A Copa do Mundo de 2026 está mudando muito mais do que o desempenho da seleção mexicana dentro de campo. Em um país que chegou ao torneio cercado por desconfiança, protestos e um ambiente político conturbado, o futebol acabou se transformando em um raro ponto de união. E, no centro dessa onda de otimismo, uma frase simples passou a representar o sentimento de milhões de torcedores: “¿Y si sí?”, ou, em português, “E se der certo?”.
O lema tomou conta das ruas, das arquibancadas, das redes sociais e até dos jogadores da seleção. O que começou como uma resposta espontânea de um treinador virou praticamente um movimento nacional, embalando o México durante sua melhor campanha em uma Copa do Mundo em décadas.
Uma frase simples que conquistou um país
Na quarta-feira, um dia após a vitória por 2 a 0 sobre o Equador, César Aquino resolveu fazer algo que nunca havia feito antes: visitar o Fan Festival instalado no Zócalo, principal praça da Cidade do México.
Ao lado da esposa, Angélica Arias, ele chamou atenção por um detalhe curioso. Os dois usavam bonés idênticos, ambos estampados com a pergunta que virou febre no país.
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“¿Y si sí?”
A frase pode parecer pequena, mas carrega um significado enorme para os mexicanos neste momento. Ela representa a ideia de acreditar no improvável, de sonhar que a seleção pode superar as expectativas e escrever uma nova página em sua história.
Segundo Aquino, a evolução apresentada pela equipe fez o entusiasmo crescer pouco a pouco entre os torcedores.
O sentimento, segundo ele, foi praticamente contagioso.
Do pessimismo à euforia em poucas semanas
Curiosamente, o cenário era completamente diferente antes do início da Copa do Mundo.
As ruas da Cidade do México estavam tomadas por manifestações de professores, familiares de vítimas de sequestros e protestos relacionados à situação política do país. Ao mesmo tempo, havia um forte ceticismo em relação à seleção nacional.
Não era para menos.
Quatro anos antes, o México havia registrado sua pior campanha em Copas desde 1978, aumentando a desconfiança dos torcedores.
Aquino, que acompanhou os Mundiais da África do Sul em 2010, Brasil em 2014 e Catar em 2022, lembra que o clima era bastante pesado.
Segundo ele, o moral da população estava baixo, mas a proximidade da Copa começou a mudar esse sentimento. E bastou a bola rolar para tudo ganhar outra dimensão.
Vitória após vitória mudou completamente o ambiente
O desempenho do México dentro de campo fez a confiança crescer rapidamente.
A equipe chegou à quarta vitória consecutiva no torneio sem sofrer sequer um gol, algo que alimentou ainda mais a esperança dos torcedores.
A cada jogo, as comemorações nas ruas foram ficando maiores.
Na estreia, cerca de 400 mil pessoas acompanharam a festa próximo ao monumento do Ángel de la Independencia.
Depois vieram aproximadamente 800 mil torcedores.
Na classificação sobre o Equador, o número ultrapassou a marca de 1 milhão de pessoas celebrando nas ruas da capital mexicana.
Víctor Velásquez, repórter da Estrella TV que cobre o Fan Fest na Cidade do México, admite que esperava uma Copa sem grande empolgação popular.
Hoje, porém, ele afirma que não se lembra de outro momento em que os torcedores estivessem tão conectados com El Tri.
O nascimento do “¿Y si sí?”
Embora tenha explodido durante a Copa, o famoso bordão surgiu algumas semanas antes.
Tudo começou em uma entrevista coletiva de Efraín Juárez, então treinador do Pumas.
Questionado sobre a possibilidade de o clube finalmente quebrar um longo jejum de títulos, o técnico respondeu com outra pergunta.
“E se sim? E se o Pumas for campeão?”
A resposta viralizou quase instantaneamente.
Quando a Copa começou, a frase já havia ultrapassado os limites do futebol de clubes e se transformado em um lema nacional.
Hoje, ela ecoa nas arquibancadas do Estádio Azteca e acompanha cada ataque da seleção mexicana.
Até o experiente goleiro Guillermo Ochoa entrou na brincadeira, publicando uma foto usando um chapéu estampado com a expressão.
Artistas, influenciadores e diversas personalidades mexicanas também adotaram o slogan nas redes sociais, fortalecendo ainda mais o movimento.
Muito além do futebol
Para o poeta e criador de conteúdo Jesús Roberto Ramírez, a força da frase vai muito além do esporte.
Segundo ele, praticamente todo mexicano possui um “¿Y si sí?” em algum momento da vida.
Ramírez acredita que o próprio sistema educacional do país muitas vezes ensina as pessoas a acreditarem que determinados objetivos são inalcançáveis apenas por serem mexicanas.
Por isso, o lema acabou ganhando um significado ainda mais profundo.
Na visão dele, trata-se de uma mensagem de esperança diante das dificuldades enfrentadas diariamente pela população.
Um vídeo publicado por Ramírez agradecendo à seleção por devolver alegria ao país repercutiu tanto que chegou a ser compartilhado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Uma pausa em meio à polarização
A jornalista Adriana Valasis, que já cobriu diversas Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, acredita que a campanha da seleção conseguiu reduzir, ainda que temporariamente, algumas divisões presentes na sociedade mexicana.
Os problemas políticos continuam existindo. As desigualdades permanecem. Mas, segundo ela, o futebol ofereceu um raro momento de respiro coletivo.
Ramírez compartilha da mesma visão.
Para ele, o país vive uma polarização tão intensa que qualquer conversa rapidamente acaba migrando para política.
Durante a Copa, porém, isso mudou.
Segundo o escritor, voltou a ser possível conversar com vizinhos apenas sobre futebol, sem que diferenças ideológicas tomassem conta da discussão.
Inglaterra é o próximo desafio
Agora, toda essa energia será colocada à prova em mais um jogo decisivo.
O México enfrenta a Inglaterra pelas oitavas de final da Copa do Mundo, em duelo que pode igualar as campanhas históricas de 1970 e 1986, quando também alcançou as quartas de final atuando como país-sede.
A expectativa é de uma das maiores celebrações já vistas no país caso a classificação aconteça.
Ao mesmo tempo, as autoridades trabalham para evitar novos problemas.
Após a última vitória mexicana, quatro pessoas morreram durante as comemorações próximas ao Ángel de la Independencia, levando o governo a limitar o público na região e criar dezenas de pontos alternativos para acompanhar a partida em telões espalhados pela Cidade do México.
Mesmo com as restrições, ninguém acredita que a paixão dos mexicanos diminuirá.
Pelo contrário.
Uma nova tradição já começou a surgir durante o torneio: após cada vitória, torcedores se reúnem para lançar uma pessoa para o alto, repetindo a comemoração feita pelos próprios jogadores com Guillermo Ochoa depois de uma das partidas.
Para Ramírez, a Copa não resolverá os problemas históricos do México. Mas ela pode deixar algo igualmente valioso.
Que a união criada pelo futebol permaneça, nem que seja um pouco, quando o último apito da Copa do Mundo soar. Afinal, como resume o próprio poeta, “que bonito é ver um México feliz”.
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