O UFC Vegas 123 provocou mudanças importantes na trajetória de três nomes que deixaram o evento com perspectivas diferentes para a sequência de suas carreiras. Tom Nolan conquistou a maior vitória de sua passagem pela organização ao nocautear Renato Moicano, embora o resultado tenha sido acompanhado por uma polêmica envolvendo a arbitragem. Do outro lado, o brasileiro perdeu a oportunidade de se recuperar na divisão dos leves e agora precisa de um adversário que permita reconstruir sua posição entre os principais nomes da categoria. Já Jacobe Smith confirmou seu potencial ao dominar Randy Brown e parece pronto para receber um teste mais exigente nos meio-médios.
O matchmaking para os três exige decisões cuidadosas. Nolan deve avançar no ranking, mas encontra uma divisão com vários candidatos já comprometidos e outros que talvez não tenham interesse em enfrentar um prospecto em ascensão. Moicano, apesar de ter perdido três das últimas quatro lutas, merece consideração especial pelo histórico recente de cancelamentos que prejudicaram seu planejamento. Smith, por sua vez, precisa enfrentar alguém capaz de testar seu wrestling e sua evolução na trocação, e Kevin Holland surge como uma opção particularmente interessante.
Tom Nolan merece um salto no ranking, mas Mateusz Gamrot é o desafio mais interessante
A vitória de Tom Nolan sobre Renato Moicano mudou o patamar de sua carreira. O australiano não apenas derrotou um adversário experiente, como conseguiu a primeira interrupção de sua trajetória no UFC diante de um ex-desafiante ao cinturão. O nocaute técnico no terceiro round, aos 1min28s, confirmou que Nolan possui recursos para competir em um nível superior ao que havia enfrentado até então.
A polêmica envolvendo a interrupção da luta no segundo round, quando o árbitro Dan Miragliotta determinou que os atletas voltassem à posição em pé apesar de Moicano estar nas costas de Nolan com um triângulo corporal encaixado, não deve apagar o mérito do vencedor. O australiano conseguiu sobreviver à posição, voltou a encontrar oportunidades na trocação e terminou o combate com golpes contundentes no chão. Ainda assim, a controvérsia faz parte da narrativa do resultado e precisa ser considerada quando se avalia o desempenho dos dois atletas.
Nolan deve subir no ranking dos leves e receber um adversário entre os nomes mais bem posicionados da categoria. O problema é encontrar alguém disponível. Quillan Salkilld e Benoît Saint Denis, dois dos principais nomes que poderiam representar um salto competitivo, já têm confronto marcado para fevereiro de 2027, em Sydney. Outros atletas do topo estão envolvidos em disputas importantes ou possuem um apelo comercial que torna menos provável a escolha de Nolan como próximo adversário.
Nesse cenário, Mateusz Gamrot aparece como uma alternativa bastante coerente. O polonês vem de derrota por finalização para Salkilld, mas continua sendo um dos grapplers mais qualificados da divisão. Enfrentá-lo permitiria avaliar se Nolan consegue sustentar o desempenho apresentado contra Moicano diante de um especialista em quedas, controle posicional e transições no solo.
A escolha também faz sentido para Gamrot. Depois de perder para um prospecto em ascensão, o polonês teria a oportunidade de enfrentar outro nome que ganhou projeção recentemente e tentar recuperar espaço no ranking. A luta colocaria frente a frente dois atletas com estilos capazes de produzir um confronto tecnicamente interessante, além de oferecer uma resposta importante sobre o nível real de Nolan.
O risco para o australiano seria considerável. Moicano conseguiu encontrar as costas de Nolan em diferentes momentos e mostrou que o jogo de chão ainda representa uma área na qual ele pode ser testado. Gamrot tem credenciais para explorar justamente esse aspecto, embora seu próprio revés recente tenha demonstrado que também pode ser vulnerável quando enfrenta adversários capazes de aproveitar suas entradas e transições.
Uma luta contra Gamrot seria, portanto, um teste proporcional à vitória de Nolan. O australiano merece avançar, mas ainda precisa demonstrar que consegue competir contra especialistas de alto nível antes de ser colocado diretamente diante dos principais candidatos ao cinturão. O polonês oferece exatamente esse tipo de desafio.
Renato Moicano merece um adversário de expressão depois de uma sequência prejudicada por cancelamentos
Renato Moicano saiu do UFC Vegas 123 em uma situação delicada. A derrota para Nolan foi sua terceira nos últimos quatro combates, um retrospecto que naturalmente reduz sua margem para reivindicar uma luta contra alguém do topo da divisão. Entretanto, avaliar o momento do brasileiro apenas pelos resultados seria ignorar um fator importante: duas lutas consecutivas contra Brian Ortega foram canceladas por problemas físicos do americano, sem que Moicano tivesse responsabilidade pelas mudanças.
O primeiro confronto estava previsto para março, mas Ortega precisou se retirar por lesão. A revanche foi remarcada para setembro, no UFC 331, e novamente acabou cancelada depois que o americano sofreu um corte acima do olho. A sequência obrigou Moicano a reorganizar sua preparação em duas ocasiões e contribuiu para que ele passasse meses sem conseguir realizar o confronto planejado.
É claro que os cancelamentos não apagam as derrotas sofridas pelo brasileiro, especialmente diante de Islam Makhachev e Tom Nolan. Também não seria razoável ignorar que Moicano precisa apresentar resultados melhores para recuperar uma posição entre os principais candidatos ao cinturão. Ainda assim, a organização deveria considerar o contexto antes de colocá-lo em uma luta de recuperação contra alguém muito distante do seu nível competitivo.
Mauricio Ruffy seria um adversário interessante para esse momento. O brasileiro vinha de vitórias expressivas sobre Michael Chandler e Rafael Fiziev, mas foi nocauteado por Arman Tsarukyan no primeiro round do UFC 331. O resultado interrompeu sua ascensão e mostrou que ainda precisa desenvolver respostas contra adversários capazes de impor pressão e controlar o combate.
Uma luta entre Moicano e Ruffy em um evento numerado teria apelo esportivo e comercial. De um lado, um veterano conhecido, que precisa recuperar a confiança e demonstrar que ainda pode competir contra a elite; do outro, um striker explosivo que busca provar que a derrota para Tsarukyan não representa o limite de seu potencial. Seria um confronto entre dois brasileiros em momentos de reconstrução, mas com estilos bastante diferentes.
Para Moicano, o duelo também representaria uma oportunidade de explorar uma área na qual possui vantagem técnica. O jiu-jítsu do brasiliense poderia criar dificuldades para Ruffy, especialmente se conseguisse levar a luta ao chão e estabelecer posições dominantes. Ao mesmo tempo, o poder de nocaute do paulista exigiria cuidado na aproximação, tornando o confronto mais equilibrado do que uma simples comparação entre os retrospectos recentes poderia sugerir.
A escolha por Ruffy seria mais interessante do que oferecer a Moicano um adversário sem grande relevância para a divisão. O brasileiro ainda possui experiência, popularidade e qualidade técnica para protagonizar confrontos importantes, mas precisa transformar esses atributos em uma vitória. Um evento numerado daria visibilidade à luta e permitiria que o vencedor voltasse a disputar espaço entre os nomes relevantes dos leves.
Jacobe Smith precisa de um teste maior, e Kevin Holland é o nome ideal
Jacobe Smith foi um dos grandes vencedores do UFC Vegas 123. Mesmo aceitando o confronto contra Randy Brown em curto prazo, o americano dominou o veterano durante três rounds e venceu por decisão unânime, com os três juízes marcando 30–26. A atuação mostrou que seu wrestling pode ser uma arma decisiva no UFC e confirmou que ele já precisa enfrentar adversários mais bem posicionados na divisão dos meio-médios.
O próximo passo deve ser um confronto contra alguém que ofereça um teste diferente daquele encontrado diante de Brown. Smith demonstrou capacidade de controlar o combate no solo, mas ainda precisa provar que consegue aplicar seu jogo contra atletas com maior experiência defensiva e recursos para ameaçar em outras áreas. Nesse sentido, Kevin Holland seria uma escolha bastante interessante.
Os dois já estiveram próximos de se enfrentar anteriormente, quando Smith estava previsto para lutar contra Holland, mas o confronto não aconteceu. A possibilidade de retomar esse emparelhamento faz sentido porque Holland oferece um perfil diferente de Randy Brown: é um striker criativo, possui boa envergadura, costuma aceitar trocas de golpes e também apresenta experiência suficiente para explorar erros de um prospecto ainda em desenvolvimento.
Para Smith, a luta seria uma oportunidade de mostrar que consegue transportar sua superioridade no wrestling para um confronto contra alguém que representa uma ameaça real em pé. Holland tem capacidade de encontrar golpes em situações pouco convencionais e pode dificultar as entradas do americano. Se Smith conseguir impor seu jogo de quedas e controlar o adversário, terá uma demonstração ainda mais convincente de que está pronto para avançar no ranking.
Holland, por outro lado, teria a oportunidade de enfrentar um nome em ascensão e tentar interromper sua sequência positiva. A luta também poderia ser interessante para o americano porque seu estilo costuma produzir confrontos movimentados, especialmente quando encontra adversários que preferem pressionar e buscar o combate agarrado.
Existe, porém, um obstáculo imediato: Holland já tem compromisso marcado contra Uros Medic no UFC 334, em novembro. Portanto, o confronto com Smith não poderia acontecer na sequência imediata do UFC Vegas 123. O mais sensato seria aguardar o resultado dessa luta e avaliar a disponibilidade do veterano antes de retomar a negociação.
Caso Holland vença, enfrentaria Smith com a confiança renovada e a possibilidade de testar um prospecto que pretende chegar rapidamente ao ranking. Se perder, o duelo ainda poderia fazer sentido como uma oportunidade de recuperação, desde que não exista uma alternativa mais adequada para sua situação. O importante é que Smith receba um adversário capaz de oferecer um desafio real, em vez de permanecer diante de oponentes que pouco acrescentem à avaliação de seu potencial.
(Foto: Zuffa LLC)


