Se existia alguma dúvida sobre o impacto da expansão da Copa do Mundo, o desempenho das seleções africanas em 2026 praticamente encerrou essa discussão.
A África vive sua campanha mais marcante na história recente do torneio e transformou aquilo que antes era tratado com desconfiança em argumento favorável ao novo formato idealizado pela Fifa.
Enquanto o continente africano comemora classificações históricas e consolida sua evolução dentro do cenário mundial, a Ásia encerra a fase de grupos cercada por questionamentos e tentando entender por que ficou para trás.
Os números ajudam a mostrar o tamanho da diferença.
África sai de fracasso em 2018 para protagonismo em 2026
Na Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia, nenhuma seleção africana conseguiu avançar ao mata-mata.
Naquele torneio, os cinco representantes do continente conquistaram apenas três vitórias em quinze partidas possíveis e deixaram uma sensação de estagnação.
O cenário oito anos depois é completamente diferente.
Na Copa de 2026, nove das dez seleções africanas avançaram de fase. Apenas a Tunísia ficou pelo caminho.
Cabo Verde, Egito, Costa do Marfim, Marrocos e África do Sul avançaram como segundos colocados, enquanto Argélia, República Democrática do Congo, Gana e Senegal garantiram classificação terminando em terceiro.
O resultado colocou a África em evidência e fortaleceu a ideia de que o aumento no número de vagas permitiu ao continente mostrar um nível competitivo que antes aparecia menos.
Marrocos virou referência para o crescimento Africano
Grande parte dessa transformação passa por um país.
Marrocos deixou de ser apenas uma seleção competitiva para virar modelo dentro do continente.
Os primeiros sinais apareceram na Copa de 2022, quando duas seleções africanas alcançaram o mata-mata pela primeira vez no mesmo torneio.
Mas foi a campanha marroquina até a semifinal que mudou a percepção global.
Antes disso, apenas Camarões em 1990, Senegal em 2002 e Gana em 2010 tinham alcançado as quartas de final.
Marrocos deu um passo além e eliminou seleções tradicionais até chegar entre os quatro melhores.
Segundo dirigentes e ex-jogadores africanos, o crescimento veio após anos de investimento em categorias de base, centros de treinamento, formação de treinadores e desenvolvimento estrutural.
A ideia passou a ser simples: se Marrocos conseguiu criar um caminho sustentável para competir contra potências, outros países também poderiam seguir o mesmo modelo.

Novo formato ajudou, mas não explica sozinho a evolução
É verdade que a ampliação da Copa criou mais oportunidades.
Com mais grupos e mais vagas para terceiros colocados, o cenário ficou menos restritivo para seleções fora do grupo tradicional de favoritas.
Mas isso não explica sozinho o que aconteceu.
Se a mudança de formato beneficiou todos os continentes, por que a África cresceu tanto enquanto a Ásia recuou?
A resposta parece estar menos na competição e mais no desenvolvimento esportivo.
As seleções africanas chegaram mais preparadas, mais maduras taticamente e com elencos cada vez mais inseridos no futebol europeu.
E esse fator aparece claramente nos números.
Presença de jogadores na Europa ajuda a explicar diferença
Uma das principais diferenças entre os continentes está no nível das ligas em que seus atletas atuam.
Marrocos levou para a Copa 20 jogadores que atuam na Europa, sendo 15 deles nas cinco principais ligas do continente.
A República Democrática do Congo contou com 24 atletas jogando em clubes europeus.
Mesmo seleções com menor presença internacional mantiveram boa parte do elenco em ambientes competitivos.
Na Ásia, o cenário foi diferente.
Entre os países que decepcionaram, várias seleções chegaram com poucos atletas atuando em grandes centros.
A Jordânia, por exemplo, teve apenas um jogador em clube europeu.
Iraque e Uzbequistão apresentaram números baixos, enquanto o Irã também ficou distante do padrão das seleções africanas mais competitivas.
Curiosamente, as equipes asiáticas que tiveram melhor desempenho seguiram outro caminho.
Japão levou 23 jogadores que atuam na Europa. Austrália contou com 16. Coreia do Sul teve 15.

Ásia fecha campanha cercada por pressão e cobranças
Enquanto a África comemorou crescimento coletivo, a Ásia encerrou sua participação sob pressão.
Das nove seleções classificadas para a Copa, apenas duas chegaram ao mata-mata.
Em 27 jogos disputados, os representantes asiáticos conquistaram somente três vitórias.
Nos confrontos diretos que valiam classificação contra africanos, o desempenho também chamou atenção negativamente.
Foram cinco jogos decisivos entre os continentes na rodada final da fase de grupos e as seleções asiáticas não venceram nenhum.
O caso mais simbólico foi o da Coreia do Sul.
Após eliminação considerada decepcionante, o desempenho gerou forte repercussão interna. O resultado provocou cobranças públicas e culminou na saída do técnico Hong Myung-bo.

África quer ir além e asia tenta reduzir distância
Agora o desafio africano é transformar a excelente fase de grupos em campanhas históricas no mata-mata.
O caminho não será simples.
As principais potências continuam espalhadas pela chave e repetir uma semifinal como Marrocos conseguiu em 2022 exigirá novas vitórias contra seleções tradicionais.
Mas existe uma diferença importante em relação ao passado.
Desta vez, ninguém encara um confronto contra uma seleção africana como surpresa anunciada.
Enquanto isso, a Ásia deixa a Copa com uma missão clara: reduzir a distância criada nos últimos anos.
Porque em 2026 o continente africano mostrou que ocupar mais espaço no torneio não basta.
É preciso estar preparado para aproveitá-lo.
Reprodução / Instagram (@fecofadrc)