Boston Celtics e “opcionalidade” talvez sejam duas palavras que poucos torcedores imaginavam ver na mesma frase há algumas semanas. Afinal, Jaylen Brown passou quase uma década vestindo verde, conquistou um título da NBA, foi MVP das Finais e se consolidou como um dos rostos da franquia. De repente, ele foi negociado com o Philadelphia 76ers, Paul George desembarcou em Boston, escolhas de Draft entraram na conta e Brad Stevens passou a repetir um termo que rapidamente virou assunto entre os torcedores: optionality, ou simplesmente “opcionalidade”.
Para quem esperava apenas discutir quintetos titulares, arremessos de três e rivalidade com os Lakers, a conversa mudou completamente. Agora, o debate gira em torno do teto salarial, do segundo apron, de flexibilidade financeira e da construção do próximo elenco campeão. Não é exatamente o tipo de assunto que faz alguém comprar uma camisa nova, mas é a realidade que cerca o Celtics.
A troca de Brown dividiu opiniões e continuará fazendo isso por muito tempo. Só que, enquanto o futuro não chega, talvez o melhor seja encarar esse momento como uma verdadeira expedição. O Celtics entrou em uma floresta cheia de caminhos possíveis, e ninguém sabe exatamente onde ela termina.
O primeiro passo é não entrar em pânico
Existe uma regra básica para qualquer guia de sobrevivência: gastar toda a energia logo no começo normalmente termina mal. O mesmo vale para o torcedor do Celtics.
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É compreensível olhar para Jaylen Brown vestindo outra camisa e pensar que tudo deu errado. Também é natural surgir a dúvida sobre Paul George, sobre as escolhas de Draft e até sobre o que Brad Stevens realmente pretende fazer nos próximos anos.
Mas existe um detalhe importante: nada disso foi colocado à prova ainda.
Paul George sequer disputou uma partida oficial com a camisa do Celtics. As escolhas de Draft ainda são apenas possibilidades futuras. Os jovens do elenco continuam em desenvolvimento. Ou seja, ninguém sabe se Boston ficou mais forte, mais fraco ou simplesmente diferente.
Por isso, talvez seja cedo demais para decretar que a troca foi um desastre ou uma obra-prima. Outubro ainda está longe, e a temporada regular costuma responder perguntas que o mercado de transferências apenas cria.
A palavra da moda é flexibilidade
Durante anos, o plano do Celtics parecia bastante simples: entregar a bola para Jayson Tatum e Jaylen Brown, cercá-los de bons coadjuvantes e disputar títulos.
A estratégia funcionou.
A dupla levou Boston a diversas finais de conferência, conquistou o tão sonhado Banner 18 e se consolidou como uma das parcerias mais longevas da NBA moderna.
O problema surgiu quando as novas regras financeiras da liga passaram a dificultar esse modelo.
Com dois contratos supermáximos ocupando cerca de 70% do teto salarial, qualquer erro de planejamento poderia comprometer completamente o restante do elenco. Brad Stevens entendeu que precisava abrir espaço para novas possibilidades antes que fosse tarde.
Foi exatamente daí que nasceu a famosa “opcionalidade”.
Ela não significa necessariamente que Paul George substituirá Jaylen Brown. A ideia é diferente: em vez de concentrar praticamente todos os recursos em duas estrelas, Boston passa a ter mais ferramentas para reformular o elenco conforme as oportunidades surgirem.
Um elenco mais profundo virou prioridade
A grande aposta do Celtics é que profundidade pode ser tão importante quanto talento individual.
Brown era um jogador de elite. Ninguém dentro da organização tenta negar isso. Entretanto, Stevens acredita que distribuir melhor os recursos pode tornar a equipe menos dependente de apenas duas estrelas.
Isso significa que jogadores como Derrick White, Payton Pritchard, Sam Hauser, Neemias Queta, Baylor Scheierman, Jordan Walsh e Hugo González podem ganhar papéis ainda maiores nas próximas temporadas.
Obviamente, nenhum deles substituirá Brown sozinho.
A lógica é justamente a soma das peças. Um banco mais consistente, contratos mais curtos e maior flexibilidade para futuras trocas podem compensar a perda de um talento individual extraordinário.
Na teoria, faz sentido.
Na prática, só o tempo responderá.
Cuidado com as conclusões precipitadas
Toda mudança importante gera reações exageradas, e essa provavelmente não será diferente.
Basta Paul George errar alguns arremessos na estreia para aparecer alguém nas redes sociais escrevendo que “Boston trocou Jaylen Brown por isso”. Da mesma forma, basta Payton Pritchard fazer uma sequência de grandes partidas para começarem comparações improváveis com Jalen Brunson.
Nenhum dos dois extremos parece fazer muito sentido.
George chega carregando enorme pressão justamente porque substitui um ídolo recente da franquia. Cada atuação será analisada sob uma lupa gigantesca, algo que poucos jogadores enfrentaram nos últimos anos em Boston.
Já Pritchard pode crescer de produção sem precisar virar um candidato ao prêmio de MVP. Seu papel deve aumentar naturalmente, mas isso não significa que ele precise assumir responsabilidades completamente diferentes das que desempenhou até agora.
Outro cuidado importante é evitar a chamada “amnésia esportiva”.
Entender os motivos da troca não significa diminuir o legado de Jaylen Brown. O ala continua sendo um dos jogadores mais importantes da história recente do Celtics, participou de inúmeras campanhas memoráveis e ajudou diretamente a colocar mais um banner no TD Garden.
Uma coisa não anula a outra.
Os ativos também fazem parte do jogo
Poucos torcedores sonham em comemorar escolhas de Draft. A maioria prefere comemorar enterradas, bolas de três no estouro do cronômetro e títulos, algo concreto, que já esteja sendo entregue de imediato. Mesmo assim, as escolhas adquiridas na troca por parte dos Celtics possuem importância enorme.
Elas podem servir para selecionar jovens talentos, facilitar futuras negociações ou até funcionar como moeda de troca caso uma nova estrela fique disponível no mercado.
O mesmo vale para contratos menores e mais fáceis de negociar.
Nenhum desses ativos emociona como um craque dentro de quadra, mas são justamente essas ferramentas que permitem aos dirigentes resolver problemas quando eles aparecem.
É como montar uma mochila para uma longa trilha. Talvez você nunca precise usar o canivete, a lanterna ou o kit de primeiros socorros. Ainda assim, é muito melhor carregá-los do que descobrir que fazem falta quando surge uma emergência.
A Summer League não vai responder tudo
Depois de uma troca tão impactante para os Celtics e a NBA, muitos torcedores depositam expectativas enormes na Summer League.
É compreensível. Qualquer cesta de Hugo González, Jordan Walsh ou Chris Cenac Jr. vira motivo para imaginar que o futuro será brilhante. Mas vale manter os pés no chão.
A Summer League serve para desenvolvimento, adaptação e avaliação de jovens jogadores. Ela dificilmente define o sucesso ou o fracasso de uma franquia.
Os novatos não precisam carregar o peso emocional deixado pela saída de Jaylen Brown. Esse processo será responsabilidade de todo o elenco e, principalmente, da comissão técnica comandada por Joe Mazzulla.
Se algum jovem surpreender, ótimo. Se precisar de mais tempo, isso também faz parte do planejamento.
O futuro ainda está sendo escrito para os Celtics
Talvez esse seja justamente o ponto mais difícil para o torcedor aceitar.
Hoje, ninguém sabe se Brad Stevens foi brilhante ou se acabou desmontando cedo demais um núcleo campeão. A resposta provavelmente levará algumas temporadas para aparecer.
Até lá, resta acompanhar o desenvolvimento de Paul George em Boston, observar a evolução dos jovens jogadores e entender como o Celtics pretende utilizar toda a flexibilidade conquistada com essa negociação.
O sentimento de incerteza é inevitável nos Celtics. Afinal, trocar um jogador do calibre de Jaylen Brown nunca será uma decisão simples.
Ao mesmo tempo, a NBA moderna exige que as franquias pensem não apenas na próxima temporada, mas também nos próximos cinco anos. Foi exatamente essa visão que levou Boston a apostar na chamada “opcionalidade”.
Se ela será suficiente para manter o Celtics entre os candidatos ao título, ainda é impossível dizer. Mas uma coisa parece certa: a franquia entrou em uma nova fase. E, como toda caminhada por um território desconhecido, o caminho pode parecer confuso no começo. O importante, para os torcedores, talvez seja exatamente o conselho mais simples de qualquer guia de sobrevivência: continuar caminhando antes de decidir se a trilha realmente leva ao destino certo.
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