Dana White está em todos os lugares possíveis da mídia americana nas últimas semanas. O CEO do UFC apareceu na capa da Time Magazine, concedeu entrevistas para a Rolling Stone, participou de podcasts da NPR e da The New Yorker e virou praticamente o rosto oficial da divulgação do UFC da Casa Branca, ou mais conhecido como UFC Freedom 250, evento marcado para o dia 14 de junho na Casa Branca.
Só que existe um detalhe curioso em toda essa movimentação: quanto mais Dana White fala sobre o evento, menos o assunto parece ser MMA.
O UFC Freedom 250 nasceu como um dos projetos mais ambiciosos e polêmicos da história da organização. Uma noite de lutas dentro da Casa Branca, envolvendo Donald Trump, patriotismo americano, presença massiva da mídia e um espetáculo pensado para ultrapassar completamente a bolha tradicional do MMA.
Só que agora, faltando menos de três semanas para o evento, existe uma sensação muito clara de que os lutadores acabaram ficando em segundo plano. Porque o foco principal virou outro. Virou Dana White. Virou Donald Trump. Virou política.
Dana White fala mais sobre Trump do que sobre os lutadores do UFC
Talvez o exemplo mais claro disso tenha acontecido durante a recente entrevista de Dana para a NPR.
O chefão do UFC passou menos de um minuto falando sobre Ilia Topuria e Justin Gaethje, protagonistas do UFC da Casa Branca. E mesmo nesse curto espaço de tempo, os comentários foram extremamente superficiais, basicamente exaltando o poder de nocaute dos dois atletas.
Em compensação, Dana White passou muito mais tempo falando sobre Donald Trump, política americana e até suas próprias experiências pessoais no boxe.
Sim, o próprio Dana virou uma das principais pautas do evento. Já na entrevista para David Remnick, da The New Yorker, o cenário ficou ainda mais político. White dedicou boa parte da conversa defendendo Trump de críticas envolvendo racismo e comportamento público.
Em determinado momento, o jornalista relembrou uma postagem do presidente americano promovendo um vídeo que retratava Barack e Michelle Obama como macacos.
A resposta de Dana White foi insistir que Trump não poderia ser racista porque ele próprio “jamais se associaria a esse tipo de pessoa”.
E a situação ficou ainda mais estranha quando White utilizou a amizade entre Trump e Michael Jackson como argumento de defesa. O problema é que a conversa rapidamente entrou nas acusações de abuso infantil envolvendo o cantor, criando um dos momentos mais desconfortáveis dessa série de entrevistas.
Não exatamente o clima que normalmente cerca a promoção de um grande evento de MMA. E talvez seja justamente isso que torna toda essa situação tão diferente daquilo que o UFC costumava representar.
Dana White abandonou de vez a imagem de neutralidade do UFC
Durante muitos anos, Dana White tentou vender o UFC como um espaço praticamente neutro politicamente.
A lógica era simples: o esporte funcionaria como um refúgio da realidade para fãs de qualquer ideologia, cultura ou posicionamento político. O foco seria apenas luta, rivalidade e entretenimento. Só que isso mudou completamente.
Hoje, Dana White é praticamente um dos principais aliados públicos de Donald Trump dentro do esporte americano. O CEO do UFC já discursou diversas vezes em eventos republicanos, participou ativamente da campanha presidencial e até revelou recentemente que ajudou diretamente na aproximação entre Trump e Joe Rogan.
Segundo o próprio White, ele passou semanas “pressionando” Rogan para convencer o comentarista do UFC a declarar apoio público ao presidente americano.
Ou seja: a relação entre UFC e política deixou de ser apenas indireta há bastante tempo. E isso inevitavelmente transforma o UFC White House em algo muito maior e muito mais controverso do que apenas um card histórico de MMA.
Dana White insiste constantemente que o evento não é político. Segundo ele, trata-se apenas de uma celebração patriótica dos 250 anos dos Estados Unidos. Mas convenhamos… essa explicação gera algumas dúvidas.
Dana White tenta vender patriotismo, mas coincidências levantam questionamentos
O UFC tradicionalmente realiza seus eventos aos sábados. Só que esse evento do UFC acontecerá em um domingo. E justamente em 14 de junho, aniversário de Donald Trump.
Coincidência?
Dana White garante que sim.
Só que fica difícil ignorar o contexto completo. Afinal, se o evento realmente pretende celebrar a independência americana, existe outro detalhe importante: o feriado oficial dos Estados Unidos acontece em 4 de julho, não em junho.
Ou seja, o UFC da Casa Branca será realizado quase três semanas antes da data tradicional da comemoração nacional.
É o tipo de situação que naturalmente gera questionamentos. E quanto mais Dana White tenta afastar o aspecto político do evento, mais suas próprias entrevistas acabam reforçando exatamente essa ligação.
Em determinado momento, por exemplo, Dana afirmou claramente: “Nós apoiamos Donald Trump.” E esse “nós” claramente inclui o UFC.
Isso cria um cenário completamente diferente do que a organização viveu durante boa parte de sua história. Porque agora a instituição não parece mais apenas uma empresa de esportes de combate.
Parece também uma extensão da imagem pública de Trump. Claro, parte do público adora isso. O presidente americano virou praticamente uma celebridade dentro dos eventos da organização, recebendo entradas triunfais e sendo ovacionado em diversas arenas do UFC.
Mas outra parte claramente se sente afastada dessa aproximação. E talvez o mais curioso de tudo seja justamente perceber como os lutadores acabaram ficando quase invisíveis dentro da própria promoção do evento.
Faltando poucos dias para um dos cards mais históricos da história da organização, quase ninguém debate estratégia, rivalidade ou preparação física. O centro da narrativa virou Dana White. E talvez exista um detalhe simbólico perfeito para resumir tudo isso.
Foto: AAron Ontiveroz/The Denver Post/Getty Images/file photo