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Copa do Mundo

Copa de 2026 foi mesmo a melhor da história dos Estados Unidos? Os números contestam o otimismo

Os Estados Unidos começaram a Copa do Mundo criando uma sensação de que finalmente poderiam dar um salto no futebol internacional. O desempenho inicial, os estádios lotados e uma seleção disposta a atacar alimentaram uma expectativa que cresceu rapidamente.

A eliminação por 4 a 1 para a Bélgica nas oitavas de final colocou essa impressão em discussão.

Mesmo depois da queda, surgiu o argumento de que esta teria sido a melhor campanha da história da seleção americana em uma Copa. Uma análise mais profunda dos resultados, do nível dos adversários e do histórico dos Estados Unidos em grandes competições mostra que essa afirmação é difícil de sustentar.

Ser anfitrião torna a eliminação nas oitavas ainda mais decepcionante

Foto: Getty Images

A Copa do Mundo de 2026 foi esperada durante oito anos pelos Estados Unidos. O país recebeu a competição em casa, contou com estádios lotados e teve condições favoráveis para tentar alcançar um resultado histórico.

Os anfitriões de uma Copa possuem uma vantagem importante desde o sorteio.

Por estarem no Pote 1, evitam as seleções mais fortes do ranking na fase de grupos. Isso normalmente aumenta as possibilidades de classificação e pode abrir um caminho mais favorável para o início do mata mata.

A história mostra como essa vantagem costuma ser importante.

Antes de 2026, apenas Catar, em 2022, e África do Sul, em 2010, haviam sediado uma Copa e não conseguido ficar entre as últimas 16 seleções da competição. Japão, em 2002, e os próprios Estados Unidos, em 1994, foram eliminados nas oitavas.

Todos os outros 18 anfitriões da história conseguiram chegar pelo menos às quartas de final.

Alguns exemplos tornam o resultado americano ainda mais difícil de considerar histórico. A Coreia do Sul chegou à semifinal em 2002. A Rússia alcançou as quartas em 2018, mesmo sem ser considerada uma potência mundial.

Em 2026, os três países anfitriões pararam nas oitavas de final. Estados Unidos, México e Canadá não chegaram às quartas, e duas dessas seleções foram eliminadas com derrotas por três gols de diferença.

Nesse contexto, uma derrota por 4 a 1 nas oitavas não representa um avanço evidente.

O bom início escondeu o nível dos adversários derrotados

Estados Unidos x Austrália

Os Estados Unidos realmente tiveram momentos positivos na competição.

Nas primeiras partidas, a equipe apareceu entre os destaques em diferentes dados ofensivos. O time apresentou bons números em dribles, passes que quebravam linhas defensivas e recuperação da bola no campo adversário.

A equipe de Mauricio Pochettino pressionava alto, recuperava rapidamente a posse e conseguia construir ataques com fluidez. As atuações chamaram a atenção e receberam elogios de nomes como Thierry Henry e Zlatan Ibrahimovic.

O problema aparece quando os resultados são analisados com maior profundidade.

Os Estados Unidos venceram três seleções que tinham uma posição média de 44º lugar no ranking mundial. Esses adversários disputaram, somados, 13 partidas na Copa e conseguiram apenas três vitórias.

Os dados de desempenho também ajudam a entender o nível da oposição.

Essas equipes produziram juntas apenas 6,62 gols esperados, enquanto permitiram 16,11 gols esperados aos seus adversários. A diferença mostra que os Estados Unidos conseguiram suas vitórias contra seleções que, de maneira geral, tiveram dificuldades para criar e também para defender durante a competição.

A seleção americana ainda se beneficiou de inícios de jogos muito favoráveis.

Em três partidas, houve gols nos primeiros 11 minutos. Dois deles foram marcados pelos próprios adversários contra suas redes.

Isso não apaga as boas atuações. A questão é que um grande torneio não pode ser analisado apenas pelo impacto visual de algumas partidas ou pela empolgação criada no início da campanha.

Quando o nível dos adversários aumentaram, os problemas apareceram.

A Bélgica transformou as dúvidas defensivas em uma goleada

Estados Unidos é goleado pela Bélgica de De Ketelaere,
Foto: Alex Grimm/Getty Images

A defesa americana já era vista como uma possível fragilidade antes de enfrentar um adversário mais forte.

Contra a Bélgica, a preocupação se confirmou.

Os problemas apareceram desde os primeiros minutos. Os belgas encontraram espaços com facilidade, levaram a bola para posições perigosas dentro da área e expuseram a dificuldade dos Estados Unidos para defender jogadores de maior qualidade.

A derrota por 4 a 1 se tornou inevitavelmente o resultado mais marcante da campanha.

A Bélgica também não chegava ao confronto em seu melhor momento. A equipe havia decepcionado em partes da competição e ainda buscava uma atuação convincente. Encontrou justamente contra os Estados Unidos a oportunidade para mostrar sua melhor versão.

O resultado também reforçou um problema antigo.

Em 2022, a seleção americana já havia demonstrado dificuldades defensivas quando enfrentou um adversário europeu mais qualificado. Quatro anos depois, mesmo com Pochettino tentando criar um sistema mais flexível, o problema voltou a aparecer.

A diferença foi o tamanho da derrota.

Para uma campanha ser considerada a melhor da história, não basta vencer adversários acessíveis e causar boa impressão. Também é necessário competir quando o nível aumenta.

Foi exatamente nesse momento que os Estados Unidos desmoronaram.

A discussão ainda ganhou um elemento negativo com o caso Folarin Balogun. A suspensão do atacante após seu cartão vermelho foi retirada antes da partida, em uma decisão que provocou críticas internacionais e questionamentos sobre um possível tratamento especial ao país anfitrião.

No fim, a presença do atacante não mudou o resultado.

A Bélgica venceu por três gols de diferença e encerrou a campanha americana de maneira difícil de conciliar com o discurso de melhor participação da história.

A campanha de 2002 continua muito acima de 2026

estados unidos 2002
Foto: Getty Images

Se existe uma edição que pode ser considerada a melhor Copa dos Estados Unidos, os dados apontam para 2002.

Naquele torneio, a seleção americana avançou em um grupo muito mais exigente.

Os Estados Unidos empataram com a Coreia do Sul, que terminaria a Copa como semifinalista, e derrotaram Portugal, então quinta colocada no ranking mundial.

Depois, fizeram algo que não conseguiram repetir em 2026.

Venceram uma partida de mata mata e chegaram às quartas de final.

Nas oitavas, derrotaram o México por 2 a 0. Na fase seguinte, enfrentaram a Alemanha e foram eliminados com uma derrota por apenas 1 a 0.

Os alemães chegaram posteriormente à final.

Mesmo contra uma potência mundial, os Estados Unidos tiveram 60% da posse de bola. A Alemanha marcou em sua única finalização no alvo, enquanto os americanos conseguiram competir durante toda a partida.

A diferença para 2026 é enorme.

Uma campanha terminou nas quartas, com uma atuação competitiva contra uma futura finalista. A outra terminou nas oitavas, com uma derrota por 4 a 1.

Existe também a campanha de 1930, quando os Estados Unidos chegaram à semifinal. O contexto, no entanto, era completamente diferente. A primeira Copa tinha apenas 13 seleções, muitas das principais equipes europeias não participaram e os americanos avançaram diretamente de um grupo com três participantes. Na semifinal, perderam por 6 a 1 para a Argentina.

Por isso, 2002 continua sendo a referência mais forte.

A discussão sobre 2026 também precisa considerar um problema maior. Desde aquela derrota competitiva para a Alemanha, os Estados Unidos disputaram 32 partidas entre Copa do Mundo e Copa América.

O retrospecto é de 10 vitórias, seis empates e 16 derrotas.

As vitórias aconteceram contra Bósnia e Herzegovina, Austrália, Paraguai duas vezes, Irã, Gana, Argélia, Bolívia, Equador e Costa Rica.

Em 24 anos, a seleção ainda não construiu uma sequência consistente de resultados contra as principais forças do futebol mundial em grandes torneios.

Os Estados Unidos produzem mais jogadores para as principais ligas europeias e possuem atletas com minutos na UEFA Champions League. Isso representa uma evolução individual, mas ainda não se transformou em um salto da seleção.

A Copa de 2026 teve momentos de bom futebol, empolgação nas arquibancadas e uma conexão importante com o público americano. Tudo isso pode deixar um legado positivo.

Chamar a campanha de melhor da história, no entanto, exige ignorar o nível dos adversários derrotados, a vantagem de jogar em casa, a eliminação nas oitavas e o placar de 4 a 1 para a Bélgica.

O entusiasmo pode ajudar o futebol a crescer nos Estados Unidos. Para que a seleção realmente avance, a avaliação do próprio desempenho também precisa ser mais exigente.

(Foto de capa: GOAL)

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Kaique