Eberechi Eze sempre teve talento pra parar o estádio. Aquela batida seca de fora da área, o drible curto, a forma leve de carregar a bola… tudo isso já era conhecido desde os tempos de Crystal Palace. Mas, no Arsenal, o camisa 10 está mostrando que pode ser muito mais do que só estética.
E o mais curioso? O jogo que confirmou essa evolução não foi só sobre um golaço.
Na vitória por 2 a 0 sobre o Bayer Leverkusen, que garantiu os Gunners nas quartas da Champions League, Eze marcou um daqueles gols que a gente revê dez vezes sem cansar: dominou, girou e soltou uma pancada de fora da área, no ângulo. Um absurdo.
Mas, no pós-jogo, o assunto principal não foi o gol. Foi o que ele fez… sem a bola.
Muito além dos golaços
Vamos ser sinceros: ninguém ficou surpreso com o gol de Eze. Ele sempre teve essa arma no repertório. Chutar de fora da área com precisão e potência nunca foi problema. O que mudou foi o resto.
Quando chegou ao Arsenal, Eze enfrentou um início complicado. Teve um período entre dezembro e janeiro em que praticamente sumiu do time. Em sete jogos, foi reserva sem entrar em cinco. Em outro, jogou apenas 12 minutos. Em alguns momentos, parecia um jogador deslocado, tentando entender seu papel dentro de um sistema muito mais exigente do que aquele que vivia anteriormente.
E isso pesa.
Na Premier League, ele chegou a ficar quatro partidas seguidas sem atuar. Quando voltou a ser titular, contra o Brentford, durou só um tempo em campo. Não era exatamente o começo dos sonhos. Se tem um momento que ajuda a explicar a virada de chave, ele atende por clássico.
Contra o Tottenham, no North London Derby, Eze simplesmente destruiu: dois gols na vitória por 4 a 1 fora de casa. Detalhe: os mesmos Spurs que quase contrataram o jogador na janela anterior. Coincidência ou não, foi a partir dali que a história começou a mudar. Mas não só pelos gols.
Pressão, intensidade e confiança
O que realmente fez Mikel Arteta confiar em Eze foi algo menos glamouroso: intensidade sem a bola. No Arsenal, talento é obrigatório, mas não é suficiente.
Após o jogo contra o Leverkusen, Arteta foi direto: se o jogador não pressiona, não joga. Simples assim. E fez questão de elogiar a evolução de Eze nesse aspecto. E os números comprovam.
Antes do clássico contra o Tottenham, Eze registrava cerca de 58 pressões por 90 minutos. Depois, esse número subiu para mais de 67. Em pressões de alta intensidade, o salto também é claro: de aproximadamente 38 para mais de 47 por jogo.
E talvez o dado mais importante: as recuperações de bola praticamente dobraram. Ou seja, não é só correr mais. É correr melhor.
Adaptação de Eze: de estrela isolada a peça de engrenagem
No Palace, Eze era o cara. O jogador com liberdade total, aquele que decidia quando e como agir. Era o típico “camisa 10 raiz”, com pouca obrigação defensiva e muita responsabilidade criativa.
No Arsenal, o cenário é outro. Ali, ele é mais uma peça dentro de um sistema altamente organizado. E isso exige adaptação. Exige entender movimentos, ocupar espaços corretos e, principalmente, contribuir sem a bola.
Segundo Arteta, o ritmo de jogos e o entrosamento com os companheiros também ajudaram nesse processo. Jogando a cada três dias, Eze ganhou confiança, ritmo e entendimento do que o treinador espera.
E isso aparece dentro de campo. O grande desafio do Arsenal agora é encontrar o equilíbrio. Porque, ao mesmo tempo que Eze precisa se encaixar no sistema, não dá para tirar dele aquilo que o torna especial. A liberdade para arriscar, para chutar de longe, para tentar algo diferente.
E isso continua lá.
Prova disso foi o jogo contra o Everton, quando ele arriscou seis finalizações de fora da área, o maior número de um jogador em uma partida da Premier League nesta temporada. Ou seja, o “Eze raiz” não morreu. Ele só evoluiu.
Um jogador mais completo e mais perigoso
A frase de Arteta após o golaço contra o Leverkusen resume bem a situação: aquele tipo de lance é “um dos motivos” pelos quais Eze está no Arsenal, não o único.
E é exatamente aí que mora a evolução.
Eze continua sendo o cara capaz de decidir com um chute improvável. Mas agora também é o jogador que pressiona, recupera bola, participa do coletivo e entende o jogo sem depender só da bola no pé. E isso muda tudo. Porque quando um jogador criativo compra a ideia do trabalho sujo, o nível sobe automaticamente.
Hoje, Eberechi Eze não é só um jogador bonito de ver. É um jogador completo. E, se continuar nessa evolução, pode deixar de ser apenas mais um talento da Premier League… para se tornar protagonista de verdade no futebol europeu.
Foto: James Gill – Danehouse/Getty Images