O Internacional ainda não está condenado ao rebaixamento, mas já chegou a um ponto em que acreditar na permanência no Brasileirão exige muito mais do que confiança. O Colorado tem dez rodadas para evitar a queda e precisa transformar uma temporada marcada pela irregularidade em uma reta final praticamente perfeita. A matemática oferece uma possibilidade concreta, mas o desempenho apresentado até aqui levanta uma pergunta mais incômoda: quão realista é imaginar que o Inter conseguirá, em apenas dez partidas, jogar em um nível que não conseguiu alcançar durante os 28 jogos anteriores?
O cenário é delicado. O Inter ocupa a 18ª colocação, com 28 pontos e apenas 33,33% de aproveitamento. Para chegar aos 45 pontos, marca historicamente próxima da permanência na Série A, seriam necessários 17 dos 30 pontos restantes. Na prática, isso significa cinco vitórias e dois empates nas dez rodadas finais, um rendimento de 56,66%. O problema é que o Colorado jamais atingiu esse aproveitamento em uma sequência comparável ao longo da competição.
A diferença entre o que o Inter precisa fazer e aquilo que conseguiu fazer até agora talvez seja a melhor forma de dimensionar o tamanho da missão. O clube não precisa apenas melhorar. Precisa melhorar drasticamente, em um momento no qual cada tropeço pode ter consequências definitivas.
A matemática ainda permite acreditar, mas não conta toda a história
Existe uma tentação natural em situações como essa de olhar para a tabela e concluir que dez jogos são suficientes para mudar tudo. De fato, são. Trinta pontos ainda estão em disputa, e uma sequência de bons resultados pode transformar rapidamente uma equipe que está no Z-4 em um time fora da zona de rebaixamento.
O problema é que o futebol não trabalha apenas com possibilidades matemáticas. Ele também trabalha com tendências.
E a tendência do Inter é ruim. O Colorado venceu apenas uma das últimas 12 partidas e tem o segundo pior aproveitamento da Série A nas últimas dez rodadas, com apenas sete pontos conquistados. No returno, o rendimento é ainda mais preocupante: 25,92%, com somente sete pontos. A equipe também tem a terceira pior campanha como mandante, com 14 pontos em 14 jogos no Beira-Rio.
Ou seja, o Inter precisa fazer justamente aquilo que não vem fazendo: vencer. Não basta conseguir alguns empates e esperar que os concorrentes diretos tropecem. O número de vitórias necessário é alto demais para uma equipe que acumulou apenas seis triunfos em 28 rodadas.
Por isso, a matemática pode ser enganosa. Ela mostra que a porta ainda está aberta, mas não mostra o tamanho da força necessária para atravessá-la.
Uma das esperanças naturais do Inter para a reta final seria transformar o Beira-Rio em uma fortaleza. O clube ainda terá cinco partidas em casa, e a presença do torcedor pode ser determinante em uma luta na qual cada ponto terá peso enorme.
Só que existe um problema: o estádio não foi uma fortaleza em 2026. O Inter venceu apenas três dos 14 jogos que disputou como mandante e tem a terceira pior campanha em casa no campeonato. Portanto, até mesmo o principal argumento a favor de uma reação precisa ser acompanhado de uma ressalva. Não basta jogar no Beira-Rio; é necessário transformar o mando em vantagem, algo que o time não conseguiu fazer durante praticamente toda a temporada.
Isso coloca ainda mais pressão sobre as próximas partidas. Corinthians, Grêmio, Botafogo, Coritiba, Vitória e Bragantino aparecem na sequência decisiva, além de confrontos fora de casa contra Mirassol, Fluminense, Vasco e Cruzeiro. O calendário oferece oportunidades, principalmente nos jogos contra adversários que também podem estar envolvidos na parte de baixo da tabela, mas também apresenta partidas nas quais o Inter precisará buscar pontos contra equipes competitivas.
O detalhe é que o primeiro turno não oferece exatamente uma lembrança animadora. Contra esses dez adversários, o Colorado somou três vitórias, três empates e quatro derrotas, com apenas 40% de aproveitamento. Para escapar, precisará superar justamente esse rendimento.
Eduardo Baptista chega com uma missão que vai além de mudar o treinador
A troca de Paulo Pezzolano por Eduardo Baptista pode representar uma tentativa de criar um ponto de ruptura. Em uma situação tão deteriorada, a mudança no comando oferece ao elenco a possibilidade de começar novamente, reorganizar ideias e recuperar jogadores que perderam confiança.
Mas existe um limite para o que uma troca de treinador pode produzir em dez rodadas. Eduardo Baptista não recebeu um time em uma situação ruim apenas por causa de uma questão tática. O problema do Inter é mais amplo. A equipe tem dificuldades para vencer, apresenta baixo rendimento ofensivo e não consegue transformar o mando de campo em uma vantagem consistente. Ao mesmo tempo, carrega a pressão de uma tabela que praticamente não oferece espaço para erros.
O novo treinador precisa, portanto, produzir uma mudança imediata sem necessariamente ter tempo para construir um novo modelo de jogo. Esse é um dos aspectos mais difíceis da missão. Em uma temporada normal, um técnico pode precisar de semanas para corrigir comportamentos, ajustar posicionamentos e criar mecanismos ofensivos. O Inter não tem esse luxo. A estreia de Eduardo Baptista contra o Corinthians já acontece dentro de uma lógica de decisão.
O primeiro jogo não precisa apenas ser uma boa estreia. Precisa iniciar uma reação.
Outro ponto que torna a permanência complicada é a produção ofensiva. O Inter marcou apenas 30 gols em 28 partidas, o quarto pior ataque da competição, empatado com o Grêmio. Ao mesmo tempo, sofreu 36 gols, número que coloca a defesa em uma posição consideravelmente melhor: é a nona menos vazada do campeonato.
O Inter não está sendo destruído defensivamente em todos os jogos. O problema é que também não consegue transformar sua organização defensiva em vitórias. Uma equipe que sofre relativamente poucos gols, mas também marca pouco, fica extremamente dependente de partidas apertadas, nas quais qualquer erro pode custar dois pontos ou até mesmo uma derrota.
Na reta final, isso precisa mudar. Se o objetivo é conquistar 17 dos 30 pontos restantes, o Colorado terá de vencer cinco partidas. E vencer significa marcar gols. Não existe espaço para depender exclusivamente de 1 a 0, de atuações perfeitas do sistema defensivo ou de uma eventual falha do adversário.
O Inter precisa assumir mais riscos, mas também precisa encontrar eficiência. É uma combinação difícil justamente porque o time passou boa parte da temporada sem demonstrar capacidade para produzi-la de maneira constante.
O problema não é estar a três ou quatro pontos de alguém, mas precisar jogar como um time de G-4
Talvez a comparação mais assustadora para o Inter seja aquela feita entre o rendimento necessário e o dos melhores times do campeonato.
Para alcançar os 45 pontos, o Colorado precisa conquistar 56,66% dos pontos que ainda disputa. Esse rendimento é praticamente o mesmo do Fluminense, atualmente no G-4, que tem 57,14% de aproveitamento na competição.
É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre distância na tabela. O Inter não precisa simplesmente ser um pouco melhor do que foi. Precisa apresentar, durante dez rodadas, um desempenho próximo ao de uma equipe que está disputando as primeiras posições do Brasileirão.
E isso é extremamente difícil de acreditar olhando para o histórico recente. Uma equipe que passou 28 rodadas sem sequer alcançar 50% de aproveitamento precisa, de repente, sustentar quase 57% até o fim. Não é impossível. Futebol já produziu reações muito mais improváveis. Mas não é uma projeção confortável, nem mesmo uma expectativa razoável baseada no que aconteceu até agora.
O Inter ainda pode escapar, mas hoje é mais realista falar em esperança do que em confiança
Existe uma diferença importante entre dizer que o Inter está rebaixado e reconhecer que sua permanência é improvável diante do futebol apresentado.
O Colorado ainda tem 30 pontos em disputa. Precisa de 17 para chegar aos 45. Tem cinco jogos em casa. Possui confrontos diretos no calendário. Trocará o comando técnico justamente antes da reta decisiva. Nada disso permite decretar a queda antes da hora.
Mas também seria errado ignorar o que os números estão dizendo. O Inter tem 33,33% de aproveitamento no campeonato e precisa produzir 56,66% daqui até o fim. Venceu apenas uma vez nas últimas 12 rodadas. Tem uma das piores campanhas como mandante. Possui um dos ataques menos produtivos da Série A. E enfrenta uma sequência na qual não poderá simplesmente administrar resultados.
Por isso, a pergunta mais honesta neste momento não é se o Inter ainda pode escapar. Pode. A pergunta é se existe evidência suficiente para acreditar que ele conseguirá fazer isso. E, olhando para o futebol apresentado até aqui, a resposta é desconfortável: ainda não.
Eduardo Baptista terá dez rodadas para transformar essa resposta. O Inter precisa deixar de ser uma equipe que luta para sobreviver em cada partida e passar a ser uma equipe que consegue impor resultados. Precisa vencer em casa, arrancar pontos fora, melhorar o ataque e, principalmente, sustentar uma sequência que se aproxime do rendimento dos clubes que estão no topo da tabela.
(Foto: Ricardo Duarte/Internacional)



