Quando o Arsenal abriu os cofres e pagou €69 milhões por Eberechi Eze, vindo do Crystal Palace, a expectativa foi lá em cima. Gol, assistência, drible, highlight no TikTok e compilado no YouTube, o pacote completo. Só que futebol não é só sobre quem aparece na capa do jornal no dia seguinte. E se alguém ainda insiste em chamar Eze de “flop”, talvez esteja olhando só para o número de gols e ignorando o que realmente acontece dentro das quatro linhas.
Em uma temporada 2025/26 em que o time de Mikel Arteta briga forte pela Premier League e se mantém competitivo na Champions, Eze tem sido muito mais importante do que os cinco gols e cinco assistências indicam.
O contexto antes da corneta
É verdade que a chegada de Eze foi cercada de expectativa. Segundo jogador mais caro da janela no Emirates, quinto mais caro da história do clube, 27 anos, auge da carreira. A matemática da pressão é simples: preço alto = titular absoluto = números explosivos. Só que o futebol moderno não funciona assim.
Arteta montou um elenco profundo, competitivo e versátil, tem tudo para ir atrás do título que tanto tem almejado para os Gunners. E nesse cenário, Eze não chegou para ser o salvador da pátria, mas para elevar o nível do grupo, dar mais profundidade para a equipe. O problema é que parte da torcida ainda mede desempenho como se estivesse jogando modo carreira no FIFA.
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Após o empate por 1 a 1 com o Brentford, por exemplo, ele foi chamado de “horrível” nas redes sociais. Sim, a famosa análise tática de 280 caracteres. Mas no jogo seguinte, contra o Wigan, na FA Cup, atuando mais recuado, respondeu em campo com duas assistências e uma atuação dominante. Resposta clássica: menos tweet, mais futebol.
Os números que explicam o que o olho apressado não vê
Se a análise superficial aponta que Eze não “estourou”, os dados contam outra história.
Na temporada:
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33 jogos
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23 como titular
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1964 minutos
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0,23 gols por 90 minutos
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0,23 assistências por 90
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2,16 finalizações por 90
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2,04 conduções progressivas por 90
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2,4 dribles certos por 90
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1,19 passes-chave por 90
Pode não parecer estatística de artilheiro, mas é estatística de jogador que faz o time andar. Os 2,4 dribles certos por jogo mostram que ele ainda é um dos principais desequilibradores individuais do elenco. As 2,04 conduções progressivas indicam que ele quebra linhas com bola dominada. E os 1,19 passes-chave por 90 reforçam que ele cria chances mesmo quando não aparece com assistência direta.
É qualidade sobre quantidade.
O que dizem os modelos de desempenho
A empresa de análise SciSports coloca Eze como o sexto melhor meia-atacante da Premier League quando avalia desempenho posicional. E ele aparece à frente de nomes como Cole Palmer, Bryan Mbeumo e Dominik Szoboszlai. E tem mais. Quando atua mais recuado, seu índice sobe ainda mais, ficando atrás apenas de Pascal Gross nesse tipo de função. Isso mostra algo importante: Eze não é só um camisa 10 clássico. Ele se adapta. Ele entende espaço. Ele retém bola sob pressão.
Aliás, um dos pontos mais fortes do seu jogo nesta temporada é a retenção de posse. Ele perde pouco a bola, tem passe seguro e, talvez o dado mais interessante: seu “transition forcing” (capacidade de gerar transição após recuperar ou pressionar) é o melhor da liga. Ou seja: além de criar, ele ajuda a roubar e acelerar, um meio-campista de qualidade, mesmo não sendo a sua posição de ofício, com certeza, Ruben Amorim choraria ao ter um desses em suas mãos.
Claro, existe uma ressalva importante. Os modelos estatísticos costumam ser mais precisos após 900 minutos em uma mesma função. Eze ainda não atingiu esse volume específico nem como meia central nem como meia-atacante fixo. Mas os indícios são animadores e consistentes.
Luxo? Não. Profundidade de campeão
Existe uma ideia antiga no futebol de que jogador caro precisa ser titular absoluto. Só que os elencos campeões funcionam diferente. O Manchester City já mostrou isso. O Real Madrid também. Profundidade é o novo ouro.
Eze é exatamente isso para o Arsenal: um jogador de rotação de altíssimo nível, é claro que dá para pontuar essa questão pelo momento, futuramente pode se tornar um titular. Segundo os próprios dados da SciSports, ele é classificado como peça de rotação de qualidade premium para o elenco dos Gunners.
À frente dele no setor mais ofensivo estão Martin Odegaard e Kai Havertz. Mais atrás, Declan Rice e Martin Zubimendi têm avaliações superiores. Mikel Merino é mais especialista na função. Ou seja: Eze está num elenco recheado de gente grande.
Isso não o torna dispensável. Torna o Arsenal mais forte.
E as conversas sobre saída?
Nas últimas semanas, surgiram rumores de possível saída por conta da falta de “impacto imediato”. Mas internamente, o clube não trabalha com essa ideia. E faz sentido, e sinceramente, muito menos o jogador, que já deixou claro que está atuando no time do seu coração.
Em uma temporada longa, com calendário apertado, lesões inevitáveis e pressão constante, ter um jogador que mantém nível alto, entrega intensidade, progressão de bola e criatividade é vital. Nem todo mundo precisa ser o protagonista. Alguns são fundamentais exatamente por manterem o padrão quando entram.
Eze começou apenas seis dos últimos 11 jogos. E mesmo assim, seus números por 90 minutos permanecem consistentes. Isso não é desempenho de passageiro. É desempenho de peça estratégica.
Menos hype, mais entendimento de jogo
Eberechi Eze pode não estar empilhando gols como um artilheiro. Pode não ter feito a estreia cinematográfica que alguns esperavam. Mas está entregando exatamente o que um elenco que sonha com título precisa: versatilidade, qualidade técnica, retenção de bola, capacidade de quebra de linhas e intensidade defensiva, sem esquecer também, da capacidade de mudar os jogos de uma hora para outra.
No futebol atual, isso vale ouro. Se €69 milhões compraram um jogador que melhora o nível do elenco, mantém padrão competitivo e ainda pode crescer dentro da temporada, isso está longe de ser flop. Pode não ser manchete toda semana. Mas é peça de time que quer ser campeão.
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