentar um currículo mais amplo em termos de categorias conquistadas, mas ainda não possui a mesma quantidade de defesas de cinturão acumuladas por esses campeões. Se parar agora, sua posição dependerá muito do critério utilizado: em conquistas e consistência recente, estará entre os nomes mais fortes; em longevidade como campeão e quantidade de defesas, ainda ficará atrás de algumas das maiores referências históricas.

A próxima luta pode fortalecer o legado, mas também revela o risco de encerrar cedo

A decisão de Makhachev de tratar sua próxima luta como uma das últimas da carreira acrescenta uma questão importante ao debate. Aos 35 anos, o russo ainda está em uma fase na qual muitos lutadores permanecem competitivos, especialmente quando possuem uma base técnica tão consolidada. No entanto, o desgaste acumulado, a exigência de competir em duas categorias e a possibilidade de enfrentar adversários cada vez mais jovens podem influenciar sua decisão.

O vencedor do confronto entre Carlos Prates e Michael Morales oferece um teste interessante. Prates possui poder de nocaute e capacidade de transformar uma luta em uma disputa perigosa na trocação, enquanto Morales chega invicto e representa uma ameaça pela combinação de tamanho, velocidade e recursos técnicos. Qualquer um dos dois exigiria que Makhachev demonstrasse novamente sua capacidade de adaptar o plano de jogo a um adversário com características diferentes das que enfrentou no peso-leve.

O próprio campeão deixou claro que não pretende escolher um caminho confortável. Ao afirmar que deseja enfrentar o melhor entre os dois, Makhachev reforçou a intenção de encerrar a carreira enfrentando os desafios mais relevantes disponíveis. Essa postura pode fortalecer ainda mais sua imagem, mas também aumenta o risco de que uma derrota ou uma atuação abaixo do esperado altere a maneira como seu último capítulo será lembrado.

Existe ainda uma questão esportiva envolvendo a divisão dos meio-médios. A decisão de Makhachev de adiar o retorno para depois do Ramadã provocou críticas de Dana White, que argumentou que a categoria não poderia ficar parada à espera do campeão. A criação de um cinturão interino para Prates e Morales permite que a divisão continue avançando, mas também coloca pressão sobre o russo para enfrentar o vencedor e unificar os títulos.

O episódio mostra que o legado de um campeão não depende apenas do que acontece dentro do octógono. A frequência das defesas, a disponibilidade para enfrentar os principais desafiantes e a maneira como administra o próprio reinado também influenciam a percepção pública. Makhachev construiu uma reputação de atleta disposto a enfrentar os melhores, mas precisará evitar que o encerramento da carreira deixe a divisão sem respostas por períodos prolongados.

Se sua próxima luta realmente estiver entre as últimas, a forma como concluirá essa etapa será tão importante quanto o resultado. Uma vitória sobre Prates ou Morales, seguida de uma despedida planejada, poderia consolidar a imagem de um campeão que conquistou tudo o que buscava e decidiu sair no momento em que ainda estava no topo. Uma derrota, por outro lado, não apagaria os feitos anteriores, mas poderia alterar a posição que ocupa nas comparações históricas.

Islam Makhachev já está entre os maiores, mas o lugar exato continua em discussão

Se Makhachev encerrasse a carreira agora, seria difícil justificar sua ausência de qualquer lista séria dos maiores lutadores da história do UFC. O russo possui uma sequência de 17 vitórias consecutivas, quatro defesas do cinturão peso-leve e conquistas em duas categorias. Seu currículo combina regularidade, domínio técnico e resultados contra adversários de elite, características que sustentam uma candidatura histórica independentemente de novas conquistas.

A discussão mais interessante não é se ele merece estar entre os maiores, mas em que posição deveria aparecer. Se o critério principal for a capacidade de vencer e conquistar cinturões em diferentes divisões, Makhachev terá argumentos para ocupar uma posição muito alta, inclusive à frente de Khabib em determinadas avaliações. Se a análise priorizar longevidade, quantidade de defesas e domínio prolongado em uma mesma categoria, nomes como St-Pierre, Jones e Anderson Silva ainda apresentam vantagens importantes.

O russo também precisa ser avaliado pelo contexto de sua carreira. Sua derrota para Adriano Martins aconteceu no início da trajetória, enquanto o período de maior domínio veio depois de anos de desenvolvimento técnico e físico. A capacidade de evoluir e corrigir limitações é parte importante de seu legado, assim como a decisão de subir de categoria depois de estabelecer um reinado no peso-leve.

A conquista dos meio-médios amplia a dimensão de sua carreira, mas ainda precisa ser acompanhada por um período maior de defesas para que o segundo cinturão tenha o mesmo peso histórico do primeiro. Caso Makhachev consiga vencer o próximo desafiante e defender o título mais algumas vezes, sua posição entre os maiores ficará ainda mais difícil de contestar.

Se decidir parar depois de sua próxima luta, porém, não terá uma carreira incompleta. Terá encerrado uma trajetória que já reúne conquistas suficientes para colocá-lo entre os grandes nomes do MMA. A questão será definir se seu legado deve ser lembrado como o de um campeão dominante que conquistou duas categorias ou como o de um dos poucos lutadores capazes de disputar o primeiro lugar absoluto entre os maiores da história do UFC.

Por enquanto, Makhachev está em uma posição privilegiada nessa discussão, mas ainda não existe consenso sobre onde deve terminar. O que já está claro é que sua carreira ultrapassou a comparação direta com Khabib e passou a disputar espaço com os nomes que definiram diferentes eras do esporte. Se parar agora, deixará um legado extraordinário; se continuar por mais algumas temporadas, poderá transformar uma candidatura histórica em uma das mais fortes já construídas dentro do octógono.