A morte de Jesús de Miguel, atacante do Tenerife, e o caso de Damar Hamlin, jogador do Buffalo Bills, expõem uma vulnerabilidade pouco discutida nos esportes de contato: um impacto no peito pode provocar uma parada cardíaca mesmo em atletas aparentemente saudáveis. Os dois episódios aconteceram em circunstâncias diferentes, mas levantam a mesma questão sobre a segurança de quem disputa partidas em alta intensidade. Se a NFL e o futebol avançaram na prevenção de lesões na cabeça com mudanças de regras, equipamentos e protocolos médicos, existe um caminho semelhante para reduzir os riscos de traumas no tórax?
A resposta exige uma distinção importante. É possível desenvolver equipamentos mais eficientes, modificar comportamentos em campo e melhorar a preparação para emergências cardíacas. No entanto, o mecanismo que pode provocar uma commotio cordis é particularmente difícil de evitar: depende de um impacto sobre uma região específica do peito em uma janela de poucos milissegundos do ciclo elétrico do coração. Não basta, portanto, reduzir a força de todas as colisões ou simplesmente acrescentar uma camada de proteção ao uniforme.
O desafio está em combinar prevenção e resposta médica. Enquanto a proteção física ainda precisa evoluir, a disponibilidade de desfibriladores, o treinamento em reanimação cardiopulmonar e a rapidez no atendimento podem determinar se uma parada cardíaca terá um desfecho fatal ou se o atleta conseguirá sobreviver.
Jesús de Miguel e Damar Hamlin mostram o perigo de um impacto no tórax
Jesús de Miguel morreu aos 30 anos, no dia 3 de novembro de 2026, depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória durante uma partida entre Tenerife e FC Andorra, pela segunda divisão espanhola. O episódio aconteceu nos acréscimos, quando o atacante disputou uma bola longa com o goleiro Jesús Owono. Ao sair da área para afastar a bola, o goleiro atingiu a região do peito do adversário com o joelho, provocando a queda imediata do jogador.
De Miguel recebeu atendimento ainda no gramado e foi levado ao hospital, onde permaneceu internado em estado crítico. Apesar dos esforços médicos, não resistiu. A causa exata da morte não foi oficialmente esclarecida, mas o mecanismo do impacto levou especialistas a apontarem a commotio cordis como uma possibilidade. A hipótese é compatível com uma parada cardíaca desencadeada por uma pancada direta na região do coração, embora somente a investigação médica possa confirmar o diagnóstico.
O caso de Damar Hamlin oferece uma referência importante para compreender esse mecanismo. Em janeiro de 2023, durante uma partida entre Buffalo Bills e Cincinnati Bengals, o safety sofreu uma colisão com o wide receiver Tee Higgins e caiu poucos segundos depois. O atendimento em campo revelou uma parada cardíaca, e a intervenção imediata da equipe médica foi fundamental para salvar sua vida.
Posteriormente, Hamlin confirmou que sofreu uma commotio cordis. Depois de receber reanimação cardiopulmonar e ser desfibrilado ainda no estádio, o jogador foi encaminhado ao hospital, onde permaneceu em estado crítico. Sua recuperação permitiu que voltasse a jogar futebol americano na mesma temporada, pouco menos de oito meses depois do episódio.
Os dois casos mostram que a gravidade de um trauma no peito não pode ser avaliada apenas pela aparência da colisão. No futebol americano, Hamlin sofreu um impacto durante uma jogada de contato, enquanto De Miguel foi atingido pelo joelho de um goleiro em uma disputa de bola. Em ambos, uma ação que faz parte da dinâmica normal do esporte esteve associada a uma emergência cardíaca.
O que é a commotio cordis e por que ela é tão difícil de prevenir?
A commotio cordis, também chamada de concussão cardíaca, é uma alteração elétrica do coração provocada por um impacto direto no tórax. O golpe pode desencadear uma arritmia grave, geralmente a fibrilação ventricular, fazendo com que o coração perca a capacidade de bombear sangue de maneira eficiente.
O aspecto mais impressionante é que o impacto precisa acontecer em uma janela extremamente curta do ciclo cardíaco. Durante uma fase específica da repolarização elétrica, uma pancada sobre a região anterior do peito pode provocar uma espécie de desorganização no funcionamento do órgão. Essa janela dura apenas alguns milissegundos, o que ajuda a explicar por que a condição é rara e aparentemente imprevisível.
A ocorrência não exige que o atleta tenha uma doença cardíaca anterior. Pelo contrário, a commotio cordis pode atingir pessoas jovens e saudáveis, sem alterações conhecidas no coração. Também não depende necessariamente de uma colisão extremamente violenta: determinadas combinações entre localização, intensidade e momento do impacto podem provocar a arritmia mesmo quando a pancada parece relativamente comum.
Essa característica diferencia o problema de boa parte das lesões traumáticas. Na prevenção de concussões cerebrais, por exemplo, é possível trabalhar para reduzir a aceleração da cabeça, limitar determinadas formas de contato e melhorar a absorção de energia pelos capacetes. No caso da commotio cordis, diminuir a intensidade do impacto pode ajudar, mas não existe uma relação simples entre força e risco. O resultado depende também do ponto atingido e do instante em que a pancada acontece.
A American Heart Association considera a condição rara, mas potencialmente fatal, e destaca que a rapidez do atendimento é determinante para a sobrevivência. A entidade recomenda que instalações esportivas tenham planos de resposta a emergências cardíacas, desfibriladores externos automáticos e profissionais treinados em reanimação cardiopulmonar.
A NFL conseguiu avançar na proteção da cabeça, mas o peito é um desafio diferente
A comparação com a evolução da segurança na NFL é relevante porque a liga demonstra que mudanças estruturais podem reduzir riscos sem necessariamente eliminar a natureza física do esporte. Ao longo dos últimos anos, a organização passou a avaliar capacetes em testes laboratoriais, incentivar a adoção de modelos mais seguros, modificar regras de contato e aprimorar os protocolos de identificação e atendimento de concussões.
A liga e a associação de jogadores também passaram a divulgar avaliações comparativas dos capacetes. Em 2026, a NFL informou que quase 60% dos atletas que retornaram para a temporada de 2025 haviam trocado seus equipamentos por modelos com desempenho superior nos testes. A organização também apontou que os capacetes classificados entre os melhores apresentaram taxas de concussão em campo quase 30% inferiores às dos modelos classificados como não recomendados.
As mudanças não se limitaram aos equipamentos. A NFL passou a penalizar determinadas formas de contato com a cabeça, incluindo ações em que o jogador abaixa o capacete para iniciar uma colisão. A liga também revisou regras de jogadas específicas, como os kickoffs, e aperfeiçoou o protocolo médico para identificar e tratar possíveis concussões.
Esse processo dá um modelo interessante para outros esportes: identificar os mecanismos mais frequentes de lesão, produzir evidências científicas, testar equipamentos e adaptar as regras quando necessário. Entretanto, não é possível simplesmente reproduzir a mesma estratégia para os impactos no peito.
O capacete protege uma região relativamente delimitada e pode ser desenvolvido para absorver parte da energia de colisões. O tórax, por sua vez, precisa continuar permitindo movimentos amplos, respiração, rotação do tronco e contato físico. Um equipamento rígido ou volumoso poderia comprometer a mobilidade dos jogadores e até criar novos riscos durante as disputas.
Além disso, a proteção precisa permanecer posicionada sobre a região vulnerável durante diferentes movimentos. Um protetor que se desloca durante uma corrida, um salto ou uma disputa corporal pode deixar o precórdio exposto justamente no momento de uma colisão.
Os protetores peitorais ainda não oferecem uma solução
A existência de equipamentos de proteção para o peito pode dar a impressão de que o problema já tem uma resposta tecnológica. No entanto, estudos científicos mostram que os modelos tradicionais nem sempre conseguem reduzir o risco de commotio cordis.
Uma pesquisa publicada em 2007 analisou casos de atletas que sofreram esse tipo de evento durante atividades esportivas. Entre os 85 episódios registrados em competições organizadas, 32 aconteceram com atletas que utilizavam algum tipo de proteção torácica. Em alguns casos, o equipamento não cobria adequadamente a região atingida; em outros, a pancada ocorreu diretamente sobre o protetor.
O resultado mostra que acrescentar espuma ou uma camada rígida ao uniforme não garante proteção contra uma arritmia provocada por um impacto tão específico. O desafio é desenvolver materiais e estruturas que consigam reduzir a força transmitida ao tórax sem comprometer a mobilidade.
Em 2024, pesquisadores desenvolveram e validaram um método de avaliação de protetores peitorais que levou à consolidação de um padrão específico da NOCSAE, organização responsável por normas de segurança de equipamentos esportivos nos Estados Unidos. O padrão ND200-22 estabelece critérios para avaliar equipamentos destinados à redução do risco de commotio cordis, especialmente em modalidades como beisebol e lacrosse.
A pesquisa, porém, não encerrou o problema. Um estudo publicado em abril de 2026 desenvolveu um método para simular impactos entre o ombro e o peito de atletas de futebol americano e avaliar diferentes combinações de protetores. Os resultados indicaram que os equipamentos analisados não conseguiram reduzir determinados indicadores biomecânicos abaixo do limite associado ao risco de commotio cordis em impactos de intensidade moderada.
Isso demonstra que ainda existe uma lacuna entre os equipamentos disponíveis e o nível de proteção necessário. Também reforça a importância de desenvolver testes específicos para colisões entre atletas, em vez de avaliar os protetores apenas em situações de impacto com objetos.
No futebol, a dificuldade é ainda maior. Os jogadores precisam utilizar o tronco para disputar espaço, proteger a bola, saltar e participar de duelos aéreos. Introduzir um protetor obrigatório exigiria avaliar não apenas sua eficiência médica, mas também o conforto, a mobilidade e a possibilidade de interferência nas jogadas. A tecnologia pode ajudar, mas precisa ser desenvolvida considerando as características próprias da modalidade.
O atendimento imediato pode ser tão importante quanto a prevenção
Se a proteção física ainda não oferece garantias, a preparação para uma parada cardíaca precisa ocupar um lugar central nas políticas de segurança esportiva. O caso de Hamlin mostrou a importância de uma estrutura médica capaz de reconhecer rapidamente a emergência, iniciar a reanimação e utilizar um desfibrilador.
A fibrilação ventricular impede que o coração bombeie sangue adequadamente. Por isso, não basta esperar que o atleta recupere a consciência ou que uma ambulância chegue ao estádio. A reanimação cardiopulmonar ajuda a manter a circulação, enquanto o desfibrilador pode aplicar uma descarga elétrica para tentar restabelecer um ritmo cardíaco organizado.
A American Heart Association destaca que a desfibrilação nos primeiros três a cinco minutos oferece as melhores chances de sobrevivência. A entidade também recomenda que equipes esportivas tenham planos de emergência, com responsabilidades previamente definidas para jogadores, treinadores, profissionais de saúde e funcionários do estádio.
Esse modelo precisa estar presente em todas as modalidades e níveis de competição, não apenas em grandes ligas profissionais. Uma partida de futebol em uma divisão inferior, uma competição de base ou um evento amador também pode envolver uma emergência cardíaca. A existência de um desfibrilador próximo ao campo e de pessoas treinadas para utilizá-lo pode fazer diferença decisiva.
Também é necessário evitar uma interpretação equivocada dos casos. A rapidez do atendimento não garante a sobrevivência em todas as circunstâncias, e não é possível afirmar, com as informações públicas disponíveis, se o desfecho de De Miguel poderia ter sido diferente. Para avaliar isso, seria necessário conhecer detalhadamente a sequência de atendimento, o tempo até o início da reanimação, o uso de desfibrilação e as complicações clínicas posteriores.
O que os episódios permitem afirmar é que a preparação precisa ser permanente. Não se deve esperar que uma tragédia aconteça para que clubes e federações avaliem a disponibilidade de equipamentos, a formação dos profissionais e os procedimentos de emergência.
O futebol e a NFL precisam tratar a segurança do tórax como uma nova prioridade
A evolução da proteção contra lesões na cabeça mostra que o esporte pode mudar quando existe uma combinação de pesquisa científica, investimento em tecnologia, atualização das regras e compromisso institucional. A NFL oferece um exemplo de como uma liga pode transformar dados médicos em mudanças práticas, mas a prevenção da commotio cordisexige soluções próprias.
No futebol, isso passa por estudar melhor as colisões entre jogadores, avaliar os riscos de impactos diretos na região do coração e desenvolver equipamentos que não prejudiquem a liberdade de movimento. Também é necessário discutir protocolos para emergências cardíacas, garantindo que os estádios tenham desfibriladores acessíveis e profissionais capacitados para agir imediatamente.
No futebol americano, a existência de uma estrutura médica mais robusta não elimina a necessidade de aprimorar os protetores peitorais. O estudo publicado em 2026 mostra que os equipamentos disponíveis ainda não resolvem satisfatoriamente o problema em determinadas condições de impacto. A experiência de Hamlin pode ter ampliado a atenção sobre o tema, mas a pesquisa precisa continuar para transformar essa conscientização em proteção efetiva.
A principal diferença em relação às concussões é que não existe uma medida isolada capaz de eliminar o risco. A commotio cordis depende de uma combinação excepcional de fatores e pode ocorrer em uma jogada aparentemente rotineira. Isso não significa que o esporte esteja condenado a conviver passivamente com o perigo, mas que a prevenção precisa ser construída em diferentes frentes.
A morte de Jesús de Miguel torna essa discussão ainda mais urgente. O caso não deve ser utilizado para atribuir culpa antecipada ao goleiro envolvido na colisão, nem para presumir um diagnóstico que ainda não foi confirmado. Deve servir, sobretudo, para ampliar o debate sobre a segurança dos atletas e sobre a preparação das competições para lidar com emergências que podem acontecer em qualquer momento.
A NFL e o futebol já demonstraram que é possível reduzir determinados riscos por meio de mudanças graduais e baseadas em evidências. O próximo passo é aplicar essa mesma disposição à proteção do tórax, sem criar a falsa expectativa de que um equipamento será capaz de impedir todos os acidentes. Enquanto a tecnologia não oferecer respostas mais eficientes, a combinação entre prevenção, desfibriladores disponíveis e atendimento imediato continuará sendo a ferramenta mais importante para evitar que uma colisão termine em tragédia.
(Foto: Imago)



