A seleção de Senegal chegou à Copa do Mundo de 2026 carregando grandes expectativas. Considerada uma das principais forças do futebol africano na atualidade, a equipe desembarcou nos Estados Unidos sonhando em repetir ou até superar a histórica campanha de 2002, quando alcançou as quartas de final em sua primeira participação no torneio. No entanto, após duas rodadas, o cenário é completamente diferente daquele imaginado pelos torcedores.
Sem pontuar após derrotas para França e Noruega, os senegaleses entram na última rodada da fase de grupos precisando vencer o Iraque para continuar sonhando com uma vaga no mata-mata. Mas os problemas da equipe vão muito além dos resultados dentro de campo. Nas últimas semanas, questões envolvendo bônus atrasados, problemas administrativos, disputas contratuais, reclamações sobre a alimentação da delegação e até protestos de torcedores passaram a dominar as manchetes relacionadas à seleção africana.
Embora jogadores e comissão técnica insistam que o foco permanece exclusivamente no futebol, a sucessão de episódios evidencia um ambiente de instabilidade que certamente não ajuda uma equipe que já enfrenta enorme pressão esportiva.
Bônus atrasados, alimentação e problemas de organização
Uma das primeiras polêmicas surgiu em torno dos pagamentos prometidos aos atletas e membros da comissão técnica. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, diversos bônus previstos para a participação na Copa do Mundo não haviam sido pagos antes do início da competição.
A situação gerou desconforto nos bastidores e só foi resolvida dias depois, quando o governo senegalês efetuou os pagamentos pendentes. Embora o técnico Pape Thiaw tenha minimizado a situação ao afirmar que existiam apenas algumas “falhas” que precisavam ser corrigidas, o episódio aumentou a sensação de desorganização ao redor da seleção.
Outro tema que ganhou repercussão foi a alimentação da delegação. Inicialmente surgiram rumores de que os jogadores estariam insatisfeitos com a comida servida durante a concentração em Nova Jersey. No entanto, posteriormente ficou esclarecido que as reclamações não partiram dos atletas nem da comissão técnica.
A equipe viajou acompanhada por seu chef habitual, responsável pelo planejamento nutricional em torneios anteriores. Porém, ele precisou deixar a delegação por motivos pessoais durante os amistosos preparatórios, sendo substituído por outro profissional.
Segundo os relatos, os jogadores não demonstraram qualquer insatisfação com o serviço prestado. As reclamações vieram principalmente de integrantes secundários da delegação e de pessoas ligadas à federação, que sentiram falta de pratos típicos da culinária senegalesa e chegaram a procurar restaurantes fora do hotel.
Apesar de parecer um detalhe pequeno, esse tipo de situação contribui para criar um ambiente de tensão quando uma seleção já enfrenta pressão por resultados.
O impasse contratual envolvendo Pape Thiaw

Talvez a maior fonte de desgaste tenha sido a longa negociação para a renovação do contrato do técnico Pape Thiaw.
Ex-jogador da seleção que participou da Copa do Mundo de 2002, Thiaw assumiu o comando da equipe em 2024 recebendo um salário anual de aproximadamente 210 mil libras. Entretanto, sua valorização aumentou significativamente após levar Senegal à final da Copa Africana de Nações de 2025.
Com o término de seu vínculo após a competição continental, o treinador passou a negociar uma renovação em condições mais favoráveis. O problema é que, em Senegal, os contratos dos treinadores precisam não apenas ser negociados com a federação, mas também aprovados pelos órgãos governamentais responsáveis pelo esporte e pelas finanças.
O processo foi afetado pela instabilidade política vivida pelo país, incluindo mudanças no governo e alterações ministeriais. Como consequência, Thiaw embarcou para a Copa do Mundo sem ter assinado seu novo contrato.
A situação se tornou tão delicada que pessoas próximas ao treinador chegaram a sugerir publicamente que ele poderia se recusar a viajar para os Estados Unidos caso o problema não fosse resolvido.
A crise só começou a ser solucionada após a intervenção direta do presidente Bassirou Diomaye Faye, que entrou em contato com o treinador e garantiu que uma solução seria encontrada. Posteriormente, a nova ministra dos Esportes viajou até os Estados Unidos para conversar pessoalmente com a delegação.
O acordo final garantiu a Thiaw um contrato de 480 mil libras anuais, além de um bônus de 80 mil libras por temporada.
Protestos de torcedores aumentam pressão
Como se os problemas internos não fossem suficientes, a seleção também precisou lidar com manifestações de torcedores durante o torneio.
Tradicionalmente, o governo senegalês ajuda grupos organizados a acompanhar grandes competições internacionais, custeando despesas de viagem, hospedagem e ingressos. Porém, restrições aplicadas nesta Copa impediram que muitos torcedores viajassem.
A expectativa era que a comunidade senegalesa residente nos Estados Unidos e no Canadá pudesse ocupar esse espaço. No entanto, apenas 400 ingressos foram disponibilizados para esse público, número considerado insuficiente.
Além da quantidade reduzida, surgiram reclamações sobre a falta de transparência no processo de distribuição dos bilhetes. O resultado foi um protesto realizado em frente ao hotel da seleção, aumentando ainda mais a repercussão negativa ao redor da equipe.
A missão de separar os problemas do futebol
Apesar do cenário turbulento, jogadores e comissão técnica continuam afirmando que os problemas administrativos não afetarão o desempenho da equipe.
O goleiro Mory Diaw destacou que todas as questões estão sendo tratadas internamente e reforçou o compromisso do elenco com a representação do país. O próprio Pape Thiaw afirmou que o patriotismo dos jogadores está acima de qualquer disputa burocrática.
Ainda assim, o contexto preocupa. Senegal chega à rodada decisiva pressionado pelos resultados, cercado por problemas extracampo e obrigado a vencer para seguir vivo na Copa do Mundo.
A história do futebol mostra que crises administrativas nem sempre determinam fracassos esportivos. Porém, também demonstra que quanto mais ruído existe fora das quatro linhas, mais difícil se torna manter o foco dentro delas.
Para Senegal, o desafio contra o Iraque vale muito mais do que três pontos. Será também uma oportunidade de provar que a equipe consegue superar o caos dos bastidores e transformar a pressão em combustível para continuar sonhando com uma campanha histórica na Copa do Mundo de 2026.
(Foto de capa: Getty Images)