Edin Dzeko chega à Copa do Mundo de 2026 como uma verdadeira raridade do futebol moderno. Em uma época em que carreiras cada vez mais exigentes derrubam atletas fisicamente antes dos 35 anos, o atacante bósnio segue competindo no mais alto nível aos 40 anos. E não estamos falando de um veterano que ocupa espaço no banco de reservas ou entra apenas nos minutos finais. Dzeko continua sendo protagonista.
Capitão da seleção da Bósnia e Herzegovina, referência técnica do elenco e recém-campeão da segunda divisão alemã com o Schalke 04, o atacante chega ao Mundial vivendo um daqueles roteiros que parecem improváveis até para o cinema esportivo. O próprio jogador admite que jamais imaginou estar nesta situação.
Aos 40 anos, Dzeko não apenas continua jogando. Ele segue marcando gols, liderando equipes e carregando o peso de representar um país inteiro em sua segunda participação em Copas do Mundo. Para um atleta que já conquistou títulos na Inglaterra, brilhou na Alemanha, foi artilheiro na Itália e marcou mais de 450 gols na carreira, seria compreensível imaginar que ele estivesse curtindo a aposentadoria em alguma praia europeia. Mas aparentemente o centroavante ainda não recebeu esse memorando.
O segredo para continuar competindo entre os melhores
Quando questionado sobre sua longevidade, Dzeko não fala sobre genética privilegiada ou fórmulas milagrosas. A resposta é bem mais simples: trabalho.
O atacante revelou que hoje dedica praticamente até duas horas extras por dia para prevenção física. Exercícios antes dos treinos, fortalecimento muscular, recuperação pós-atividade e uma atenção constante ao próprio corpo fazem parte da rotina.
É um contraste enorme em relação ao jovem que surgiu no Zeljeznicar e que, segundo diversas histórias do futebol bósnio, nem era visto como uma grande promessa. Na época, alguns dirigentes chegaram a acreditar que haviam feito um excelente negócio ao vendê-lo para o Teplice, da República Tcheca, em 2005.
Se alguém pudesse voltar no tempo e contar que aquele garoto se transformaria em campeão inglês pelo Manchester City, artilheiro da Bundesliga, artilheiro da Serie A e maior goleador da história da Bósnia, provavelmente seria chamado de maluco.
Dzeko soma 73 gols pela seleção nacional. Para colocar esse número em perspectiva, o segundo maior artilheiro da história da Bósnia possui apenas 28. A diferença é tão grande que parece uma estatística criada em modo carreira de videogame.
Além disso, ele conquistou duas Premier Leagues com o Manchester City, foi peça importante em clubes como Wolfsburg, Roma, Inter de Milão e Fiorentina, construindo uma trajetória respeitada em praticamente todos os lugares por onde passou.
De quase esquecido na Fiorentina ao herói do Schalke
Curiosamente, o roteiro da temporada não indicava que Dzeko chegaria tão fortalecido para a Copa.
Na Fiorentina, o atacante atravessou um período complicado. Foram 11 partidas sem marcar, perda de espaço no elenco e uma sensação crescente de que sua trajetória estava chegando ao fim. O próprio jogador admite que não estava feliz. A mudança para o Schalke, em janeiro, alterou completamente o cenário.
Buscando mais minutos em campo para chegar em forma ao Mundial, Dzeko encontrou muito mais do que isso. Sob o comando de Miron Muslic, também bósnio, ajudou o tradicional clube alemão a conquistar o título da segunda divisão e retornar à Bundesliga.
Em apenas 11 jogos, marcou seis gols e rapidamente se transformou em uma das lideranças da equipe.
O desempenho foi tão positivo que o Schalke já trabalha para renovar seu contrato e oferecer ao atacante mais uma temporada na elite alemã.
Seria um retorno simbólico. Afinal, foi justamente na Bundesliga que Dzeko viveu alguns dos melhores momentos da carreira, incluindo o histórico título conquistado pelo Wolfsburg em 2009.
Dzeko e sua última missão com a camisa da Bósnia
Apesar da possibilidade de seguir atuando em clubes, o grande foco de Dzeko neste momento é a Copa do Mundo.
Ele já disputou um Mundial anteriormente, em 2014, no Brasil. Naquela edição, marcou presença em um grupo que enfrentou a Argentina no Maracanã, mas a Bósnia acabou sendo eliminada ainda na primeira fase. Doze anos depois, surge uma nova oportunidade.
A classificação para a Copa de 2026 já foi uma história digna de filme. A seleção bósnia estava praticamente eliminada até Dzeko marcar um gol decisivo contra o País de Gales nos minutos finais. Depois vieram os playoffs e uma surpreendente eliminação da Itália nos pênaltis.
Agora, a equipe encara Suíça, Canadá e Catar na fase de grupos. Dzeko sabe que sua função vai muito além dos gols. Como capitão e atleta mais experiente do elenco, ele assume a responsabilidade de orientar uma geração cheia de jovens talentos, como Tarik Muharemovic e Kerim Alajbegovic.
Talvez seja justamente esse o papel mais importante de sua carreira neste momento. Mais do que marcar gols, Dzeko tenta deixar um legado. Aos 40 anos, ele sabe que o fim está próximo. O próprio atacante admite isso sem qualquer drama.
Mas enquanto esse momento não chega, uma das carreiras mais improváveis e inspiradoras do futebol europeu continua escrevendo capítulos. E se existe um palco ideal para uma última dança, certamente é a Copa do Mundo
Foto: Getty Images.