Pep Guardiola Manchester City
Futebol Copa do Mundo de Clubes

Crise no Manchester City: o “annus horribilis” de Guardiola e os limites de um ciclo vitorioso

A surpreendente eliminação do Manchester City nas oitavas de final da Copa do Mundo de Clubes diante do Al Hilal, por 4 a 3, não foi apenas um tropeço pontual — foi o fechamento simbólico da temporada mais difícil de Pep Guardiola como treinador. E, embora ele mesmo tenha tentado adotar um tom otimista após a queda, o saldo do ano é duro, quase constrangedor, para um clube moldado sob sua imagem.

Desde sua chegada ao City em 2016, Guardiola transformou o City em uma máquina de vencer. Foram seis títulos da Premier League em sete temporadas, recordes quebrados, uma Champions League e domínio absoluto no futebol inglês. Mas 2024/25 interrompeu essa hegemonia com um baque sonoro. O único troféu levantado foi a Supercopa da Inglaterra, conquistada nos pênaltis contra o Manchester United. Para um clube que mira sempre o topo da Europa, é um prêmio menor.

O City terminou a Premier League apenas na terceira colocação, falhou na final da Copa da Inglaterra, foi eliminado cedo na Champions (ainda nos playoffs) e caiu na Copa da Liga também nas oitavas. O golpe final, no Mundial de Clubes, contra um adversário de fora do eixo Europa-América do Sul, sacramentou o tombo.

É preciso voltar à temporada 2016/17, a primeira de Guardiola no City, para encontrar um ano tão pouco produtivo. Naquele momento, o técnico ainda estava adaptando o elenco ao seu modelo de jogo. Hoje, quase uma década depois, é difícil justificar a queda com o mesmo argumento.

Os sinais de fim de ciclo

Em declarações recentes, o próprio Guardiola reconheceu a exaustão do modelo. “Um pouco sim, as coisas não duram para sempre”, disse, ao ser questionado se sentia que o ciclo estava acabando. E foi além: “Se isso fosse no Barça ou no Real Madrid, eu já teria sido demitido”.

A estrutura do projeto Guardiola já começa a mudar. A saída de figuras históricas do staff técnico, como Juanma Lillo e Carlos Vicens, e a chegada de nomes mais jovens, como Pep Lijnders (ex-assistente de Klopp), refletem uma tentativa de “oxigenar” o ambiente. Até mesmo a direção esportiva foi trocada: Txiki Begiristain saiu, dando lugar a Hugo Viana. Mudanças que denunciam a percepção interna de que algo precisava ser refeito.

City tem um elenco caro, mas vulnerável

O elenco do Manchester City, montado a peso de ouro (com investimento de 346 milhões de euros só em janeiro), trouxe nomes como Cherki, Reijnders, Aït-Nouri e Vitor Reis. Ainda assim, o desempenho coletivo decepcionou. A fragilidade defensiva voltou a assombrar, como se viu contra o Al Hilal, e o time, apesar de bom com a bola, sofreu sem ela.

Bernardo Silva foi direto ao analisar a derrota: “Não devíamos tê-los deixado correr, e eles correram muito”. A análise revela um dos problemas mais crônicos do City nesta temporada: o time perdeu a capacidade de controlar jogos como antes, algo que sempre foi marca registrada do modelo Guardiola.

Além disso, há um fator psicológico evidente. O time, outrora dominante, parecia jogar com menos intensidade, menos fome. Guardiola, por mais brilhante que seja, também parece esgotado, e isso se reflete em campo.

O que vem a seguir?

Apesar do desastre esportivo, o discurso oficial no clube é de reconstrução e continuidade. O presidente Khaldoon Al Mubarak classificou o Mundial como “início da nova campanha” e prometeu empenho total na próxima temporada. Guardiola, por sua vez, disse que viu “coisas boas que fazia tempo que não via”, especialmente na relação entre jogadores e comissão técnica.

Mas o que se coloca, agora, é a pergunta inevitável: até onde vai Guardiola no City?

O ciclo pode não ter terminado formalmente, mas a temporada 2024/25 deixou claro que o técnico e seu projeto não são mais intocáveis. O clube, que antes parecia uma engrenagem perfeita, mostrou falhas humanas, táticas e estruturais. Guardiola, pela primeira vez desde que assumiu o comando, viu seu time encerrar um ano como coadjuvante, e isso não passa despercebido em um clube que se acostumou a dominar.

A temporada mais difícil de Guardiola no Manchester City não foi apenas um tropeço esportivo. Foi um alerta. O futebol de elite não tolera estagnação — mesmo que ela venha de um dos maiores técnicos da história. O “annus horribilis” vivido em 2024/25 poderá ser o combustível para uma reconstrução poderosa. Ou o começo do fim de uma era que parecia não ter prazo de validade.

Guardiola não está sozinho: grandes dinastias já acabaram antes. A diferença é que, agora, ele precisa provar que ainda pode reinventar o City — ou aceitar que, mesmo as obras-primas, eventualmente encontram seu ponto final.

(Foto: Getty Images)