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De Tbilisi para a Champions: como Kvaratskhelia saiu de um prédio soviético e virou estrela do PSG

Khvicha Kvaratskhelia virou um dos nomes mais comentados do futebol europeu nos últimos anos. O ponta do Paris Saint-Germain não só conquistou espaço entre os grandes talentos do continente, como também se tornou protagonista em noites decisivas da UEFA Champions League. Dentro de campo, ele mistura velocidade, drible e personalidade. Fora dele, mantém um estilo de vida discreto, quase na contramão da imagem tradicional de superestrela do futebol moderno.

Na atual edição da Champions, por exemplo, o georgiano tem sido decisivo. São sete participações diretas em gols, quatro bolas na rede e três assistências em nove partidas disputadas. O desempenho o coloca como principal artilheiro da equipe francesa na competição e também como o jogador com mais contribuições ofensivas da equipe.

Agora, o desafio é grande. O PSG encara o Chelsea nas oitavas de final da Champions League. Curiosamente, os ingleses já tentaram contratar o jogador no passado. Desta vez, porém, terão que se preocupar em pará-lo dentro de campo.

Mas para entender como Kvaratskhelia chegou a esse nível, é preciso voltar bastante no tempo e atravessar metade da Europa.

Um começo humilde na Geórgia

Muito antes de lotar estádios na França ou na Itália, Kvaratskhelia cresceu em um cenário bem diferente. Sua infância aconteceu em Tbilisi, capital da Geórgia, em um prédio residencial típico da era soviética.

Não havia nada que indicasse que dali sairia um jogador de elite. O prédio é simples, cercado por outros blocos semelhantes, com aquela aparência de concreto desgastado que domina muitos bairros da cidade.

Dentro do apartamento da família, porém, a história muda de tom. Fotografias, troféus e camisas contam a trajetória do garoto que começou ali e acabou conquistando a Europa. Entre os objetos mais especiais está a primeira camisa que ele vestiu pelo Dinamo Tbilisi.

A peça não é só uma lembrança. É quase um símbolo do início de tudo.

Mesmo depois de virar estrela internacional, Kvaratskhelia ainda usa o pequeno quarto de infância quando volta para casa. Lá estão um computador, um teclado, fones de ouvido grandes e uma cadeira gamer, o espaço onde ele passa horas relaxando longe da pressão do futebol.

Futebol desde pequeno e responsabilidade cedo

Nascido em 12 de fevereiro de 2001, o atacante cresceu literalmente com a bola nos pés. Segundo sua mãe, ele caminhava com a bola, dormia com a bola e passava praticamente o dia inteiro jogando.

O futebol também estava na família. Seu pai, Badri, foi jogador profissional do Dinamo Tbilisi e chegou a defender a seleção do Azerbaijão.

Ainda assim, a trajetória do filho exigiu esforço.

Kvaratskhelia estreou profissionalmente aos 16 anos pelo Dinamo Tbilisi, em 2017. Depois disso, passou pelo FC Rustavi antes de seguir para o Lokomotiv Moscow por empréstimo.

Foi nesse período que ele recebeu o primeiro salário realmente relevante da carreira e tomou uma decisão que diz muito sobre seu caráter.

O jovem utilizou o dinheiro para pagar uma cirurgia cardíaca que salvou a vida do pai. Segundo Badri, o filho nem pensou duas vezes antes de ajudar. Em 2019, ainda com apenas 18 anos, Kvaratskhelia conquistou seu primeiro título importante: a Russian Cup com o Lokomotiv Moscou.

A ascensão na Europa

Depois da experiência em Moscou, o georgiano foi contratado pelo Rubin Kazan. Lá ele passou três temporadas e ganhou duas vezes o prêmio de melhor jovem jogador da liga russa.

A passagem pelo país, no entanto, foi interrompida por um acontecimento histórico: a invasão da Rússia a Ucrânia em 2022. Com a decisão da FIFA de permitir que jogadores estrangeiros suspendessem seus contratos com clubes russos, Kvaratskhelia decidiu voltar para casa e assinou com o Dinamo Batumi.

Mas aquela parada seria apenas temporária.

O fenômeno “Kvaradona” em Nápoles

Em julho de 2022, o Napoli pagou cerca de 9,5 milhões de libras para contratá-lo. O valor parecia razoável na época, hoje parece uma pechincha histórica.

Na Itália, Kvaratskhelia explodiu de vez. Com dribles rápidos, mudanças de direção explosivas e finalizações perigosas quando corta da esquerda para dentro, ele virou peça-chave no time que conquistou a Serie A após 33 anos de espera.

A idolatria da torcida napolitana foi instantânea. Tanto que ele ganhou um apelido pesado: “Kvaradona”, em referência ao lendário Diego Maradona.

Nada mal para quem tinha acabado de chegar.

PSG, Champions e noites grandes

Era questão de tempo até que clubes ainda maiores entrassem na disputa por sua contratação. Em janeiro de 2025, o Paris Saint-Germain pagou cerca de 59 milhões de libras para levá-lo à França, tornando-o o primeiro jogador georgiano da história do clube.

No PSG, Kvaratskhelia rapidamente se tornou protagonista. Sob o comando de Luis Enrique, ele fez parte do elenco que conquistou uma histórica tríplice coroa, incluindo a primeira Champions League do clube, com direito a gol na final.

Além do talento ofensivo, o atacante também passou a se destacar pelo trabalho defensivo. Parte dessa evolução veio ainda no Napoli, sob orientação do técnico Antonio Conte.

Inspiração em Cristiano Ronaldo… e na NBA

Como muitos jogadores da nova geração, Kvaratskhelia cresceu admirando Cristiano Ronaldo. Mas suas referências esportivas vão além do futebol. O georgiano também é fã declarado da NBA e costuma citar dois ídolos do basquete: Kobe Bryant e Kevin Durant.

Segundo ele, o que mais admira nesses atletas é a capacidade de decidir nos momentos de maior pressão.

“Eu sempre gostei dos grandes jogos. É quando você realmente pode mostrar sua personalidade”, afirmou o jogador.

Discreto fora de campo, gigante dentro dele

Apesar da fama crescente, Kvaratskhelia mantém uma vida bastante reservada.

Em 2023, ele se casou com Nitsa Tavadze em uma cerimônia tradicional no Samtavro Monastery, localizado em Mtskheta. No ano seguinte, o casal teve o primeiro filho, Damiane.

Amigos descrevem o jogador como alguém humilde, generoso e profundamente ligado às próprias raízes.

E isso também aparece em campo.

Kvaratskhelia sabe que representa muito mais do que apenas ele mesmo quando veste uma camisa importante na Europa. Para muitos jovens da Geórgia, ele virou prova viva de que é possível sair de um país pequeno no futebol e chegar ao topo do esporte.

A mensagem que ele costuma deixar é simples:

“Saibam que eu estou aqui. É possível chegar a esse nível.”

Para quem começou em um prédio soviético anônimo em Tbilisi, a verdade é que ele já mostrou que isso é totalmente possível.

(Foto: Getty Images)