Há partidas que, vistas isoladamente, parecem apenas mais um resultado em uma longa temporada. Outras, no entanto, ganham um significado completamente diferente com o passar dos anos. O empate por 1 a 1 entre Sunderland e Derby County, na abertura da Championship de 2017/18, pertence ao segundo grupo. Naquela noite de agosto, diante de quase 30 mil torcedores no Stadium of Light, havia a expectativa de que o clube começasse imediatamente sua reconstrução após o rebaixamento da Premier League. Em vez disso, o duelo acabou se tornando o primeiro capítulo de uma das fases mais dolorosas dos 134 anos de história dos Black Cats.
Depois de uma década na elite do futebol inglês, o Sunderland chegava à segunda divisão carregando cicatrizes profundas. A campanha de 2016/17 havia terminado de forma melancólica: apenas 24 pontos conquistados, lanterna da Premier League e um ambiente completamente desgastado. David Moyes deixou o comando técnico logo após a confirmação da queda, e a diretoria apostou em Simon Grayson para conduzir uma rápida reação. O discurso era claro: voltar imediatamente à Premier League.
A estreia parecia oferecer o cenário ideal para isso. O Derby County era um adversário tradicional da Championship, mas também vivia um período de instabilidade, acumulando constantes trocas de treinadores e sem conseguir transformar o investimento em campanhas de acesso. Jogando em casa, o Sunderland tinha a oportunidade de enviar uma mensagem aos concorrentes de que seguiria sendo um dos favoritos da competição.
Da emoção à frustração: o calvário dos torcedores do Sunderland
Antes mesmo de a bola rolar, porém, o futebol ficou em segundo plano. O Stadium of Light viveu um dos momentos mais emocionantes de sua história recente ao prestar homenagem a Bradley Lowery, o pequeno torcedor que havia conquistado o carinho não apenas da torcida do Sunderland, mas de todo o futebol inglês.
Bradley faleceu poucas semanas antes da partida, vítima de um neuroblastoma, e sua luta contra a doença mobilizou jogadores, clubes e torcedores em todo o país. O minuto de aplausos realizado antes do início da partida transformou o estádio em um ambiente de profunda emoção, lembrando que o futebol também é construído por histórias humanas muito maiores do que qualquer resultado dentro das quatro linhas.
A homenagem emocionou jogadores e torcedores e criou um clima de união em torno do clube. Parecia o cenário perfeito para que o Sunderland transformasse aquela noite em um recomeço simbólico. Mas a realidade esportiva trataria de frustrar rapidamente essa expectativa.
Logo aos 12 minutos, Bradley Johnson aproveitou uma sobra dentro da área para colocar o Derby County em vantagem. O gol esfriou o ambiente e aumentou a ansiedade de uma torcida que ainda tentava superar o trauma do rebaixamento sofrido poucos meses antes.
Apesar do golpe, o Sunderland respondeu de maneira positiva. A equipe controlava boa parte da posse de bola e conseguia criar oportunidades até encontrar o empate pouco antes do intervalo. Lewis Grabban converteu um pênalti assinalado após toque de mão de Butterfield dentro da área, recolocando o time na partida e reacendendo a esperança de uma estreia com vitória.
Na segunda etapa, o Sunderland foi, durante boa parte do tempo, superior ao adversário. James Vaughan desperdiçou uma grande oportunidade, enquanto o próprio Grabban acertou a trave após boa jogada construída por Lee Cattermole. O Derby também criou chances nos minutos finais, mas nenhuma das equipes conseguiu encontrar o gol da vitória.
O empate deixou um sentimento de frustração, mas ninguém tratava aquele resultado como algo alarmante. Afinal, era apenas a primeira rodada de um campeonato longo, e havia tempo suficiente para corrigir erros e iniciar uma campanha de recuperação.
O início de uma queda histórica
O problema é que aquele empate escondia sinais que só seriam compreendidos meses depois. Com o passar da temporada, ficou evidente que o Sunderland não havia conseguido superar os problemas que provocaram o descenso da Premier League.
Simon Grayson rapidamente perdeu respaldo diante da sequência de resultados ruins e acabou demitido ainda em outubro. Chris Coleman assumiu a missão de salvar a equipe, mas encontrou um elenco sem confiança, fragilizado emocionalmente e incapaz de reagir nos momentos decisivos.
As dificuldades se repetiam rodada após rodada. Erros defensivos constantes, pouca criatividade ofensiva e uma enorme pressão psicológica transformaram cada partida em um desafio ainda maior. O Sunderland parecia carregar o peso do fracasso da temporada anterior, incapaz de recuperar sua identidade competitiva mesmo enfrentando adversários teoricamente inferiores aos da Premier League.
A equipe que durante dez anos enfrentou Manchester United, Liverpool, Chelsea e Arsenal agora lutava para competir em igualdade contra clubes tradicionais da segunda divisão inglesa.
O fundo do poço dos Black Cats
O desfecho daquela campanha foi ainda mais traumático do que qualquer torcedor poderia imaginar na noite da estreia. O Sunderland terminou novamente rebaixado, desta vez para a League One, a terceira divisão inglesa. Era apenas a segunda vez, em toda a história centenária do clube, que os Black Cats caíam para esse nível do futebol nacional.
Em apenas dois anos, o Sunderland havia despencado da Premier League para a terceira divisão, protagonizando uma das quedas mais rápidas e dolorosas do futebol inglês moderno. A crise esportiva logo se transformou em dificuldades financeiras, mudanças constantes de comando e uma reconstrução que levaria vários anos.
Toda essa trajetória ficou eternizada na série documental Sunderland ‘Til I Die, que mostrou ao mundo os bastidores de um gigante tradicional tentando sobreviver enquanto sua estrutura esportiva desmoronava diante dos próprios torcedores.
O empate contra o Derby County passou a ser lembrado de forma completamente diferente com o passar do tempo. Naquele momento, parecia apenas uma oportunidade desperdiçada na estreia da Championship. Hoje, representa o primeiro capítulo da pior fase da história recente do Sunderland.
A partida mostrou um time que ainda acreditava estar próximo de voltar ao caminho das vitórias, mas que, na realidade, já carregava problemas estruturais profundos demais para serem resolvidos apenas com uma troca de treinador ou um novo campeonato.
O futebol costuma oferecer sinais antes das grandes quedas, mas eles nem sempre são percebidos imediatamente. O Sunderland descobriu isso da forma mais dura possível. O empate daquela noite de agosto não definiu sozinho o destino dos Black Cats, mas acabou simbolizando o momento exato em que um clube acostumado aos grandes palcos iniciou sua longa caminhada rumo ao fundo do poço. Só anos depois começaria, enfim, a encontrar o caminho de volta.
(foto: Getty Images)



