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Futebol Copa do Mundo

Copa do Mundo: Entenda por que tantos jogadores escolhem defender outras seleções

A Copa do Mundo de 2026 está mostrando uma mudança cada vez mais evidente no futebol internacional. Representar uma seleção nacional já não significa, necessariamente, defender o país onde o jogador nasceu. Pela primeira vez na história do torneio, quase um quarto dos atletas convocados atua por seleções diferentes de seus países de origem, refletindo um cenário cada vez mais conectado por migração, laços familiares e oportunidades esportivas.

Um dos exemplos mais simbólicos aconteceu ainda na fase inicial do Mundial. No empate por 1 a 1 entre Marrocos e Brasil, disputado em 13 de junho, a seleção marroquina viveu um momento histórico: durante 25 minutos da partida, nenhum jogador em campo havia nascido em território marroquino. O episódio chamou atenção para uma tendência que cresce há anos e que agora alcançou números inéditos.

Outro caso que ganhou repercussão aconteceu com Ibrahim Mbaye. Nascido na França, o atacante escolheu defender Senegal e marcou justamente contra seu país de nascimento na derrota por 3 a 1 para os franceses. Situações como essa já haviam aparecido em edições anteriores, como em 2022, quando Breel Embolo, nascido em Camarões, marcou pela Suíça contra os camaroneses e optou por não comemorar o gol em respeito às suas origens.

Copa de 2026 registra número recorde de atletas atuando por outras seleções

Entre as 48 seleções participantes do torneio, apenas oito chegaram à Copa sem nenhum jogador nascido no exterior. Os exemplos mostram como o fenômeno aparece em diferentes regiões do mundo.

Estreante em Copas, Curaçao levou apenas um atleta nascido na própria ilha em uma lista de 26 convocados. Como o território faz parte do Reino dos Países Baixos, grande parte do elenco nasceu na Holanda. O Catar também chamou atenção ao reunir jogadores com origens espalhadas entre África, Europa e América do Sul.

Existem ainda casos individuais bastante conhecidos. Michael Olise nasceu e cresceu em Londres, mas escolheu defender a França, país de origem de sua mãe. Já Antonee Robinson, um dos representantes dos Estados Unidos, nasceu na Inglaterra e garantiu elegibilidade pela ligação familiar com o pai.

As escolhas nem sempre passam despercebidas dentro das famílias. A Copa de 2026 reúne quatro grupos de irmãos atuando por seleções diferentes. Entre os exemplos estão Nico e Iñaki Williams, defendendo Espanha e Gana, além de Désiré e Guéla Doué, representando França e Costa do Marfim. Antes desta edição, isso só havia acontecido com Jérôme Boateng e Kevin-Prince Boateng nas Copas de 2010 e 2014.

Olise frança Copa
Foto: FIFA

Mudanças nas regras ajudaram a transformar o cenário do futebol internacional

Especialistas apontam que o fenômeno acompanha mudanças sociais mais amplas. Segundo estudos sobre migração e identidade, o número de pessoas vivendo fora de seus países de nascimento cresce em todo o mundo, especialmente entre trabalhadores altamente qualificados e atletas profissionais.

Os dados mostram que essa transformação demorou para aparecer com força dentro da Copa do Mundo. Durante décadas, o percentual de jogadores estrangeiros nas seleções ficou variando entre 2% e 14%. O salto começou recentemente: chegou a 16,5% em 2022 e ultrapassou 23% na edição de 2026, com 289 atletas nascidos fora do país que representam.

Curiosamente, durante boa parte da história da competição quase não existiam regras rígidas sobre nacionalidade. Quando a Fifa foi criada, em 1904, jogadores podiam defender praticamente qualquer país. O caso mais emblemático continua sendo o do argentino Luis Monti, vice-campeão com a Argentina em 1930 e campeão pela Itália em 1934 — até hoje o único atleta a disputar finais de Copa por duas seleções diferentes.

A mudança começou em 1962, quando a Fifa passou a exigir cidadania para defender uma seleção e proibiu trocas ao longo da carreira internacional, com poucas exceções ligadas a mudanças políticas ou territoriais.

Gianni Infantino, FIFA Copa do Mundo
Foto: Reprodução

Novas regras abriram espaço para países explorarem suas diásporas

Uma transformação importante veio em 2004, quando passou a ser permitido atuar por uma seleção nas categorias de base e trocar de país antes da carreira principal. Ao mesmo tempo, a Fifa passou a exigir uma ligação clara com o país escolhido — por nascimento próprio, de pais, avós ou período de residência.

Posteriormente, as regras ficaram mais flexíveis em alguns pontos e mais rígidas em outros. O período mínimo de residência aumentou para cinco anos, mas jogadores que fizeram poucas partidas oficiais antes dos 21 anos passaram a poder solicitar mudança de seleção.

Essas alterações favoreceram especialmente países com grandes comunidades espalhadas pelo mundo, como Marrocos.

Marrocos virou exemplo de como aproveitar jogadores espalhados pelo mundo

Durante os anos 2010, Marrocos iniciou um projeto para fortalecer seu futebol e colocou observadores em países europeus que concentram comunidades marroquinas, especialmente França, Holanda e Bélgica.

O resultado apareceu dentro de campo.

A geração formada por jogadores nascidos fora do país ajudou Marrocos a alcançar o maior feito da história do futebol africano: chegar às semifinais da Copa de 2022.

Na campanha histórica, dois dos três jogadores que converteram cobranças na disputa por pênaltis contra a Espanha nasceram fora do território marroquino: Hakim Ziyech, nascido na Holanda, e Achraf Hakimi, que eliminou justamente o país onde nasceu.

Casos como esse mostram que as escolhas nem sempre acontecem apenas por oportunidade esportiva. Para muitos jogadores, entram fatores emocionais, familiares e até culturais.

Decisões geram debate, mas refletem um futebol cada vez mais global

Nem todo mundo vê essa mudança com bons olhos. Ao longo dos anos, dirigentes e torcedores questionaram o aumento de naturalizações e mudanças de seleção.

Exemplos não faltam. Diego Costa, nascido no Brasil e defensor da Espanha, recebeu fortes críticas durante a Copa de 2014 disputada em território brasileiro. Houve também preocupações antigas sobre países acelerando processos de nacionalidade para fortalecer seleções.

Ainda assim, pesquisadores apontam que o futebol apenas acompanha transformações que já acontecem na sociedade.

Para alguns torcedores, uma seleção deveria representar exclusivamente quem nasceu dentro das fronteiras nacionais. Para outros, o importante é reconhecer que identidade pode ser construída de diferentes formas.

Dentro desse cenário, a Copa do Mundo de 2026 parece deixar uma mensagem clara: as seleções continuam nacionais, mas o futebol nunca foi tão global.

Foto: Getty