Uma análise baseada nos dados oficiais de cronometragem de todos os Grandes Prêmios disputados em pista seca na temporada de 2026 mostra que a atual gama de pneus da Pirelli apresenta a menor diferença de degradação desde o início da era dos carros de efeito solo.
Os números indicam que apenas 0,008 segundo por volta de idade do pneu separam o composto que mais se desgasta daquele que menos perde desempenho. Além disso, pela primeira vez desde 2022, a ordem tradicional de desgaste foi completamente invertida. Atualmente, o pneu duro é o que apresenta a maior degradação, perdendo em média 0,071 segundo por volta, enquanto o composto médio registra 0,065 segundo e o macio apenas 0,063 segundo, tornando-se o pneu mais resistente da gama.
Segundo a análise, esse não era o objetivo original do desenvolvimento da Pirelli para 2026. A fabricante homologou os pneus com a intenção de criar uma diferença ampla e consistente entre os compostos, permitindo mais alternativas estratégicas durante as corridas. Entretanto, os dados coletados nas nove provas disputadas em condições secas mostram que o efeito foi justamente o contrário.
A diferença entre os compostos em 2026 representa o menor intervalo da atual era técnica da Fórmula 1. Em comparação, a separação foi de 0,053 segundo por volta em 2022, 0,011 em 2023, 0,043 em 2024 e 0,041 em 2025.
Embora 2023 também tenha registrado uma diferença pequena entre os compostos, a ordem permaneceu a tradicional. Em todas as temporadas anteriores da era do efeito solo, o pneu macio sempre foi o que mais se desgastava. Em 2022, por exemplo, ele perdia 0,101 segundo por volta, enquanto o composto duro registrava apenas 0,048 segundo. Em 2026, essa relação foi completamente invertida.
Diferença entre compostos praticamente desapareceu nas estratégias
Os números tornam-se ainda mais significativos quando aplicados a um trecho normal de corrida. A degradação aumenta progressivamente a cada volta completada com o mesmo jogo de pneus. Em um stint de 25 voltas realizado em 2022, um piloto utilizando pneus macios acumulava aproximadamente 30 segundos de perda de desempenho em relação a pneus novos, enquanto os pneus duros acumulavam cerca de 14 segundos, criando uma diferença próxima de 16 segundos entre as duas estratégias.
Em 2026, utilizando o mesmo cálculo, a diferença entre o melhor e o pior cenário caiu para aproximadamente 2,4 segundos ao longo de 25 voltas. Além disso, essa pequena vantagem passou justamente para o pneu macio, que agora dura mais do que o composto duro.
Segundo a análise, durante muitos anos a escolha do composto foi uma das decisões estratégicas mais importantes feitas pelos engenheiros durante uma corrida. Atualmente, essa diferença representa um ganho menor do que o tempo perdido em um pit stop lento.
O estudo também analisou diferentes hipóteses para a correção do peso de combustível, variando entre 0,03 e 0,08 segundo por volta, e concluiu que os principais resultados permanecem os mesmos em todos os cenários avaliados. Foram considerados os nove Grandes Prêmios disputados até o momento na temporada, excluindo corridas sprint e provas realizadas sob chuva.
Mudanças nos carros explicam comportamento inédito dos pneus
A análise explica que o comportamento incomum dos pneus está diretamente relacionado às características dos carros de 2026. Os pneus duros possuem uma estrutura mais rígida e geram pouco calor por conta própria. Para funcionarem corretamente, dependem de cargas elevadas provenientes do peso do carro, da pressão aerodinâmica e da velocidade nas curvas para atingir sua faixa ideal de funcionamento.
O diretor técnico adjunto da Aston Martin, Eric Blandin, observou que os compostos macios são mais adequados para condições frias e pistas com superfícies suaves, enquanto os pneus duros necessitam de maior quantidade de energia para operar corretamente. As regras técnicas de 2026 reduziram justamente essa energia disponível.
Os carros ficaram 32 quilos mais leves, produzem significativamente menos carga aerodinâmica e os pilotos passaram a levantar o pé do acelerador em diversos trechos das voltas para administrar as novas unidades de potência, cuja distribuição de energia elétrica é próxima de 50%. Com menos carga incidindo sobre os pneus, o composto duro frequentemente trabalha abaixo de sua temperatura ideal.
Nessas condições, ele desliza mais sobre o asfalto em vez de gerar aderência, favorecendo o surgimento de granulação e bolhas na superfície, fenômenos que aceleram sua degradação. Enquanto isso, o pneu macio, que anteriormente sofria com o excesso de carga imposto pelos carros das temporadas anteriores, passou a operar em condições muito mais favoráveis.
A própria Pirelli previa, de forma geral, que a redução das cargas exigiria compostos mais macios. Por isso, desenvolveu uma gama adaptada às novas exigências e retirou completamente o composto C6 da linha disponível para 2026. Segundo a análise, porém, os dados revelam que o efeito acabou sendo muito maior do que o esperado, chegando ao ponto de inverter completamente a ordem de desgaste entre os compostos.
Entre os circuitos avaliados, a Áustria apresentou a maior degradação mensurável, com 0,097 segundo por volta de idade do pneu. Miami e Mônaco aparecem logo em seguida. Já Montreal apresentou um comportamento diferente. O circuito ganha tanta aderência ao longo da corrida que esse aumento de grip supera a perda causada pela degradação dos pneus, fazendo com que o desgaste praticamente desapareça dos tempos de volta registrados.
A análise também informa que Barcelona foi retirada do ranking. Os números obtidos no circuito espanhol mostraram níveis de degradação aproximadamente duas vezes superiores aos das demais pistas em todos os pilotos e compostos avaliados. Como ainda não há certeza se isso ocorreu por causa do calor, do asfalto ou de alguma característica específica dos carros de 2026 naquele traçado, os dados permaneceram fora da classificação até que exista uma explicação definitiva.
Estratégias passam a depender mais dos circuitos do que dos pneus
Segundo o estudo, uma consequência direta dessa pequena diferença entre os compostos é a redução do número de pit stops. Quando nenhum pneu perde desempenho rapidamente o suficiente para obrigar uma segunda parada, as corridas com apenas um pit stop tornam-se a estratégia predominante.
A análise afirma que esse comportamento coincide com as preocupações manifestadas no paddock ao longo da temporada. O diretor da Pirelli para a Fórmula 1, Mario Isola, chegou a comparar a situação atual com a temporada de 2017, quando 13 das 20 corridas foram vencidas utilizando apenas uma parada nos boxes, deixando aberta a possibilidade de ampliar novamente a diferença entre os compostos no futuro.
Outro levantamento estratégico citado pela análise concluiu que, em 2026, a eficiência do chamado undercut varia muito mais conforme as características de cada circuito do que pela escolha do composto utilizado. A Áustria, justamente a pista com maior degradação medida, também aparece entre os circuitos onde o undercut produz melhores resultados.
Os autores concluem que duas análises independentes chegam à mesma conclusão: em 2026, é o circuito que determina a estratégia da corrida, e não mais o tipo de pneu.
O estudo também destaca um aspecto econômico. As equipes compram toda a sua alocação de pneus independentemente do uso, com cada jogo custando aproximadamente US$ 3 mil, sem considerar o transporte. Uma gama de compostos tão equilibrada reduz a quantidade de jogos desperdiçados durante os fins de semana.
Por fim, a análise ressalta que esse equilíbrio pode não durar até o fim da temporada. À medida que os carros evoluírem e recuperarem carga aerodinâmica ao longo do desenvolvimento, as cargas aplicadas aos pneus também aumentarão, podendo favorecer novamente o composto duro. Caso essa diferença entre os compostos volte a crescer corrida após corrida, a mudança deverá aparecer primeiro nos dados de degradação antes mesmo de produzir reflexos na classificação do campeonato.
(Foto: Fórmula 1)



