O futebol sempre teve sua trilha sonora, e a Copa do Mundo de Clubes não é diferente. Das vuvuzelas de 2010 ao samba de 2014, das marchas tradicionais aos batidões eletrônicos das arquibancadas modernas. Mas em 2025, uma canção dos anos 90 ressurge como símbolo global de torcida, paixão e celebração. A música “Freed From Desire”, da italiana Gala, vem fazendo sucesso na Copa do Mundo de Clubes, coroando uma jornada de quase 30 anos entre as pistas de dança e os estádios mais vibrantes do planeta.
Mais do que uma escolha nostálgica ou estilizada, a música representa uma conexão direta com o coração das arquibancadas. O refrão chiclete e o ritmo pulsante se encaixaram perfeitamente na cultura das torcidas, que ao longo dos anos transformaram a canção em um verdadeiro canto popular, adaptando sua letra para homenagear ídolos, provocar rivais e marcar gols com a mesma intensidade com que dançam ao som da batida original.
Do hit dos anos 90 às arquibancadas da Europa
Lançada em 1996, “Freed From Desire” rapidamente se tornou um hit nas rádios e casas noturnas da Europa. Com batida eletrônica simples, melodia grudenta e um refrão hipnótico (“Freed from desire, mind and senses purified”), a faixa conquistou as paradas do Reino Unido, França e Itália, tornando Gala uma estrela do eurodance da década. No entanto, foi apenas duas décadas depois que a música encontrou um novo público — e um novo palco: o futebol.
O ponto de virada veio em 2016, quando torcedores da Irlanda do Norte criaram uma versão da música para homenagear seu atacante Will Grigg. O canto “Will Grigg’s on fire, your defense is terrified” (Will Grigg está pegando fogo, sua defesa está apavorada) viralizou nas redes sociais e tomou os estádios britânicos. Grigg, que mal entrou em campo pela Irlanda do Norte na Eurocopa daquele ano, se tornou um ícone cult, graças à música — e à criatividade da torcida.
Da Euro para o mundo: Vardy, Mbappé e o grito coletivo
O fenômeno se espalhou rapidamente. Torcedores perceberam que a melodia era perfeita para criar novos cânticos personalizados, fáceis de cantar e com grande impacto coletivo. Em 2018, durante a Copa do Mundo da Rússia, a torcida inglesa adaptou a música para Jamie Vardy, outro atacante adorado por sua entrega em campo. Mais uma vez, o refrão “on fire” se destacou: “Vardy’s on fire”.
O que começou como brincadeira viral se tornou tradição. Clubes e seleções pelo mundo inteiro passaram a adotar versões próprias, homenageando jogadores ou até mesmo expressando sentimentos da arquibancada. O Paris Saint-Germain, o Napoli, o Celtic, o Borussia Dortmund — todos já ecoaram variações da música em seus estádios. Em 2022, torcedores franceses chegaram a cantar “Mbappé’s on fire” durante a campanha da França na Copa do Mundo do Catar.
A força da música ultrapassou a lógica dos charts e playlists. Ela virou linguagem universal. Onde há paixão, há “Freed From Desire”.
O hino não oficial que virou oficial na Copa do Mundo de Clubes
O reconhecimento da FIFA veio como consequência natural dessa popularização. Para a Copa do Mundo de Clubes de 2025, a entidade oficializou a música como tema do torneio, adotando a faixa em vídeos promocionais, transmissões e nas cerimônias de entrada das equipes em campo.
A escolha dialoga com o espírito da competição: um evento global, com clubes de todos os continentes, unidos pela diversidade cultural e pela paixão comum pelo futebol. E poucas músicas nos últimos tempos conseguiram unir tantos povos quanto “Freed From Desire”.
A própria Gala, que hoje vive entre Nova York e Milão, já comentou o renascimento da música com surpresa e orgulho. Em entrevistas recentes, ela declarou que se emociona ao ver torcedores cantando sua música nos estádios e reconhece o poder que o futebol tem de ressignificar a arte, e a Copa do Mundo de Clubes é, novamente, a prova disso.
Mais que música: identidade emocional das torcidas
O sucesso de “Freed From Desire” vai além da batida envolvente. Ela oferece um espaço para a torcida se apropriar, brincar, provocar, celebrar. O futebol moderno, cada vez mais comercial e globalizado, ainda encontra em gestos como esse um sopro de espontaneidade popular. O canto coletivo dá sentido à letra, que deixa de ser apenas sobre crenças pessoais para virar sobre amor ao time, fé no jogador, crença no impossível.
Com a oficialização como hino da Copa do Mundo de Clubes, a música agora ocupa um lugar permanente na galeria sonora do futebol. E se depender dos torcedores, continuará ecoando por muitos anos. Porque quando o coração fala mais alto que o talento, quando a voz da arquibancada se sobrepõe ao silêncio da razão, o futebol, como a música, se transforma em algo maior.
E nessas horas, sim: “Desire” vira chama. E o mundo inteiro canta junto.
(Foto: YouTube)