Pio Esposito lamenta. Foto: Image Photo Agency/Getty Images
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Como a Itália, tetracampeã do mundo, perdeu o rumo

Já se passaram mais de 11 anos desde a cabeçada de Diego Godín, em Natal, que despedaçou a Itália de Cesare Prandelli na Copa do Mundo de 2014. Poucos imaginavam que aquela seria a última imagem da Azzurra, quatro vezes campeã do mundo, no maior palco do futebol. Desde então, praticamente tudo deu errado.

A seleção italiana tocou o ponto mais baixo de sua história ao ficar fora da Copa de 2018, na Rússia — algo que não acontecia havia 59 anos — eliminada no playoff contra a Suécia. O fundo do poço se aprofundou em 2022, quando a Macedônia do Norte fechou as portas do caminho para o Catar.

Agora, o fantasma volta a rondar. Pela terceira vez consecutiva, a Itália corre sério risco de não disputar uma Copa do Mundo, desta vez a de 2026. Mas, o que aconteceu para ocorrer tal declínio?

O paradoxo da Euro 2021

O cenário se torna ainda mais contraditório quando se observa que, entre esses dois fracassos históricos, a Itália viveu um de seus momentos mais gloriosos recentes. Em 2021, sob o comando de Roberto Mancini, conquistou a Eurocopa após 53 anos, em uma final épica contra a Inglaterra, em pleno Wembley, decidida nos pênaltis.

O título parecia marcar o início de um novo ciclo, quase um “Renascimento Azzurro”. Mas o que deveria ser um ponto de virada rapidamente passou a ser tratado como um episódio isolado — a exceção que confirmou a regra de um sistema em declínio.

Nem mesmo a chegada de Luciano Spalletti, um dos técnicos italianos mais respeitados das últimas décadas, conseguiu romper esse estado de apatia. A eliminação precoce na Euro 2024, diante da Suíça, com atuações pobres, foi o primeiro sinal de alerta. Depois veio a queda nas quartas da Nations League, que abriu caminho para um início desastroso nas Eliminatórias: derrota por 3 a 0 para a Noruega e vitória magra contra a Moldávia.

O desfecho foi inevitável. Spalletti deixou o cargo, e Gennaro Gattuso herdou uma missão quase impossível: evitar mais um playoff e recolocar a Itália no caminho da Copa.

Uma crise que vai além do campo

Itália
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Seria simplista explicar esse cenário apenas como uma sucessão de maus resultados. A crise da Itália é estrutural e profunda — talvez mais grave do que os fracassos de 1954, 1962, 1966 ou até a ausência em 1958.

O futebol italiano falhou em acompanhar as transformações do jogo moderno, tanto no aspecto tático quanto na preparação física. Mas, acima de tudo, abandonou sua maior virtude histórica: a capacidade de formar talentos.

O título mundial de 2006 foi o auge de uma geração extraordinária — Buffon, Cannavaro, Nesta, Pirlo, Totti, Del Piero. Ao mesmo tempo, Berlim marcou o fim de um ciclo. Desde então, não apenas a seleção entrou em declínio, como os clubes italianos também perderam protagonismo continental. Com exceção do Inter em 2010, a Serie A não vence Champions League ou Mundial de Clubes desde o Milan, em 2007.

Clubes competitivos, base fragilizada

É verdade que os clubes italianos voltaram a frequentar finais europeias: quatro de Champions League desde 2015, uma final de Europa League com a Roma (2023), o título histórico da Atalanta em 2024 e três finais consecutivas da Conference League. Ainda assim, a sensação é de que o abismo para as principais potências não diminuiu — ele se inverteu.

A comparação com a Premier League tornou-se cruel. Enquanto a Inglaterra transformou seus clubes em potências econômicas e centros de entretenimento, com estádios modernos e receitas diversificadas, a Itália permaneceu presa a um modelo de curto prazo. O dinheiro da TV foi usado para manter competitividade imediata, sem investimento real em infraestrutura ou formação.

Poucos talentos, muitas desconfianças

Pio Esposito lamenta. Foto: Image Photo Agency/Getty Images
Pio Esposito lamenta. Foto: Image Photo Agency/Getty Images

 

A sentença Bosman agravou o quadro, incentivando a importação desenfreada de estrangeiros, muitas vezes em detrimento do talento local. Até as categorias de base passaram a sofrer com escolhas mais econômicas do que esportivas.

O resultado é um país que passou a ter dificuldades para formar jogadores de nível internacional. Nos últimos anos, nomes como Donnarumma, Verratti, Tonali, Udogie, Calafiori e Vicario precisaram buscar afirmação fora da Itália. Antes, isso era exceção — hoje, virou regra.

Comparar a seleção de 2014 com a atual é um exercício duro. A queda técnica é evidente. Falta talento, falta coragem para apostar nos jovens — muitos acabam estagnados na Serie B, na Serie C ou obrigados a emigrar cedo. Casos como Francesco Pio Esposito, Giovanni Leoni e Francesco Camarda surgem como exceções, não como fruto de um sistema saudável.

Um esporte que já não reina sozinho e vem perdendo espaço para outros

Como se não bastasse, o futebol italiano enfrenta um novo concorrente interno. O crescimento do tênis, impulsionado por Jannik Sinner, Berrettini, Musetti e Paolini, além do sucesso no vôlei e no esqui, reduziu o domínio absoluto do futebol entre os jovens. Isto é, as próximas gerações estão mais tendenciadas a praticar outros esportes do que o futebol.

Nesse contexto, Gennaro Gattuso trabalha sob enorme pressão. Um novo fracasso não seria apenas esportivo: poderia representar o colapso definitivo de um modelo dirigente incapaz de promover reformas estruturais — da modernização dos estádios à reconfiguração das bases — em um momento crucial, às vésperas da Euro 2032.

O momento da verdade para o futebol italiano não está no passado glorioso. Ele é agora.

Créditos da foto de capa: Image Photo Agency/Getty Images