A República Democrática do Congo já entrou para a história nesta Copa do Mundo. Depois de 52 anos longe do torneio, a seleção africana voltou ao Mundial e garantiu uma classificação inédita para o mata-mata, superando expectativas logo na fase de grupos. Agora, o desafio é ainda maior diante da Inglaterra, uma das favoritas ao título.
O favoritismo naturalmente está do lado inglês, mas os Leopardos chegam com motivos suficientes para acreditar que podem surpreender. O que a equipe apresentou até aqui mostra que esse sonho não parece tão distante quanto muita gente imaginava antes da bola rolar.
Uma fase de grupos que mudou a imagem do Congo
Poucas seleções conseguiram chamar tanta atenção na fase de grupos quanto a República Democrática do Congo. Logo na estreia, a equipe conquistou um empate diante de Portugal, resultado que poucos imaginavam antes da competição começar. Mais do que o ponto conquistado, o desempenho chamou a atenção. A seleção africana conseguiu limitar as principais armas portuguesas, mostrou muita organização defensiva e ainda deixou a impressão de que poderia até ter saído de campo com a vitória.
A atuação serviu para mudar completamente a percepção sobre o Congo dentro da Copa do Mundo. O time deixou de ser visto apenas como um participante histórico e passou a ser tratado como uma equipe capaz de competir contra seleções tradicionais.
Na segunda rodada, o desafio foi contra a Colômbia. O resultado acabou sendo uma derrota, mas novamente a equipe mostrou competitividade durante boa parte da partida. Mesmo sofrendo pressão em diversos momentos, conseguiu permanecer viva no confronto durante quase todo o jogo graças ao trabalho coletivo e às boas intervenções do goleiro Lionel Mpasi.
A classificação foi confirmada na última rodada com a vitória sobre o Uzbequistão. O resultado representou um dos capítulos mais importantes da história do futebol congolês, colocando a seleção, pela primeira vez, entre as equipes classificadas para a fase eliminatória da Copa do Mundo.
A campanha também reforçou uma característica importante da equipe de Sébastien Desabre. Mesmo enfrentando adversários considerados superiores, o Congo nunca abandonou sua identidade. Em vez de tentar controlar a posse de bola ou acelerar a partida, a seleção preferiu atuar de maneira organizada, esperando o momento certo para atacar.
O estilo do Congo pode incomodar a Inglaterra
Grande parte da força da República Democrática do Congo passa justamente pela forma como a equipe encara cada jogo. O time não tenta construir espetáculo, mas sim diminuir ao máximo os espaços oferecidos ao adversário. A prioridade está na organização defensiva, obrigando o rival a encontrar soluções contra um bloco bastante compacto.
Essa característica apareceu diversas vezes na fase de grupos. Contra Portugal, por exemplo, Cristiano Ronaldo encontrou enormes dificuldades para participar do jogo. A dupla formada por Chancel Mbemba e Axel Tuanzebe conseguiu neutralizar boa parte das jogadas portuguesas, enquanto a equipe africana manteve sua estrutura praticamente durante toda a partida. Neste cenário, mesmo quando o Congo aceita ficar sem a posse de bola, isso faz parte do plano de jogo. A equipe procura atrair o adversário para criar espaços quando recupera a bola, explorando transições rápidas sempre que encontra oportunidade.
No setor ofensivo, Yoane Wissa aparece como a principal referência. O atacante vive uma excelente Copa do Mundo e já marcou três gols, sendo decisivo principalmente na vitória sobre o Uzbequistão. Mesmo com um estilo mais cauteloso, a seleção mostrou que consegue transformar poucas oportunidades em chances reais de marcar.
Além de Wissa, Sébastien Desabre também demonstrou capacidade para ajustar sua equipe durante a competição. Contra o Uzbequistão, o treinador promoveu mudanças importantes, alterando a formação defensiva e utilizando jogadores com características mais ofensivas. As entradas de atletas como Fiston Mayele, Nathan Mbuku e Brian Cipenga deram uma nova dinâmica ao ataque e mostraram que o Congo possui alternativas para modificar o rumo das partidas quando necessário.
Outro fator interessante é o conhecimento que boa parte do elenco possui do futebol inglês. Jogadores como Aaron Wan-Bissaka, Axel Tuanzebe, Arthur Masuaku, Noah Sadiki e Aaron Tshibola atuam ou passaram por clubes da Inglaterra, conhecendo de perto o estilo físico e intenso normalmente apresentado pelas equipes do país.
Tudo isso faz com que a República Democrática do Congo chegue ao confronto contra a Inglaterra muito mais fortalecida do que no início da Copa do Mundo. O favoritismo continua sendo inglês, mas os Leopardos já provaram que conseguem competir contra seleções tradicionais e que não se intimidam diante de grandes desafios.
Depois de escrever um capítulo histórico ao alcançar o mata-mata pela primeira vez, o Congo entra em campo sem a pressão que acompanha outras seleções. Ao mesmo tempo, leva consigo a confiança construída durante a fase de grupos. Se conseguir repetir a organização defensiva, aproveitar a boa fase de Wissa e manter a eficiência mostrada até aqui, a seleção africana terá motivos para acreditar que pode transformar mais uma partida desta Copa do Mundo em um momento inesquecível para sua história.
Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.