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Por que Dana White acredita que Poatan pode superar Jon Jones na corrida pelo status de GOAT do UFC

Durante anos, Dana White tratou Jon Jones como uma figura intocável na história do MMA. Em praticamente toda discussão sobre o maior lutador de todos os tempos, o presidente do UFC fazia questão de colocar o ex-campeão dos meio-pesados e dos pesados no topo da montanha. Por isso, a recente declaração de que Alex “Poatan” Pereira poderia ultrapassar Jones na corrida pelo status de GOAT (“Greatest of All Time”) chamou tanta atenção.

Segundo White, caso Poatan derrote Ciryl Gane e conquiste um cinturão mundial em uma terceira categoria diferente no UFC Freedom 250, evento que será realizado na Casa Branca, o brasileiro passaria Jon Jones na hierarquia histórica da organização.

A afirmação é impactante não apenas pelo peso histórico de Jones, mas também pelo momento em que ela acontece. Afinal, a relação entre o UFC e o ex-campeão atravessou uma sequência de episódios desgastantes nos últimos meses, culminando em sua aposentadoria e no encerramento de uma das novelas mais longas da história recente da organização.

A questão que surge naturalmente é: Dana White realmente acredita que Poatan pode ultrapassar Jon Jones com mais uma conquista histórica ou existe também um componente político e promocional por trás desse discurso?

O legado que colocou Jon Jones no topo

Antes de analisar o momento atual, é preciso entender o tamanho da carreira de Jon Jones. Mesmo cercado por polêmicas dentro e fora do octógono, poucos currículos se aproximam do seu. Jones dominou a divisão dos meio-pesados durante mais de uma década, derrotou gerações diferentes de adversários e posteriormente conquistou também o cinturão dos pesos-pesados. Além disso, acumulou 16 vitórias em disputas de título, recorde absoluto na história do UFC.

Por muito tempo, Dana White ignorou qualquer debate envolvendo Georges St-Pierre, Anderson Silva, Demetrious Johnson ou Khabib Nurmagomedov. Para ele, Jones era o número um de forma incontestável.

O curioso é que esse posicionamento permaneceu mesmo quando a relação entre atleta e organização passou a ficar cada vez mais complicada. O dirigente continuou defendendo o americano durante negociações difíceis, suspensões, problemas disciplinares e até durante o longo impasse envolvendo Tom Aspinall.

Por isso, a simples possibilidade de White reposicionar Alex Pereira acima de Jones representa uma mudança significativa de discurso.

No entanto, é impossível analisar a fala de Dana White sem considerar o contexto dos últimos dois anos. A luta entre Jon Jones e Tom Aspinall tornou-se um dos maiores impasses da história recente do UFC. Enquanto Aspinall acumulava vitórias e aguardava a oportunidade de unificar os cinturões dos pesos-pesados, Jones demonstrava pouco interesse em enfrentar o britânico. O resultado foi uma longa paralisação da categoria, gerando críticas constantes de fãs, analistas e da própria comunidade do MMA.

Dana White chegou a afirmar publicamente diversas vezes que a luta aconteceria. Em determinado momento, declarou inclusive que Jones havia concordado com o combate. Entretanto, o confronto nunca saiu do papel.

A situação se tornou ainda mais delicada quando Jones acabou anunciando sua aposentadoria, encerrando oficialmente qualquer possibilidade de enfrentar Aspinall. A consequência foi a promoção automática do inglês ao posto de campeão linear dos pesos-pesados.

Para o UFC, o episódio representou não apenas a perda de uma superluta milionária, mas também um desgaste de imagem grande. Durante meses, a organização vendeu uma luta que jamais aconteceu.

Pouco depois, a situação se agravou ainda mais quando Jones saiu da aposentadoria e se mostrou disposto a enfrentar Poatan na Casa Branca, mas o UFC ignorou o interesse e decidiu colocar o brasileiro contra Gane. Isso irritou Jones, que se aproximou da MVP MMA, evento de Jake Paul, e até abriu possibilidade de uma superluta contra Francis Ngannou.

Poatan representa tudo o que o UFC deseja

Se Jon Jones se transformou em uma fonte de incertezas para a empresa, Alex Pereira representa exatamente o oposto.

Desde sua chegada ao UFC, o brasileiro construiu uma reputação baseada em atividade constante, disponibilidade para enfrentar qualquer adversário e disposição para aceitar desafios considerados arriscados.

Enquanto Jones realizou poucas lutas nos últimos anos, Poatan acumulou defesas de cinturão, mudanças de categoria e participações frequentes nos principais eventos da organização.

O contraste é evidente. Do ponto de vista empresarial, Poatan tornou-se o modelo ideal de campeão para Dana White. Ele gera audiência, produz nocautes espetaculares, mantém uma agenda ativa e evita conflitos públicos com a organização.

Por isso, existe uma leitura bastante plausível de que a declaração do presidente do UFC também funcione como uma mensagem simbólica sobre os valores que a empresa pretende exaltar daqui para frente.

Isso não significa que a hipótese seja absurda. Caso derrote Ciryl Gane, Poatan se tornará o primeiro atleta da história do UFC a conquistar cinturões em três categorias diferentes. Trata-se de uma realização sem precedentes na organização.

Além disso, seu percurso possui características únicas. Diferentemente de Jones, que construiu toda a carreira dentro do MMA, Pereira chegou ao UFC já consagrado no kickboxing. Em poucos anos, conquistou títulos, mudou de categoria, derrotou campeões estabelecidos e transformou-se em uma das maiores atrações do esporte.

O argumento histórico existe. O problema é que muitos especialistas ainda consideram insuficiente comparar essa trajetória com o domínio prolongado que Jones exerceu ao longo de mais de uma década.

Marketing, política e legado

Provavelmente, a resposta mais equilibrada está no meio do caminho. Dana White não está dizendo isso apenas porque teve problemas recentes com Jon Jones. Afinal, mesmo após a aposentadoria do estadunidense, ele continuou reconhecendo publicamente seu tamanho histórico.

Por outro lado, também seria ingênuo ignorar o contexto. O UFC está promovendo um dos maiores eventos de sua história, realizado em um cenário sem precedentes na Casa Branca. Poatan é uma das principais estrelas do card. Criar uma narrativa que coloque em jogo o próprio conceito de GOAT é uma ferramenta promocional extremamente poderosa.

Além disso, a organização precisa olhar para o futuro. Jon Jones pertence cada vez mais ao passado do esporte. Pereira, ao contrário, é um ativo presente e potencialmente decisivo para os próximos anos.

Talvez a declaração de Dana White seja menos sobre reescrever a história de Jon Jones e mais sobre construir a de Poatan. Se o brasileiro vencer Gane, o debate certamente ganhará força. Mas, até lá, a maioria dos números, dos títulos e da longevidade ainda continuam apontando para Jon Jones como o homem que ocupa o topo da montanha.

O que mudou é que, pela primeira vez em muito tempo, Dana White parece disposto a admitir que alguém pode alcançá-lo.

(Foto: Getty Images)