Futebol Brasileirão

Conheça João Borne, esperança da base do Grêmio que será relacionado pela primeira vez no profissional

O Grêmio começa a olhar para João Borne de uma maneira diferente. Aos 18 anos, o meia-atacante deixou de ser apenas uma das promessas mais interessantes das categorias de base e passou a fazer parte do grupo que Renato Portaluppi considera para o time profissional. O jovem foi relacionado pela primeira vez para uma partida da equipe principal e estará no banco contra o Remo, nesta quarta-feira, pelo Campeonato Brasileiro.

A convocação acontece depois de uma sequência que ajuda a explicar por que Borne chamou a atenção da comissão técnica. Durante a Data Fifa, Renato ampliou a observação sobre os jogadores da base e levou 12 jovens para treinamentos no CT Luiz Carvalho. Borne estava entre eles e conseguiu aproveitar a oportunidade. Poucos dias depois, voltou a aparecer em um cenário ainda mais importante: foi titular, capitão e autor do primeiro gol do Grêmio na vitória por 3 a 0 sobre o Internacional, pelo Gre-Nal da Copa Sul Sub-20.

O momento não é resultado de uma única partida. Borne vem construindo uma trajetória consistente desde que chegou ao Grêmio, em 2022, e os números ajudam a explicar por que o clube passou a enxergar nele um jogador capaz de dar o próximo passo. Vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro Sub-17 em 2025, com 15 gols em 22 partidas, o meia também marcou cinco vezes e deu três assistências em oito jogos na Copa São Paulo deste ano, competição na qual o Grêmio chegou à semifinal.

Agora, a questão deixa de ser apenas descobrir se João Borne tem talento para chegar ao profissional. A resposta inicial parece ser positiva. O verdadeiro desafio passa a ser entender como esse talento pode ser adaptado ao futebol de alto nível e quanto espaço o Grêmio está disposto a oferecer para que ele se desenvolva.

A promoção de Borne não acontece por acaso

Existe uma diferença importante entre ser chamado para treinar com os profissionais e ser relacionado para uma partida oficial. O primeiro passo pode representar apenas uma observação. O segundo indica que o jogador já começou a fazer parte dos planos imediatos da comissão técnica.

No caso de Borne, essa evolução aconteceu rapidamente. O meia foi incluído entre os jovens que participaram dos treinamentos durante a Data Fifa justamente em um período no qual Renato teve mais tempo para observar alternativas. Em vez de utilizar apenas os jogadores mais conhecidos do elenco, o treinador abriu espaço para atletas da base e criou uma espécie de avaliação prática.

Borne aproveitou. Sua convocação para o jogo contra o Remo não significa necessariamente que Renato esteja planejando colocá-lo em campo ou transformá-lo imediatamente em uma peça importante do elenco. O mais provável é que o treinador esteja oferecendo ao jogador o primeiro contato com uma realidade diferente daquela que ele conhece nas categorias de base.

Mesmo assim, o simples fato de estar no banco já representa uma mudança de estágio. O jovem passa a experimentar concentração com o elenco principal, viagens, preparação para um jogo de Campeonato Brasileiro e a pressão que envolve uma equipe profissional. São experiências que não aparecem em uma estatística de gols ou assistências, mas que fazem parte do processo de formação.

E o Grêmio parece entender que Borne está pronto para começar a viver isso.

Os números mostram um jogador acostumado a decidir

O principal argumento a favor da promoção de Borne está justamente naquilo que ele já produziu na base. Em 2025, o meia terminou o Campeonato Brasileiro Sub-17 como vice-artilheiro, com 15 gols em 22 partidas. Para um jogador que atua em uma posição ofensiva, o número chama atenção, mas existe algo ainda mais relevante: a capacidade de manter influência no jogo ao longo de uma competição nacional de alto nível.

Na Copa São Paulo deste ano, Borne voltou a apresentar números importantes. Foram cinco gols e três assistências em apenas oito partidas, enquanto o Grêmio avançava até a semifinal.

Ou seja, o jogador não apareceu repentinamente no radar de Renato. Existe uma sequência de desempenho que sustenta a promoção. Isso também ajuda a entender o perfil de Borne. Ele não parece ser apenas um meia preocupado em participar da construção das jogadas. Existe uma capacidade de chegar à área, finalizar e transformar presença ofensiva em números concretos.

Essa característica pode ser particularmente valiosa em uma equipe profissional que precisa encontrar soluções além dos jogadores mais experientes. Ao mesmo tempo, é preciso tomar cuidado para não transformar estatísticas da base em uma garantia de sucesso no futebol profissional. A diferença de intensidade é enorme. Os espaços diminuem, os adversários são mais fortes fisicamente, o tempo para pensar é menor e cada erro tem consequências maiores.

Por isso, a primeira convocação deve ser encarada menos como uma confirmação de que Borne está pronto e mais como o início de uma nova etapa de avaliação.

O Gre-Nal mostrou o tipo de personalidade que o Grêmio procura

Se os números ajudam a explicar o talento, o último Gre-Nal oferece um elemento diferente: personalidade. Borne entrou em campo como camisa 10 e capitão do Grêmio no clássico pela Copa Sul Sub-20. Em uma partida que naturalmente carrega um peso diferente dentro das categorias de base, o meia não apenas participou. Foi responsável por abrir o placar na vitória por 3 a 0.

Esse tipo de atuação tem um valor simbólico importante. Ser capitão aos 18 anos significa que o jogador já ocupa uma posição de liderança dentro do grupo. Marcar em um Gre-Nal acrescenta ainda mais peso à atuação. E fazer isso justamente em um momento no qual estava sendo observado pela comissão técnica profissional torna o contexto ainda mais interessante.

Borne não poderia controlar quando receberia uma oportunidade com Renato. O que estava sob seu controle era o desempenho quando a oportunidade aparecesse.

E foi isso que aconteceu. O gol no clássico não deve ser interpretado isoladamente como o motivo da convocação, porque o trabalho do jogador já vinha sendo acompanhado. Mas certamente reforça uma percepção importante: Borne não parece sentir tanto o peso de momentos relevantes.

Essa característica pode ser decisiva para um jogador jovem que começa a se aproximar do elenco principal.

O Grêmio pode encontrar na base uma solução para diferentes necessidades

A promoção de João Borne também acontece dentro de um contexto maior no Grêmio. A cada temporada, os clubes brasileiros precisam equilibrar desempenho imediato, orçamento e desenvolvimento de jovens jogadores. A base deixa de ser apenas uma fonte de talentos futuros e passa a representar uma alternativa estratégica para o presente.

Para o Grêmio, Borne pode se encaixar justamente nessa lógica. Um meia-atacante de 18 anos, com histórico de gols, capacidade de participar das jogadas ofensivas e experiência como liderança nas categorias inferiores pode oferecer uma característica diferente ao elenco. Não significa que ele vá assumir imediatamente uma posição de titular, mas sua presença aumenta o número de opções disponíveis para Renato.

E existe uma vantagem importante: o treinador já teve contato direto com o jogador antes de decidir relacioná-lo. Renato pôde observá-lo nos treinamentos, avaliar seu comportamento sem a bola, sua intensidade, sua capacidade de entender as orientações e a maneira como reage ao nível de exigência do profissional. Esses elementos são tão importantes quanto os gols marcados na base.

A decisão de relacioná-lo, portanto, sugere que Borne conseguiu convencer a comissão técnica de que não é apenas um jogador tecnicamente interessante. Existe também uma percepção de que ele pode começar a ser integrado ao ambiente profissional sem queimar etapas.

Esse talvez seja o maior desafio daqui para frente.

O próximo passo será transformar potencial em regularidade

A primeira convocação é importante, mas também inaugura uma fase mais delicada.

Borne agora passa a conviver com uma expectativa diferente. Antes, seus gols no Sub-17 ou na Copa São Paulo eram sinais de potencial. A partir do momento em que entra no radar do time principal, cada aparição começa a ser analisada com outra régua.

Por isso, o Grêmio precisará administrar cuidadosamente o desenvolvimento do jogador. Não seria interessante transformar uma primeira convocação em uma obrigação para que Borne resolva partidas. Também não faria sentido tratá-lo como uma promessa destinada automaticamente a ocupar uma posição entre os titulares. Aos 18 anos, o jogador ainda precisa ganhar experiência, entender o ritmo do futebol profissional e aprender a lidar com momentos em que seu talento não será suficiente para decidir.

A melhor utilização pode ser justamente aquela que permita que ele cresça sem perder as características que fizeram o clube apostar nele.

O caminho de Borne até aqui mostra que existe fundamento para a expectativa. Ele chegou ao Grêmio ainda nas categorias iniciais, em 2022, vindo de Maceió, indicado por Capitão, ex-centroavante do clube, por meio de uma parceria com a escola do Santa Cruz Alagoano. Em quatro anos, passou de uma aposta descoberta na formação para um dos nomes que começam a bater à porta do profissional.

Agora, a porta finalmente se abriu. João Borne ainda não é uma solução pronta para o Grêmio. Não deveria ser tratado dessa maneira. O que existe neste momento é algo talvez mais interessante: um jogador jovem que acumulou desempenho suficiente na base para receber uma oportunidade e que, nos primeiros treinamentos com o profissional, conseguiu convencer Renato a levá-lo para uma partida de Campeonato Brasileiro.

O banco contra o Remo pode parecer um detalhe diante de tudo o que ainda precisa acontecer. Mas, para Borne, representa o começo de uma mudança de ambiente. Pela primeira vez, ele estará a poucos metros de entrar em campo ao lado de jogadores que, até pouco tempo atrás, eram apenas referências do futebol profissional.

(Foto: Guilherme Testa/Grêmio)