Poucos pesos-pesados no MMA atual parecem realmente interessados em enfrentar Francis Ngannou. Menos ainda demonstram disposição para provocá-lo publicamente logo após uma vitória devastadora. Mas foi exatamente isso que Robelis Despaigne fez após o evento inaugural do MVP MMA.
O cubano, medalhista de bronze olímpico no taekwondo em Londres 2012, aproveitou o impacto de sua vitória por nocaute sobre Junior dos Santos para mirar imediatamente o maior nome disponível fora do UFC na categoria. E o mais curioso é que a resposta de Ngannou não fechou a porta.
“Por que não?”, respondeu o ex-campeão do UFC quando questionado sobre o desafio.
O perfil raro que Despaigne acredita oferecer
Existe um motivo claro para Despaigne acreditar que pode competir com Ngannou. E ele passa menos pela força bruta e mais pelo estilo. Durante anos, o peso-pesado foi dominado por atletas relativamente estáticos, dependentes de potência e trocação frontal. Ngannou destruiu praticamente todos eles. Sua combinação de explosão física, força absurda e evolução técnica transformou o camaronês numa força quase incontrolável.
No entanto,, Despaigne acredita representar algo diferente. Seu histórico no taekwondo construiu um lutador incomum para os pesos-pesados. Ele se movimenta muito mais do que a média da categoria, utiliza chutes com frequência e trabalha em distância longa, algo raro entre atletas acima dos 110 quilos. Na visão do cubano, esse fator pode criar dificuldades inéditas para Ngannou.
Segundo Despaigne, os adversários do ex-campeão do UFC costumam oferecer alvos muito previsíveis e parados, enquanto ele acredita poder transformar a luta numa disputa de movimentação, velocidade e timing. É uma leitura ousada, mas não completamente sem lógica.
Ngannou evoluiu além do “apenas força”
Durante muito tempo, Francis Ngannou foi tratado como um fenômeno físico bruto. Um nocauteador quase sobrenatural cuja principal arma era simplesmente tocar o adversário. Hoje, isso já não parece suficiente para definir seu jogo. Despaigne reconheceu isso publicamente ao elogiar a evolução técnica do camaronês, principalmente após suas experiências no boxe profissional contra Tyson Fury e Anthony Joshua.
Mesmo derrotado contra Joshua, Ngannou saiu dessas experiências muito mais refinado tecnicamente. Seu posicionamento, uso de jab, controle de distância e leitura defensiva melhoraram consideravelmente. Além disso, ele passou a incorporar mais chutes no MMA, algo visível nas lutas recentes contra Renan Problema e Philipe Lins.
Despaigne destacou exatamente isso: Ngannou já não depende apenas das mãos. Hoje ele utiliza low kicks, chutes altos e trabalha melhor as combinações. Isso torna o desafio ainda mais perigoso.
A luta que provavelmente não chegaria ao fim
Existe um elemento particularmente interessante nesse possível confronto: o perfil estatístico dos dois atletas. Tanto Ngannou quanto Despaigne possuem algumas das menores médias de duração de luta entre os pesos-pesados. A esmagadora maioria de suas vitórias termina ainda no primeiro round. Despaigne praticamente descartou a possibilidade de o duelo chegar às papeletas dos juízes. E sinceramente, é difícil discordar.
O cubano entende que o combate seria uma troca direta de poder e precisão logo nos minutos iniciais. Um cenário extremamente explosivo, especialmente porque ambos carregam poder de nocaute suficiente para encerrar qualquer luta instantaneamente. O detalhe é que, apesar da confiança, Despaigne parece compreender perfeitamente o tamanho do risco.
Ngannou continua sendo considerado por muitos o melhor peso-pesado do mundo fora do UFC. Desde sua saída da organização, o camaronês preserva uma aura quase mítica dentro dos esportes de combate. Sua trajetória virou símbolo de independência esportiva e financeira, além de representar uma ruptura histórica com o monopólio do UFC sobre grandes estrelas.
Enfrentá-lo hoje significa encarar não apenas um campeão, mas talvez o lutador mais intimidador da categoria.
O fantasma de Jon Jones ainda paira sobre tudo
Apesar do interesse no confronto, existe um obstáculo gigantesco no caminho: Jon Jones. A superluta entre Ngannou e Jones continua sendo um dos maiores “e se” da história recente do MMA. Os dois flertam verbalmente há anos, mas questões políticas e contratuais praticamente inviabilizam o combate.
Ngannou deixou o UFC justamente em meio a disputas por autonomia, liberdade contratual e melhores condições financeiras. Jones, por outro lado, ainda possui contrato longo com a organização, que historicamente evita qualquer tipo de copromoção.
Despaigne inclusive reconheceu isso ao comentar que espera que o UFC “não solte Jon Jones tão cedo”, justamente porque entende que esse duelo ainda mobiliza enorme expectativa global. O paradoxo é curioso: enquanto Ngannou busca manter seu legado enfrentando nomes relevantes fora do UFC, boa parte do público continua vendo Jones como o teste definitivo que nunca aconteceu.
Para Despaigne, porém, o desafio vai além da lógica de rankings. Aos 36 anos, o cubano entende que não possui tempo para construções lentas de carreira. Seu perfil sempre foi o de impacto imediato. E desafiar Ngannou agora representa exatamente isso: um salto instantâneo para o centro do MMA mundial.
A própria existência desse possível combate também mostra uma transformação importante no cenário atual dos esportes de combate. Eventos fora do UFC passaram a criar suas próprias estrelas, suas próprias narrativas e até seus próprios supercombates. O MVP MMA, impulsionado pela influência de Jake Paul, tenta justamente ocupar esse espaço híbrido entre entretenimento e esporte de elite.
E nesse ambiente, lutas caóticas, violentas e imprevisíveis possuem enorme valor comercial. Ngannou contra Despaigne encaixa perfeitamente nisso. Talvez tecnicamente ainda exista um favoritismo enorme para o camaronês. Mas no MMA dos pesos-pesados, especialmente quando dois nocauteadores se enfrentam, previsões costumam durar apenas até o primeiro golpe limpo.
(Foto: Getty Images)