O Arsenal está a nove jogos de encerrar um jejum que já dura quase 22 anos na Premier League. Desde a temporada 2003-04, quando o time de Arsene Wenger levantou o troféu de forma invicta, se tratando dos lendários “Invincibles”, o torcedor gunner convive com a cobrança, a zoação e o rótulo de “quase”.
Agora, sob o comando de Mikel Arteta, o cenário é diferente, pelo menos tem andado desta forma. O Arsenal lidera, tem cinco pontos de vantagem sobre o Manchester City (que ainda tem um jogo a menos), terminou a fase de liga da UEFA Champions League com 100% de aproveitamento e ainda está vivo na FA Cup e na EFL Cup.
Ou seja: pode ser uma temporada histórica. E mesmo assim… o time está sendo chamado de “sem graça”.
Do “time bonito” ao “time pragmático demais”
Durante anos, o Arsenal foi acusado de ser “estilo acima de substância”. Jogava bonito, mas não ganhava. Era técnico, mas faltava “casca”. Agora que está vencendo com regularidade, a crítica mudou: dizem que é pragmático demais, dependente de bola parada e menos vistoso do que o ideal romântico da Premier League.
A pergunta é simples: o problema é o estilo ou é o fato de estar ganhando?
Se o nome do jogo é vencer, o Arsenal está fazendo exatamente isso.
Muito se fala que o time depende demais das bolas paradas. De fato, os números mostram força absurda nesse fundamento. O Arsenal lidera em gols originados em lances de bola parada (incluindo pênaltis), com 21. Das 58 bolas na rede na liga, 16 vieram de escanteios, 27,6%.
Isso é acaso? Não.
Existe método. O trabalho do treinador de bolas paradas Nicolas Jover virou arma letal. E quando você tem alguém como Declan Rice colocando a bola na área com precisão cirúrgica, o recurso deixa de ser plano B e vira especialidade. Um ponto interessante desta história é que o coordenador dos escanteios e faltas, simplesmente ganha um bônus cada vez que o time consegue marcar desta forma, então imagina a felicidade do profissional.
Criticar isso é quase como reclamar que um time faz muitos gols de falta porque treina bem.
Os números do Arsenal desmontam a narrativa
Quem diz que o Arsenal é limitado talvez esteja olhando só para os escanteios.
Os dados mostram outra coisa:
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Melhor ataque da Premier League (58 gols).
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Melhor defesa (22 sofridos).
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Melhor saldo (+36).
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Mais toques na área adversária (981).
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Segunda equipe que mais criou grandes chances (87).
Isso não é retrato de time pequeno, nem de equipe que joga apenas por uma bola. É consistência ofensiva e equilíbrio defensivo.
Sim, houve jogos sofridos, como o 2 a 1 contra o Chelsea ou o susto após abrir 2 a 0 e ceder empate contra o Wolverhampton Wanderers. Mas campeonato se ganha também nesses dias em que o brilho não aparece e a eficiência fala mais alto.
A sombra de Guardiola e Klopp
Talvez parte da crítica venha do padrão recente estabelecido pelo próprio Pep Guardiola no Manchester City. Seis títulos sob o comando do catalão moldaram a ideia do que seria “o jeito certo” de dominar a liga.
Do outro lado, o Liverpool de Jurgen Klopp apresentou um futebol elétrico, intenso, quase cinematográfico. Era o “heavy metal” contra o controle absoluto de Guardiola.
Arteta, discípulo de Pep, optou por outro caminho: mais equilíbrio, menos risco, mais controle emocional. Não é espetáculo o tempo todo. É cálculo.
E isso incomoda quem associa liderança obrigatoriamente a show.
O teste final está chegando
O grande divisor pode ser o confronto contra o Manchester City no Etihad, em abril. É o tipo de jogo que define campeonato e narrativa.
Se o Arsenal vencer e confirmar o título, ninguém vai lembrar quantos gols vieram de escanteio. Ninguém vai discutir se o futebol era plástico o suficiente. A única palavra repetida será: campeão.
Agora, se falhar… aí a cobrança será pesada. Arteta sabe disso. Um novo vice seria visto como passo atrás. E, para um clube que não vence a liga desde 2003-04, a paciência já está no limite.
Ganhar também é jogar bonito?
Existe mais de um jeito de conquistar a Premier League. Nem todo campeão precisa ser poético. Às vezes, é sobre consistência, mentalidade e eficiência.
O Arsenal de Arteta pode não encantar todos os neutros. Pode não ser unanimidade entre os puristas. Mas lidera, marca gols, sofre poucos e está vivo em todas as frentes.
Se isso não for suficiente para merecer respeito, talvez o problema não seja o estilo, mas sim a expectativa criada em torno do que um campeão “deveria” parecer.
No fim das contas, torcedor quer taça. E se o troféu finalmente voltar ao norte de Londres, pode ter certeza: não vai ter um único gunner reclamando de como ele foi conquistado.
Foto: Getty Images