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Por que demitir Fernando Seabra foi um grande erro para o Coritiba?

Fernando Seabra no Coritiba representa uma história de queda de rendimento, desgaste interno e uma decisão que pode custar caro na reta final do Campeonato Brasileiro. Demitido um dia depois da derrota por 1 a 0 para o Grêmio, no Couto Pereira, o treinador deixou o clube após sete partidas consecutivas sem vitória, com 39 pontos e apenas cinco de vantagem sobre a zona de rebaixamento. Os números justificam a preocupação da diretoria, mas não encerram a discussão: a troca de comando a seis rodadas do fim pode ter sido uma resposta imediata para um problema que exigia, acima de tudo, recuperar a organização coletiva construída durante boa parte da temporada.

A saída não aconteceu exclusivamente por causa dos resultados. A tentativa de modificar o estilo de jogo, as goleadas sofridas contra Vasco e Fluminense e o desgaste na relação com parte do elenco pesaram na avaliação interna. Ainda assim, existe uma diferença entre reconhecer que o trabalho atravessava uma crise e concluir que a demissão era a melhor alternativa disponível. O Coritiba havia demonstrado capacidade para competir na Série A, construiu uma campanha que chegou a colocá-lo na parte superior da tabela e agora precisa encontrar uma solução em um calendário que oferece pouco tempo para mudanças profundas.

A decisão da diretoria, portanto, merece ser analisada sob duas perspectivas: os motivos que levaram ao fim do trabalho e os riscos de abandonar um projeto justamente quando a equipe mais precisava recuperar suas referências. O problema de Seabra era real, mas a mudança de treinador não garante que o Coxa consiga resolver as dificuldades que o aproximaram da luta contra o rebaixamento.

Por que Fernando Seabra foi demitido do Coritiba?

O maior argumento está na sequência de resultados. O Coritiba perdeu para o Grêmio por 1 a 0, sofreu sua quinta derrota nas últimas sete rodadas e chegou a sete partidas sem vencer no Campeonato Brasileiro. Nesse intervalo, a equipe conquistou apenas dois pontos em 21 possíveis, uma queda expressiva para um time que havia encerrado o primeiro turno em uma posição relativamente confortável.

A campanha de Seabra terminou com 42 jogos, 14 vitórias, 13 empates e 15 derrotas, com aproveitamento de 43,6%. O retrospecto geral não é suficiente para definir a qualidade de um trabalho, mas precisa ser contextualizado: o treinador assumiu o Coritiba depois do acesso à Série A e conseguiu conduzir uma equipe em reconstrução a uma campanha competitiva na primeira metade do campeonato. O problema foi a incapacidade de sustentar aquele rendimento no segundo turno.

As goleadas por 5 a 0 para o Vasco e por 4 a 0 diante do Fluminense agravaram a situação. Os resultados expuseram fragilidades defensivas e aumentaram a pressão sobre o treinador, que tentou modificar o comportamento da equipe para recuperar o controle das partidas. A resposta, contudo, não apareceu com a velocidade necessária, e o clube passou a enxergar a continuidade do trabalho como um risco para a permanência na elite.

Além dos resultados, relatos sobre os bastidores apontaram desgaste entre a comissão técnica e parte dos jogadores. O método de treinamento de Seabra teria sido considerado excessivamente metódico por alguns atletas, enquanto determinadas orientações encontravam dificuldades para se transformar em respostas dentro de campo. A avaliação interna era de que o treinador havia perdido parte da capacidade de mobilizar o grupo, especialmente depois da pausa para a Data Fifa de setembro.

Esse aspecto não deve ser tratado como um fato comprovado por declarações públicas de todo o elenco, mas ajuda a compreender por que a diretoria decidiu agir mesmo com pouco tempo para o fim do campeonato. Quando os resultados pioram e a confiança entre treinador e jogadores diminui, a margem para corrigir problemas durante a temporada fica menor.

Também existia um antecedente importante: em julho, Seabra esteve próximo de assumir o Vasco, mas a negociação não avançou por um impasse relacionado ao pagamento da multa rescisória. O episódio não comprova que o treinador tenha perdido o compromisso com o Coritiba, mas acrescenta um elemento ao contexto de uma relação que já havia atravessado um momento delicado.

A demissão, portanto, não foi uma decisão sem justificativas. A sequência negativa, a vulnerabilidade defensiva, a tentativa malsucedida de mudar o modelo e o desgaste interno formavam um conjunto de problemas relevantes. A questão é se todos eles poderiam ser corrigidos com uma troca de comando a seis rodadas do fim, ou se o clube optou por uma solução de curto prazo sem garantias de melhora.

O estilo de jogo que marcou a passagem de Seabra

A principal característica do Coritiba de Fernando Seabra foi a capacidade de jogar em transição. Em vez de depender de longos períodos de posse de bola e de uma construção ofensiva elaborada desde a defesa, a equipe procurava manter organização sem a bola, recuperar a posse e acelerar o ataque quando encontrava espaços. O modelo permitia explorar a velocidade dos jogadores de frente e transformar recuperações defensivas em oportunidades de gol.

Breno Lopes e Pedro Rocha ofereciam alternativas importantes para atacar a profundidade, enquanto Josué e Lucas Ronier eram peças relevantes na tentativa de aproximar qualidade técnica e objetividade. A ideia era encontrar rapidamente os jogadores capazes de conduzir a equipe ao campo adversário, evitando que o Coritiba precisasse desmontar defesas organizadas por meio de uma circulação de bola para a qual nem sempre demonstrava a mesma eficiência.

Isso não significa que Seabra tenha utilizado uma estratégia exclusivamente defensiva durante toda a passagem. No início do trabalho, o Coritiba também procurava pressionar mais adiantado e chegou a encontrar resultados com uma marcação agressiva. O treinador demonstrou disposição para adaptar a equipe às características do adversário, alternando a altura da pressão e a maneira de ocupar o campo conforme as necessidades de cada partida.

A flexibilidade era uma das virtudes do modelo. Em um elenco que acabara de subir da Série B, tentar reproduzir continuamente um futebol de posse e domínio territorial contra adversários com maior capacidade técnica poderia expor limitações individuais. A organização defensiva e as transições rápidas ofereciam uma alternativa competitiva, porque permitiam reduzir o espaço disponível para os rivais e aproveitar os momentos em que a estrutura adversária estivesse desorganizada.

O problema apareceu quando o Coritiba tentou avançar para uma proposta mais propositiva. A intenção de controlar melhor as partidas era compreensível, principalmente porque uma equipe que pretende se manter na Série A precisa desenvolver alternativas para enfrentar diferentes cenários. Entretanto, aumentar a posse de bola sem aprimorar a proteção defensiva e a ocupação dos espaços pode tornar o time mais vulnerável, especialmente quando os jogadores ainda não assimilaram completamente os novos comportamentos.

As goleadas contra Vasco e Fluminense evidenciaram essa dificuldade. O Coritiba passou a oferecer espaços que adversários tecnicamente superiores conseguiram explorar, e a tentativa de modificar a identidade da equipe não trouxe o controle esperado. Seabra posteriormente recuou suas linhas e voltou a priorizar a proteção defensiva, mas a mudança não foi suficiente para interromper a sequência negativa.

O treinador explicou, depois do empate por 1 a 1 com o Botafogo, que o objetivo era reduzir os espaços e simplificar as tarefas coletivas. A proposta de utilizar um bloco defensivo mais baixo procurava evitar que o adversário encontrasse passes por dentro e atacasse repetidamente as costas da defesa. Era uma tentativa de recuperar a segurança que havia sustentado parte da campanha.

A mudança, porém, chegou em um momento no qual a equipe já enfrentava problemas de confiança e dificuldades para manter uma formação estável. Lesões e ausências também reduziram as alternativas disponíveis, tornando mais difícil consolidar os ajustes. O Coritiba precisava recuperar a consistência defensiva sem perder a capacidade de atacar, mas não conseguiu transformar essa combinação em resultados.

A queda no segundo turno foi real, mas o trabalho não pode ser resumido à crise

Defender a permanência de Seabra não exige ignorar a deterioração da campanha. O Coritiba encerrou o primeiro turno com 26 pontos e chegou a 39 depois de 31 rodadas, um ganho de 13 pontos em 12 partidas na segunda metade do campeonato. A produção foi inferior à da primeira parte da competição, e a sequência de jogos sem vitória transformou uma temporada relativamente tranquila em uma disputa preocupante pela permanência.

A defesa foi um dos principais problemas. Até a 31ª rodada, o time já havia sofrido 49 gols e acumulava 11 partidas consecutivas sem terminar um jogo sem ser vazado. O número de gols sofridos no returno se aproximou rapidamente do registrado em todo o primeiro turno, indicando uma perda importante de consistência.

As lesões também tiveram influência. O Coritiba precisou lidar com ausências em diferentes setores, incluindo jogadores importantes para a construção ofensiva e para a organização defensiva. A indisponibilidade de Lucas Ronier, por exemplo, retirou uma alternativa de criação e desequilíbrio, enquanto os problemas físicos de peças defensivas dificultaram a manutenção de uma base estável.

Esses fatores não absolvem o treinador. Uma comissão técnica também precisa encontrar respostas diante de desfalques e adaptar a equipe às condições disponíveis. Ainda assim, eles ajudam a explicar por que o rendimento caiu e por que a recuperação exigia uma análise mais ampla do que a simples substituição do comandante.

O ponto principal é que o Coritiba já havia demonstrado capacidade para competir na Série A. A campanha do primeiro turno não surgiu de uma sequência inteiramente aleatória: o time encontrou uma forma de explorar as características do elenco, proteger determinadas limitações e disputar partidas contra adversários com mais recursos. Esse repertório não desapareceu por completo, embora tenha deixado de produzir resultados com a mesma frequência.

Em vez de tratar toda a passagem como um fracasso, seria necessário identificar quais elementos do modelo ainda funcionavam e quais precisavam ser corrigidos. A equipe precisava melhorar a proteção da área, reduzir os espaços entre os setores e recuperar a confiança para executar as transições. Essas eram tarefas urgentes, mas não necessariamente dependiam de uma mudança de treinador.

A troca pode produzir um efeito emocional imediato, porém não elimina automaticamente os problemas táticos. O novo comandante também terá de trabalhar com o mesmo elenco, as mesmas limitações e um calendário que oferece poucas oportunidades para treinamento. Se a diretoria não tiver uma alternativa capaz de preservar o que funcionava e corrigir o que deixou de funcionar, a mudança corre o risco de apenas deslocar o problema.

Por que demitir Seabra agora pode ter sido um erro completo

O principal argumento contra a decisão está no momento em que ela foi tomada. Restavam seis rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro, e o Coritiba tinha 39 pontos, cinco acima da zona de rebaixamento. A distância não era confortável, mas também não colocava o clube em uma situação irreversível. Havia margem para reagir, sobretudo porque os próximos compromissos incluíam confrontos diretos que poderiam determinar o rumo da luta pela permanência.

O primeiro deles seria contra o Vitória, no Couto Pereira, seguido pelo duelo com o Internacional, no Beira-Rio. Depois, o Coxa enfrentaria Santos, Bahia, Flamengo e Palmeiras. A sequência exigia atenção, mas também deixava claro que os dois primeiros jogos poderiam ter grande influência sobre a classificação. Nesse cenário, preservar referências táticas e reduzir a instabilidade interna poderia ser tão importante quanto buscar uma reação emocional.

Ao demitir Seabra, o clube decidiu começar novamente justamente quando o tempo para construir um novo trabalho se tornou mínimo. O treinador que assumisse precisaria conhecer rapidamente o elenco, definir uma estrutura defensiva, reorganizar o meio-campo e recuperar a confiança dos jogadores. Não haveria semanas disponíveis para desenvolver uma identidade completamente diferente.

A troca de comando também carrega o risco de criar uma expectativa desproporcional sobre o efeito de uma nova comissão técnica. Uma vitória no primeiro jogo pode ser interpretada como confirmação da decisão, enquanto uma derrota pode ampliar a ansiedade e levar a novas mudanças. Nenhum desses resultados, isoladamente, comprova que a substituição era a melhor escolha. O que importa é a capacidade de tornar a equipe mais competitiva durante o período restante.

Além disso, Seabra foi contratado para conduzir o Coritiba depois do acesso e participou da preparação de uma equipe que conseguiu se manter fora da zona de rebaixamento durante boa parte da temporada. Caso o clube considerasse que o modelo de jogo precisava mudar, seria razoável questionar por que a intervenção não aconteceu antes, quando havia mais tempo para testar alternativas e avaliar os resultados.

A diretoria poderia ter cobrado ajustes específicos, definido prioridades para a reta final e exigido uma resposta imediata sem necessariamente romper o trabalho. Isso não garantiria a recuperação, mas evitaria os custos de uma transição em um momento no qual cada treinamento e cada partida têm importância elevada.

O argumento mais forte em favor da demissão é a possibilidade de que o desgaste interno tenha se tornado irreversível. Se parte do elenco já não confiava nas orientações do treinador e a comissão técnica havia perdido capacidade de mobilização, insistir na continuidade poderia significar desperdiçar as últimas rodadas. Uma equipe sem adesão ao plano de jogo dificilmente recupera regularidade apenas com ajustes táticos.

Ainda assim, a existência desse risco não transforma automaticamente a demissão na melhor decisão. A diretoria precisava avaliar se o problema era exclusivamente relacionado à liderança de Seabra ou se também envolvia limitações do elenco, lesões e dificuldades estruturais que continuariam presentes com outro comandante. Se a causa da queda fosse mais ampla, trocar o treinador poderia produzir pouco efeito prático.

É por isso que a decisão pode ser considerada um erro de gestão: não porque a continuidade de Seabra garantisse a permanência, mas porque a mudança foi feita em um momento de enorme risco, sem tempo para desenvolver um projeto alternativo e depois de uma campanha que havia demonstrado capacidade competitiva. O clube escolheu a ruptura quando precisava, sobretudo, de uma resposta rápida e funcional.

(Foto: Paulo De Tarso/AGIF)