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Automobilismo Fórmula 1

Slicks ou intermediários? A decisão que complicou a corrida de McLaren e Ferrari

Quando o GP do Bahrein em Sepang finalmente começou, depois de uma espera de uma hora e 33 minutos causada pela forte chuva, uma coisa ficou clara rapidamente: os pneus intermediários eram a escolha certa para as primeiras voltas.

Mesmo com o circuito aparentando estar em processo de secagem, a pista ainda estava escorregadia demais para os pneus de pista seca. Ainda assim, Ferrari e McLaren decidiram apostar alto nos slicks para a largada. A Ferrari optou pelos pneus macios, enquanto a McLaren colocou os médios em seus carros. A decisão acabou comprometendo boa parte da corrida das duas equipes.

McLaren percebe o erro antes, mas Norris decide continuar

A McLaren percebeu rapidamente que havia cometido um erro. Antes mesmo da largada oficial, ainda durante as voltas sob o Safety Car, a equipe chamou Oscar Piastri aos boxes para colocar pneus intermediários. A decisão permitiu que o australiano evitasse boa parte do prejuízo provocado pela pista molhada. Lando Norris, porém, permaneceu com os pneus médios e decidiu seguir com a aposta inicial.

Na Ferrari, Charles Leclerc também entrou nos boxes ao final da primeira volta para abandonar os pneus macios. Lewis Hamilton, por outro lado, permaneceu na pista e decidiu prolongar a estratégia. Os pilotos que largaram com pneus slick foram rapidamente ultrapassados pelos concorrentes que haviam escolhido os intermediários. A pista ainda não oferecia aderência suficiente para os pneus de pista seca, e a diferença de desempenho ficou evidente nas primeiras voltas.

Norris explicou posteriormente que a escolha pelos slicks parecia uma opção bastante convincente antes da largada. O britânico afirmou que havia dúvidas sobre o real desempenho dos intermediários e que, durante a volta de formação, seu pneu verde já parecia sofrer bastante com o asfalto abrasivo de Sepang.

Norris admite que a McLaren errou

Norris reconheceu que a decisão acabou sendo equivocada, mas explicou por que a equipe acreditou que poderia funcionar. Segundo o piloto, havia muitos carros apostando nos pneus de pista seca, o que tornou a estratégia mais convincente. Além disso, ele não tinha uma referência recente suficiente para compreender o comportamento dos intermediários naquele tipo de condição.

O problema é que o intermediário oferecia muito mais aderência do que Norris esperava. O piloto contou que, durante as voltas até o grid, percebeu que os intermediários tinham uma quantidade surpreendente de aderência, enquanto o seu pneu já apresentava sinais de desgaste. Mesmo assim, a sensação de que a pista poderia secar rapidamente levou a McLaren a manter a aposta.

Piastri, que foi chamado aos boxes antes da largada, acabou sendo quem tomou a decisão correta dentro da equipe. Norris reconheceu isso ao avaliar o resultado: a McLaren simplesmente errou a estratégia naquele momento.

Ferrari sofre com a mesma aposta

A Ferrari enfrentou um problema semelhante, mas com uma consequência ainda mais pesada para Charles Leclerc. A equipe italiana colocou pneus macios nos dois carros para o reinício, apostando que o circuito secaria rapidamente. Quando ficou evidente que isso não aconteceria, Leclerc precisou entrar nos boxes ao final da primeira volta.

O problema foi o tempo perdido com a parada. Como Hamilton permaneceu na pista com os pneus macios, o heptacampeão conseguiu ganhar posições enquanto Leclerc perdia tempo nos boxes. Quando a pista finalmente começou a melhorar, Hamilton já estava em uma posição muito mais favorável para recuperar terreno. Leclerc ainda conseguiu se recuperar e terminou em quarto, mas a estratégia inicial certamente impediu que a Ferrari tivesse uma corrida ainda mais forte.

Asfalto de Sepang enganou as equipes

Leclerc também apresentou uma explicação para o erro coletivo. Segundo o monegasco, a característica extremamente abrasiva do asfalto de Sepang tornou mais difícil interpretar corretamente as condições da pista. A água acabou se acumulando nas irregularidades do pavimento e, com a queda de temperatura provocada pela chuva, o circuito demorou mais do que o esperado para secar.

Além disso, a duração da chuva eliminou rapidamente qualquer calor que ainda estivesse presente no asfalto. Por isso, embora a pista visualmente parecesse estar secando, as condições reais ainda eram muito mais favoráveis aos intermediários do que aos slicks.

Hamilton transforma uma estratégia arriscada em pódio

Curiosamente, Lewis Hamilton conseguiu transformar uma decisão inicialmente problemática em um dos grandes resultados da corrida. O britânico admitiu que, quando viu a quantidade de spray levantada pelo carro de Max Verstappen, percebeu imediatamente que sua corrida poderia estar em sérios problemas. Mesmo assim, a Ferrari decidiu mantê-lo na pista e esperar pela evolução das condições.

A estratégia acabou funcionando. Quando o circuito finalmente começou a secar, Hamilton passou a recuperar posições rapidamente. O carro da Ferrari ganhou desempenho e o britânico conseguiu avançar pelo pelotão.

Mais tarde, uma nova intervenção do Virtual Safety Car, seguida pelo Safety Car, criou outra oportunidade estratégica. Hamilton voltou a utilizar os pneus macios e aproveitou a vantagem para ultrapassar Isack Hadjar e assumir a terceira posição. O resultado foi um pódio que parecia praticamente impossível no começo da corrida.

A pista secou, mas o prejuízo já estava feito

Até o fim da oitava volta, os tempos dos carros com pneus slick já começavam a se aproximar daqueles que utilizavam intermediários. Um incidente envolvendo Valtteri Bottas acabou criando uma nova oportunidade para os pilotos que ainda estavam com os pneus de chuva migrarem para os pneus de pista seca. O problema para McLaren e Ferrari é que o prejuízo das primeiras voltas já estava feito.

A escolha inicial não apenas custou posições, mas também obrigou as equipes a adaptar suas estratégias durante uma corrida em que cada parada tinha um impacto enorme. No caso da McLaren, Piastri conseguiu minimizar os danos e terminou em sexto. Norris, que manteve a aposta nos médios, precisou lutar para recuperar terreno e terminou apenas em nono.

Para a Ferrari, a situação foi melhor no resultado final graças à recuperação de Hamilton e Leclerc, mas a equipe também reconheceu que havia áreas importantes a serem discutidas após o fim de semana. Hamilton, apesar de brincar que não pretendia mais “ir ao cassino com os caras” depois das apostas estratégicas, fez questão de defender o trabalho da equipe e destacou que a Ferrari conseguiu reagir durante a corrida.

Uma lição importante para as próximas corridas

Sepang mostrou que, em condições de chuva, a aparência da pista pode ser extremamente enganosa. McLaren e Ferrari enxergaram uma oportunidade para antecipar a transição para os pneus slicks, mas os intermediários provaram ser muito mais eficientes no início da corrida. Quando a pista finalmente ficou adequada para os pneus de pista seca, os carros que haviam apostado nessa estratégia já haviam perdido uma quantidade considerável de tempo.

No fim, a corrida também mostrou a importância de saber abandonar rapidamente uma estratégia que não está funcionando. Piastri fez isso antes da largada e conseguiu terminar em sexto. Hamilton e Leclerc, por caminhos diferentes, precisaram administrar o prejuízo e ainda conseguiram colocar a Ferrari no pódio e na quarta posição.

Para McLaren e Ferrari, a principal lição de Sepang foi clara: em uma pista molhada, saber quando apostar é importante, mas saber quando desistir da aposta pode ser ainda mais decisivo.

Foto: (Reprodução/ Motor Sport Images)