Curaçao Copa do Mundo
Futebol Copa do Mundo

Como Curaçao chocou a CONCACAF e chegou pela primeira vez à Copa do Mundo?

Curaçao já se tornou uma das principais história desta próxima Copa do Mundo, que acontecerá em 2026, sem nem deixar a bola rolar no mundial. A pequena ilha caribenha de pouco mais de 150 mil habitantes carimbou seu passaporte para atuar nos Estados Unidos, Canadá e no México, enquanto estreia numa das maiores competições do esporte, dando espaço para considerá-la a zero um até. Simplesmente onde todos desejam chegar, e sonham com a oportunidade de conquistá-la.

Difícil imaginar os curaçauenses sentindo confiança, antes de se depararem com a atual realidade. Nesta última terça-feira (18), contaram com um empate heróico diante da Jamaica, enquanto muitos acreditavam na ida da seleção para a repescagem. Só que é assim que o futebol funciona as vezes, quando existe uma migalha de confiança, é nesses momentos que as mais belas histórias aparecem.

Uma ilha caribenha com alma holandesa

Na intenção de entender como Curaçao virou essa sensação global, é preciso olhar para sua história e sua relação com a Holanda. Vale lembrar que parte do Reino dos Países Baixos é autônoma desde 2010, sendo assim, a o paraíso caribenho sempre manteve laços culturais e esportivos profundos com o país europeu. Isso ficou ainda mais nítido no futebol, pelo fato da base da seleção de Curaçao ser formada por jogadores nascidos e criados em território holandês.

Se tratava de um movimento mais comum, seguir pela seleção holandesa, ao invés de apostar em suas raízes familiares vinculadas a Curaçao, enquanto buscavam espaço num evento mundial. A questão é que, pelo fato da Copa do Mundo estar pronto para ocorrer em 2026 nos países de EUA, Canadá e México, são simplesmente três vagas garantidas na competição por conta de serem os sediadores. O que no caso, abre um espaço para outras equipes que disputariam as Eliminatórias da CONCACAF.

No final das contas, uma enxurrada de jogadores europeus de origem curaçauense decidiram defender Curaçao, elevando instantaneamente o nível do time. Leandro Bacuna, Juninho Bacuna, Jürgen Locadia, Tahith Chong e Sontje Hansen são alguns dos nomes que turbinaram o projeto de Curaçao rumo à Copa.

Dick Advocaat: o “professor” que ninguém esperava

Diante do sonho de pisar na Copa do Mundo pela primeira vez, Curaçao buscava por um nome interessantíssimo, de alto nível para os comandar. E foi aí que uma enorme oportunidade apareceu, simplesmente Dick Advocaat. O técnico lendário, com passagens por Holanda, Rússia, PSV e Feyenoord. Ao lado do fato de trabalhar num lugar absurdamente lindo, ainda tinha chances de chegar ao mundial, então, juntou o útil ao agradável.

Advocaat foi capaz de instalar em Curaçao um modelo europeu de treinamento, com disciplina, estrutura e com bastante objetividade. A sua equipe passou a treinar com intensidade e organização, dando fim ao padrão de improviso que muitas seleções caribenhas ainda carregam. Ele instituiu rotina profissional, papéis bem definidos e uma filosofia baseada na eficiência. Para a seleção curaçauense, foi como se um pequeno clube de segunda divisão contratasse um técnico de Copa do Mundo. A seleção amadureceu, ficou compacta, reduziu riscos e passou a extrair o máximo dos jogadores que chegavam da Holanda.

O caminho de Curaçao até a Copa

Segunda Fase – Dominação tranquila

Curaçao assumiu o controle do Grupo C sem grandes dramas. De cara assim, já foi possível notar a primeira diferença dela para os demais, que se tratavam de Haiti, Santa Lúcia, Aruba e Barbados. A equipe mostrou uma maturidade rara para o padrão caribenho, mantendo o ritmo dos jogos e evitando entrar em duelos caóticos. O domínio do time de Advocaat foi claro e notório, estamos falando de 12 pontos conquistados, contra nove de Haiti e números bem mais modestos dos outros concorrentes. Foi o sinal de que Curaçao não estava ali para ser coadjuvante.

Terceira Fase – A glória

Já na fase final, Curaçao enfrentou adversários pesados como Jamaica e Trinidad e Tobago. Mesmo assim, colocou na mesa consistência e concentração, mantendo firme sua campanha. Os jamaicanos vinham embalados e Trinidad era um rival tradicionalmente forte, mas mesmo contra as odds, foi mais regular e terminou com 12 pontos, deixando os Reggae Boyz um ponto atrás.

O estilo de jogo: Holanda de alma caribenha

O futebol de Curaçao em 2025/26 surpreende quem espera apenas improviso ou lances de habilidade isolada. Além do mais, vale ressaltar que existe bastante qualidade individual, mas não é assim que a banda tem tocado. A seleção mostra disciplina tática, posse de bola bem administrada e linhas defensivas organizadas. Enquanto isso, as transições são rápidas e objetivas, ao mesmo tempo que os pontas, muitos formados em academias de elite na Holanda, estão oferecendo velocidade e técnica. Na presença de uma filosofia direta e eficiente, sem extravagâncias, mas com personalidade. Curaçao tem um futebol caribenho com DNA europeu.

E o futebol dentro da ilha? A realidade é outra

Apesar do sucesso internacional, o cenário interno de Curaçao é bem mais modesto. A Liga MCB, com 12 equipes, funciona em moldes semiprofissionais. Os atletas dividem o tempo entre treinos, empregos e estudos, algo semelhante para quem viu o Auckland, da Austrália na Copa do Mundo de Clubes. Os recursos são limitados e a estrutura está longe do padrão das grandes ligas. A verdade é que o futebol praticado dentro de Curaçao pouco influencia a seleção: apenas dois ou três jogadores locais integram o elenco principal.

O grande motor da seleção de Curaçao é sua diáspora. A maioria dos atletas nasceu nos Países Baixos, cresceu em academias de referência como Ajax, PSV e Feyenoord, e retorna para representar Curaçao em campo, um ponto semelhante com a NBA também, muitos jogadores do mais alto nível do esporte, escolhem seleções de “menor expressão”, seja para seguir as raízes da família, ou para ter a oportunidade de atuar em grandes competições. Estamos falando de uma seleção globalizada, mas profundamente enraizada em sua identidade caribenha.

Por que esse feito de Curaçao é tão único?

O sucesso de Curaçao não veio de uma geração espontânea de estrelas locais. Ele nasceu da combinação de fatores perfeitos: o aumento de vagas para a Copa de 2026, a ausência dos anfitriões nas Eliminatórias, a vontade de jogadores da diáspora, um treinador de alto nível e uma filosofia de jogo disciplinada. Pode-se dizer que a seleção soube usar inteligentemente sua identidade e suas conexões europeias para competir em nível mundial, estava no lugar certo, e na hora certa.

O que esperar de Curaçao na Copa do Mundo de 2026?

Ninguém espera que Curaçao chegue como favorita a qualquer título e nem será também, mas a seleção tem potencial para surpreender. Se pegar um grupo equilibrado, pode beliscar resultados e conquistar o público. A simples presença no Mundial já representa um triunfo histórico e a certeza de que o futebol ainda pode colocar histórias interessantes, e que possam potencializar o consumo de quem gosta.

Em meio a tantas potências tradicionais, Curaçao pode facilmente se tornar a sensação afetiva da Copa. E convenhamos: todo mundo adora um azarão com personalidade.

Foto: RICARDO MAKYN / AFP