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Copa do Mundo

De país sem tradição a exemplo de crescimento: como a Copa de 1994 transformou o futebol nos Estados Unidos

Quando a FIFA anunciou que os Estados Unidos sediariam a Copa do Mundo de 1994, a decisão foi recebida com enorme desconfiança. Para muitos, parecia uma escolha improvável levar o principal torneio do futebol mundial para um país onde o esporte mal aparecia entre as preferências da população.

Naquele momento, os Estados Unidos não disputavam uma Copa do Mundo desde 1950. Além disso, o futebol ocupava apenas a 67ª posição entre os esportes favoritos dos americanos, ficando atrás até mesmo de modalidades pouco conhecidas internacionalmente, como as competições de puxada de tratores. Pesquisas da época mostravam que 71% dos americanos sequer sabiam que o Mundial seria realizado no país, enquanto 29% afirmavam não ter qualquer interesse pelo evento.

Mesmo diante desse cenário, a FIFA enxergou algo que poucos conseguiam visualizar. A entidade percebeu que estava diante do maior mercado consumidor de esportes do planeta e acreditou que a realização da Copa poderia servir como catalisador para transformar o futebol em um produto relevante dentro do país.

Mais de três décadas depois, os números mostram que a aposta foi um dos maiores acertos da história da FIFA.

O Mundial de 1994 mudou o rumo do futebol americano

Romario
Brazil’s Romario celebrates with the Brazilian flag after scoring the winning goal against the USA (Photo by Peter Robinson/EMPICS via Getty Images)

A Copa do Mundo de 1994 continua sendo até hoje a edição mais bem-sucedida financeiramente da história da competição.

O torneio recebeu um público total de 3.587.538 espectadores, registrando uma média impressionante de 68.991 torcedores por partida. Nenhuma outra Copa conseguiu superar esses números de público agregado.

Mas o legado foi muito além das arquibancadas lotadas.

Uma das exigências impostas pela FIFA para conceder a organização do torneio aos Estados Unidos era a criação de uma liga profissional nacional. O país estava sem uma primeira divisão desde o fim da North American Soccer League (NASL), em 1984, e a entidade entendia que um Mundial só faria sentido se deixasse uma estrutura permanente para o desenvolvimento do esporte.

A resposta veio dois anos depois.

Em 1996 nasceu a Major League Soccer, a MLS.

Inicialmente, a competição começou de forma modesta. Eram apenas dez equipes disputando partidas em estádios adaptados, muitos deles construídos originalmente para o futebol americano.

Poucos imaginavam que aquela liga se transformaria em uma das maiores histórias de crescimento esportivo do século XXI.

A MLS se tornou o principal legado da Copa

Lionel Messi, Inter Miami. Foto: Angela Weiss/AFP/Getty Images
Foto: Angela Weiss/AFP/Getty Images

Trinta anos depois de sua criação, a MLS apresenta números que ajudam a explicar a evolução do futebol nos Estados Unidos.

Hoje, 27 dos 30 clubes da liga atuam em estádios construídos ou reformados especificamente para o futebol. Ao longo desse período, foram investidos aproximadamente 11 bilhões de dólares em arenas, centros de treinamento, categorias de base e projetos comunitários ligados ao esporte.

O crescimento não aconteceu apenas na infraestrutura.

Desde 2018, a liga registrou um aumento de 33% no público dos jogos. Além disso, foram construídos nove novos estádios de futebol e outros seguem em desenvolvimento em cidades importantes como Nova York e Chicago.

A MLS também se consolidou como uma importante plataforma de formação de jogadores.

Mais de 650 atletas oriundos das categorias de base chegaram ao futebol profissional através dos clubes da liga. Muitos desses jogadores foram beneficiados por um modelo que passou a custear treinamento, viagens, participação em torneios e acompanhamento técnico, permitindo que jovens talentos fossem selecionados por mérito esportivo, e não pela condição financeira das famílias.

Nomes como Weston McKennie e Alphonso Davies são exemplos dessa transformação. Embora Davies represente o Canadá, seu desenvolvimento também passou pela estrutura criada dentro da MLS.

A criação da MLS Next Pro fortaleceu ainda mais esse processo, funcionando como uma ponte entre as categorias de base e o futebol profissional.

A Copa de 2026 será a vitrine de todo esse crescimento

Se a Copa de 1994 marcou o início da transformação, a Copa de 2026 servirá como a grande demonstração dos resultados alcançados.

Os Estados Unidos serão novamente anfitriões do torneio, desta vez ao lado de México e Canadá.

A participação da MLS na organização será enorme. Cinco estádios da liga receberão partidas da Copa do Mundo, enquanto 14 clubes servirão como centros oficiais de treinamento para seleções nacionais.

Além disso, mais de 20 instalações pertencentes a clubes da MLS serão utilizadas para amistosos, períodos de preparação, festividades de torcedores e atividades relacionadas ao torneio.

O contraste com o cenário de 1994 é impressionante.

Naquela época, a maioria dos americanos sequer sabia que a Copa aconteceria em seu país. Hoje, o futebol está presente em campanhas publicitárias, grandes redes de varejo, restaurantes e meios de comunicação por todo o território nacional.

Segundo dados citados pela própria MLS, a liga já possui 18 clubes entre os 50 mais valiosos do futebol mundial e registra o segundo maior público agregado entre todas as ligas do planeta, ficando atrás apenas da Premier League inglesa.

Isso não significa que o futebol já tenha ultrapassado esportes como NFL, NBA ou MLB em popularidade nos Estados Unidos. Porém, o esporte conquistou algo que parecia impossível há três décadas: relevância.

A Copa de 1994 não apenas levou o futebol para os Estados Unidos. Ela criou as bases para que o país desenvolvesse uma liga forte, uma infraestrutura moderna e uma geração inteira de jogadores formados dentro de um ambiente profissional.

Quando a bola rolar para a Copa do Mundo de 2026, os Estados Unidos não serão mais apenas um anfitrião improvável escolhido pela FIFA. Serão a prova de que aquela aposta feita há mais de 30 anos realmente funcionou.

(Foto de capa: Getty Images)

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Kaique