McGregor
Lutas UFC

Conor McGregor divide a Irlanda às vésperas do UFC 329 e reabre feridas que vão muito além do octógono

Conor McGregor está de volta ao UFC, mas seu retorno no UFC 329 desperta sentimentos muito diferentes daqueles que marcaram o auge de sua carreira. Se, há pouco mais de uma década, o irlandês era tratado como um herói nacional e motivo de orgulho para seu país, hoje sua imagem provoca debates, desconforto e até rupturas entre fãs do MMA. O que antes era uma celebração coletiva se transformou em uma discussão sobre até que ponto é possível separar o atleta da pessoa.

Enquanto Las Vegas recebe milhares de torcedores para acompanhar mais um capítulo da trajetória de “The Notorious”, na Irlanda o clima está longe da euforia que acompanhava cada uma de suas lutas. O apoio ainda existe, mas ficou muito mais discreto. Para muitos irlandeses, McGregor deixou de representar apenas um campeão do UFC e passou a carregar um histórico de polêmicas que mudou completamente sua relação com o público.

De símbolo nacional a maior estrela do UFC

É impossível contar a história recente do MMA sem falar de Conor McGregor.

Quando surgiu no cenário internacional, o lutador representava muito mais do que vitórias dentro do octógono. Em um período de dificuldades econômicas na Irlanda, ele se tornou um símbolo de superação, mostrando que era possível sair de Dublin e conquistar o mundo em um esporte que, até então, pouca gente acompanhava no país.

Seu carisma, a confiança inabalável e o talento para promover lutas fizeram dele um fenômeno global.

O auge dessa conexão aconteceu em 2014, quando retornou a Dublin para enfrentar Diego Brandão diante de uma 3Arena completamente lotada. O evento entrou para a história do UFC e ajudou a consolidar McGregor como um dos maiores astros da organização.

Pouco tempo depois, ele já estampava outdoors em Las Vegas e transformava qualquer coletiva de imprensa em espetáculo.

O irlandês colocou o MMA no mapa

Antes de McGregor, o MMA ainda lutava por reconhecimento em diversos países, inclusive na Irlanda.

Seu sucesso obrigou programas esportivos, jornais e emissoras de televisão a tratarem o esporte com mais seriedade.

Cada luta movimentava o país. Era comum ver aeroportos tomados por torcedores vestidos com camisas da seleção irlandesa, roupas da academia SBG e produtos oficiais do lutador. Para muitos fãs, viajar até Las Vegas virou uma tradição.

Naquele período, defender Conor McGregor significava, para boa parte dos irlandeses, defender também o crescimento do MMA.

As polêmicas começaram a mudar o cenário

O relacionamento entre McGregor e parte da torcida começou a sofrer desgaste por volta de 2017.

A superluta contra Floyd Mayweather Jr. levou o irlandês a um novo patamar financeiro e de popularidade, mas também marcou o início de uma sequência de episódios que passaram a dividir opiniões.

Algumas declarações consideradas ofensivas geraram críticas dentro e fora da Irlanda. Depois vieram outras controvérsias.

Infrações de trânsito, episódios de desordem pública, o ataque ao ônibus do UFC 223 em Brooklyn e denúncias envolvendo agressões passaram a ocupar espaço nas manchetes quase com a mesma frequência de suas vitórias.

A cada novo episódio, aumentava a dificuldade de separar o personagem irreverente do comportamento fora das competições.

A rivalidade com Khabib mudou muita coisa

Se havia um momento que simbolizou essa transformação, provavelmente foi o UFC 229.

A rivalidade com Khabib Nurmagomedov ultrapassou todos os limites esportivos.

As provocações ganharam tom pessoal, envolveram família, religião e nacionalidade, criando um ambiente extremamente hostil antes mesmo da luta acontecer.

O evento bateu recordes de venda de pay-per-view, mas também marcou uma mudança importante na percepção de muitos torcedores irlandeses.

Embora McGregor continuasse extremamente popular ao redor do mundo, dentro da Irlanda já era possível perceber uma queda significativa no entusiasmo.

O apoio permanecia, mas deixava de ser praticamente unânime.

O julgamento de 2024 representou um ponto de ruptura

O episódio que mais abalou a imagem pública do ex-campeão aconteceu em novembro de 2024.

McGregor foi considerado civilmente responsável pela agressão sexual contra Nikita Hand em um tribunal irlandês, em um dos casos de maior repercussão no país naquele ano.

A decisão gerou uma enorme reação popular.

Manifestações pedindo a reabertura da investigação criminal tomaram as ruas, enquanto grandes varejistas deixaram de comercializar produtos ligados ao lutador.

Para uma parcela significativa da população, aquele episódio representou o rompimento definitivo com o atleta. A partir dali, apoiar publicamente McGregor passou a ser encarado de forma muito diferente do que acontecia anos antes.

O silêncio substituiu os antigos cânticos

Quem viveu o auge da “McGregor Mania” percebe rapidamente como o cenário mudou.

Nas semanas de luta entre 2015 e 2017, bastava passar pelo aeroporto de Dublin para encontrar grupos de torcedores cantando músicas em homenagem ao lutador enquanto embarcavam rumo aos Estados Unidos.

Era quase impossível não perceber que havia um grande evento do UFC acontecendo.

Agora, às vésperas do UFC 329, a realidade parece outra.

O movimento de fãs viajando para acompanhar McGregor diminuiu bastante, e até funcionários da imigração americana já não associam automaticamente passageiros irlandeses ao principal astro do UFC.

A impressão é de que o entusiasmo coletivo ficou no passado.

Ainda existem fãs, mas eles fazem menos barulho

Isso não significa que McGregor tenha perdido completamente sua base de admiradores.

Ela continua existindo. A diferença é que muitos desses torcedores já não demonstram o mesmo orgulho de antes ao declarar apoio ao lutador.

O entusiasmo passou a ser mais reservado.

Há quem continue acompanhando cada luta, torcendo por vitórias e admirando tudo o que ele conquistou dentro do octógono, mas reconhecendo que sua trajetória fora dele tornou essa defesa muito mais difícil.

É uma relação marcada por conflitos. Muitos ainda enxergam o atleta extraordinário. Outros consideram impossível ignorar tudo o que aconteceu longe das arenas.

O UFC 329 vai muito além da luta

Independentemente do resultado em Las Vegas, o retorno de Conor McGregor representa muito mais do que apenas mais um combate na organização.

Ele recoloca em discussão uma figura que mudou a história do UFC, revolucionou o marketing do esporte e ajudou o MMA a alcançar um público jamais imaginado, mas que também acumulou uma série de controvérsias capazes de transformar completamente sua imagem pública.

Dentro do octógono, McGregor continua sendo um dos maiores nomes da história da modalidade e ainda desperta enorme interesse mundial. Fora dele, porém, a situação é bem diferente.

Se antes a Irlanda parava para acompanhar cada entrada do lutador, hoje boa parte da empolgação vem do público internacional. As luzes de Las Vegas continuam iluminando o retorno de uma das maiores estrelas que o UFC já produziu, mas, em casa, o sentimento parece distante daquele orgulho quase unânime que um dia fez Conor McGregor se tornar um verdadeiro símbolo nacional.