Poucos jogadores conseguiram ocupar tão rapidamente um espaço tão simbólico no Barcelona quanto Alejandro Balde. Promovido por La Masia ainda adolescente, o lateral-esquerdo parecia destinado a assumir durante muitos anos a posição que havia pertencido a Jordi Alba. A velocidade, a capacidade de avançar pelo corredor e a facilidade para percorrer grandes distâncias fizeram do jovem espanhol uma das principais apostas do clube para o futuro. Menos de 23 anos e já com 168 partidas pelo time principal, Balde deveria estar entrando justamente no período de consolidação de sua carreira. Em vez disso, vive o momento mais delicado de sua trajetória no clube.
A situação atual é especialmente preocupante porque não se trata simplesmente de uma disputa equilibrada por posição. Balde perdeu espaço e iniciou a temporada atrás de dois jogadores que sequer são laterais-esquerdos de origem. Hansi Flick chegou a deixá-lo fora da relação para a estreia do campeonato contra o Elche e, posteriormente, sua permanência no elenco passou a ser tratada como uma questão em aberto.
O Barcelona esteve disposto a negociar o jogador durante a janela, mas não encontrou uma operação que atendesse às suas condições. O resultado foi uma permanência que, neste momento, parece muito mais uma consequência da falta de uma solução no mercado do que uma demonstração de confiança absoluta no lateral.
O problema de Balde começou dentro de campo
A queda de Balde não pode ser explicada apenas pela concorrência. O próprio desempenho do jogador na temporada 2025–26 ajudou a provocar a mudança de cenário. Depois de uma campanha 2024–25 em que se consolidou como titular de Flick, o lateral apresentou uma regressão evidente. Seu futebol perdeu impacto justamente nos aspectos que haviam feito dele uma peça tão importante: a capacidade de acelerar o jogo, atacar a profundidade e criar superioridade pelo lado esquerdo.
Balde sempre foi um lateral com características mais próximas de um ala do que de um defensor tradicional. Sua velocidade permite que ele seja utilizado para oferecer amplitude enquanto outros jogadores ocupam posições interiores. Essa dinâmica foi especialmente importante para o Barcelona de Flick, que frequentemente utilizava Raphinha mais próximo do centro do campo. O problema apareceu quando os adversários passaram a controlar melhor o corredor. Sem espaço para chegar à linha de fundo, Balde teve dificuldades para encontrar alternativas e, quando conseguiu cruzar, sua execução esteve abaixo do nível esperado.
Defensivamente, a situação foi ainda mais problemática. A marcação nunca foi a principal arma de Balde, mas os erros se tornaram frequentes demais. O lateral passou a ser encontrado fora de posição em transições, chegava atrasado aos duelos e deixava espaços que poderiam ser explorados pelos adversários. Em uma equipe de Flick, que naturalmente assume riscos ao avançar suas linhas, esse tipo de problema tem um peso ainda maior. Um jogador pode compensar limitações defensivas com enorme produção ofensiva; Balde, durante boa parte da última temporada, não conseguiu fazer nem uma coisa nem outra com consistência.
As lesões musculares também contribuíram para interromper sua evolução. Balde perdeu aproximadamente um mês no começo da temporada e, quando voltou, seu rendimento já não era o mesmo. Uma nova lesão em março abriu espaço para João Cancelo assumir a posição, e o português não voltou a perder o lugar. O problema, portanto, não foi apenas físico: a ausência criou uma oportunidade para outro jogador, e Balde não conseguiu recuperar a confiança necessária para retomá-la.
O Barcelona também demorou para agir
Existe ainda uma questão de planejamento que ajuda a explicar por que Balde continua no clube. O Barcelona já aceitava a possibilidade de negociá-lo antes mesmo do início da janela, mas não tratou sua saída como prioridade. O jogador, por sua vez, demonstrava interesse em permanecer. A combinação desses fatores fez com que uma eventual transferência só ganhasse força quando o mercado já estava próximo do encerramento.
O Manchester United surgiu como interessado, mas a negociação esbarrou em uma diferença de estratégia. O clube inglês estaria disposto a considerar um empréstimo, enquanto o Barcelona queria uma transferência definitiva. O interesse por Lewis Hall como solução de longo prazo também reduziu a disposição do United de fazer um investimento grande em Balde. Quando as duas partes não encontram um modelo de negócio comum, o talento do jogador deixa de ser suficiente para viabilizar a operação.
Também surgiu a possibilidade de uma troca com a Inter envolvendo Federico Dimarco, mas a ideia não avançou. O episódio é revelador porque demonstra que Barcelona e Balde chegaram ao fim da janela sem uma solução concreta. O clube queria preservar o valor do jogador com uma venda definitiva, enquanto o mercado disponível já era muito menor. No fim, o Barcelona ficou com um lateral que não parece estar entre as prioridades de Flick, e Balde permaneceu em um elenco no qual sua perspectiva de minutos é cada vez mais limitada.
A ascensão de Xavi Espart muda tudo
O cenário ficou ainda mais complicado porque Balde não perdeu espaço apenas para Cancelo. Xavi Espart surgiu como uma nova alternativa e, nas primeiras partidas da temporada, apresentou justamente algumas das características que tornam a concorrência particularmente difícil para o jovem lateral.
Embora sua posição natural seja a lateral direita, Espart conseguiu atuar pelo lado esquerdo e se adaptar rapidamente às exigências de Flick. Sua experiência anterior como meio-campista também lhe oferece uma vantagem tática importante. Ao invés de permanecer preso ao corredor, ele pode inverter sua posição e ocupar espaços interiores durante a construção das jogadas. Isso dá ao Barcelona maior variedade na saída de bola e permite que o treinador altere a estrutura da equipe sem necessariamente fazer substituições.
Essa versatilidade é talvez o principal problema para Balde. Em uma disputa direta entre dois laterais, velocidade e capacidade de chegar ao fundo poderiam ser suficientes para manter a concorrência aberta. Mas o Barcelona parece valorizar jogadores capazes de desempenhar mais de uma função. Cancelo pode atuar nos dois lados e participar da construção por dentro. Espart pode jogar como lateral e meio-campista. Balde, por outro lado, oferece um perfil mais específico.
Isso não significa que Balde tenha deixado de ser um jogador talentoso. Significa que seu talento precisa voltar a produzir impacto em uma equipe que passou a ter alternativas diferentes. Há um ano, sua velocidade era uma solução. Agora, sua falta de versatilidade tática pode ser interpretada como uma limitação.
O caminho de volta passa por Flick
Para Balde, a questão mais urgente não é recuperar a titularidade imediatamente. É recuperar a confiança de Hansi Flick. E isso precisa começar antes mesmo de uma nova oportunidade durante os jogos. Se o treinador questionou publicamente seu comprometimento, o jogador precisa responder principalmente no ambiente em que consegue controlar a situação: os treinamentos.
A história recente do próprio Barcelona mostra que a hierarquia pode mudar rapidamente. Eric García começou a era Flick em uma posição secundária e conseguiu transformar sua situação até se tornar uma peça importante. Gerard Martín também passou de uma situação de pouca relevância para conquistar espaço no elenco. O ponto em comum é que ambos aproveitaram as oportunidades recebidas.
Balde precisa fazer o mesmo, mas sua margem de erro é menor. Depois de uma temporada ruim, qualquer nova sequência de atuações abaixo do esperado pode reforçar a percepção de que seu ciclo no clube chegou ao fim. Por outro lado, uma recuperação consistente pode transformar rapidamente a narrativa. Ele ainda possui velocidade, potência física e experiência incomum para um jogador da sua idade. O problema nunca foi a ausência de ferramentas para atuar em alto nível, mas a incapacidade recente de transformar essas ferramentas em desempenho confiável.
O contrato de Balde vai até 2028, mas a duração do vínculo não significa que seu futuro esteja garantido. Se continuar fora da equipe durante os próximos meses, a tendência será de o Barcelona considerar seriamente uma transferência no próximo mercado de verão. Quanto mais tempo um jogador jovem passa sem participar regularmente, maior é o risco de sua valorização diminuir.
Existe, portanto, uma ironia na situação. Balde chegou a ser visto como o sucessor natural de Jordi Alba e como um dos grandes produtos de La Masia para a próxima década. Agora, o Barcelona pode precisar decidir se vale mais a pena apostar na recuperação do jogador ou transformar seu potencial em receita. A diferença entre essas duas possibilidades será determinada pelos próximos meses.
Para Balde, esta talvez seja a primeira grande crise de sua carreira profissional. Ele já não é a promessa que precisava apenas de minutos para amadurecer. Aos 22 anos, precisa mostrar que consegue responder à adversidade, corrigir suas deficiências e se adaptar às exigências de um treinador que aparentemente deixou de vê-lo como titular incontestável.
O Barcelona ainda não fechou a porta para Alejandro Balde. Mas também já não a mantém escancarada. O lateral que um dia parecia destinado a dominar o lado esquerdo do Camp Nou agora precisa reconquistar seu espaço em um elenco que encontrou alternativas mais versáteis e, no momento, mais confiáveis. Se conseguir responder, poderá transformar uma temporada de crise em um novo ponto de partida. Se não conseguir, a passagem de um dos principais talentos recentes de La Masia pelo Barcelona poderá estar chegando ao fim muito antes do que qualquer um imaginava.



