A eliminação da Alemanha para o Paraguai nas 16 avos de final da Copa do Mundo não pode ser resumida apenas pela derrota nos pênaltis. Durante praticamente toda a partida, a seleção alemã teve mais posse de bola, criou volume ofensivo e passou boa parte do tempo instalada no campo adversário. Ainda assim, encontrou enormes dificuldades para transformar esse domínio em oportunidades claras e acabou pagando caro pela falta de criatividade em momentos decisivos.
Ao mesmo tempo, o Paraguai mostrou exatamente o perfil de uma equipe preparada para competir em jogos de mata-mata. Bem organizada defensivamente, eficiente quando teve oportunidades e contando com grandes atuações individuais, a seleção sul-americana suportou a pressão durante 120 minutos e conquistou uma classificação histórica.
A partida deixou algumas impressões importantes tanto para explicar a queda alemã quanto para projetar o futuro do Paraguai na competição.
A Alemanha insistiu em jogadores que não entregaram o esperado

Uma das principais explicações para a eliminação passa pelas escolhas ofensivas da equipe alemã.
Deniz Undav chegou ao mata-mata vivendo o melhor momento entre os reservas da seleção. Contra Curaçao, entrou no segundo tempo e participou diretamente de três gols, distribuindo duas assistências e marcando uma vez. Diante da Costa do Marfim voltou a sair do banco para marcar dois gols.
O bom desempenho lhe garantiu sua primeira oportunidade como titular justamente diante do Paraguai.
A resposta, porém, ficou muito abaixo da expectativa.
Durante os 63 minutos em que permaneceu em campo, Undav participou muito pouco das ações ofensivas. Foram apenas nove ações com a bola, cinco perdas de posse, somente um chute sem perigo ao gol adversário e apenas três passes certos.
O desempenho mostra que o atacante não conseguiu repetir, desde o início da partida, o mesmo impacto que vinha causando quando entrava diante de defesas já desgastadas.
Outro jogador que voltou a decepcionar foi Leroy Sané.
A Copa do Mundo do atacante vinha sendo discreta desde a fase de grupos. Nas duas vitórias iniciais da Alemanha, a equipe marcou nove gols, mas Sané não participou diretamente de nenhum deles. Contra o Equador marcou uma vez, porém também teve atuação apagada na derrota por 2 a 1.
Diante do Paraguai, quando a Alemanha precisava de alguém capaz de desequilibrar individualmente uma defesa muito compacta, Sané novamente não correspondeu.
O atacante tentou sete dribles e não completou nenhum. Finalizou apenas uma vez e perdeu a posse da bola em 23 oportunidades.
Em um jogo que exigia criatividade e capacidade de vencer duelos individuais, a insistência em Sané acabou limitando bastante o poder ofensivo alemão.
Wirtz e Musiala mostraram que precisavam jogar mais tempo juntos

Se alguns jogadores ficaram devendo, outros reforçaram a impressão de que poderiam ter sido utilizados de maneira diferente.
Florian Wirtz foi, durante praticamente toda a partida, o principal responsável por tentar encontrar espaços na defesa do Paraguai.
Foi dele a assistência para o gol de Kai Havertz, além de uma atuação extremamente participativa. O meia terminou o jogo com 115 ações com a bola, 49 passes certos no campo ofensivo e quatro passes decisivos, sendo o jogador que mais tentou criar oportunidades para seus companheiros.
Já Jamal Musiala entrou apenas aos 63 minutos.
Sua presença mudou imediatamente o comportamento ofensivo da Alemanha.
O meia passou a encontrar passes pelo centro, conduziu a bola com muito mais precisão e conseguiu quebrar linhas através dos dribles, algo que faltava até então à equipe. Após a saída de Sané, ainda passou a atuar pelo lado direito e mostrou muito mais capacidade de desequilíbrio individual.
A sensação deixada pelo confronto é que a Alemanha perdeu muito tempo mantendo uma estrutura ofensiva pouco produtiva enquanto seus dois jogadores mais criativos dividiram poucos minutos em campo.
Em partidas eliminatórias decididas nos detalhes, esse tipo de escolha costuma fazer diferença.
A força defensiva faz o Paraguai sonhar ainda mais alto

Enquanto a Alemanha não conseguiu transformar posse em eficiência, o Paraguai executou praticamente à perfeição seu plano de jogo.
Mesmo enfrentando uma das seleções mais tradicionais da história das Copas do Mundo, a equipe sul-americana mostrou enorme organização defensiva e contou com atuações individuais de altíssimo nível.
O principal destaque foi Orlando Gill.
Além de realizar seis defesas importantes durante os 120 minutos, o goleiro brilhou na disputa por pênaltis ao defender duas cobranças alemãs e se tornar o grande responsável pela classificação.
Na defesa, Canale também teve atuação praticamente impecável.
O zagueiro venceu todos os cinco desarmes que tentou durante a partida e ainda converteu o pênalti decisivo que colocou o Paraguai nas oitavas de final.
Bobadilla foi outro jogador fundamental.
De volta ao time titular, comandou o meio-campo defensivamente com três interceptações e oito cortes. Sua participação foi decisiva inclusive no lance do primeiro gol. Depois que a Alemanha afastou um escanteio e tentava iniciar um contra-ataque, foi Bobadilla quem recuperou a posse. Poucos segundos depois, Galarza cruzou para Enciso abrir o placar.
Galarza também realizou uma partida muito completa.
Além da assistência para o gol, terminou o confronto com dez recuperações de bola, demonstrando intensidade tanto na marcação quanto no apoio ofensivo.
Esse conjunto explica por que o Paraguai conseguiu suportar a enorme pressão alemã durante toda a partida.
Agora, diante do vencedor entre França e Suécia, a seleção sul-americana chega novamente sem o peso do favoritismo, mas com uma confiança enorme construída por sua organização coletiva. Se repetir o mesmo nível defensivo apresentado contra a Alemanha e continuar contando com atuações individuais tão sólidas, o Paraguai tem condições de dificultar bastante a vida de qualquer adversário.
A classificação histórica não aconteceu apenas por causa dos pênaltis. Ela foi construída durante os 120 minutos, através de disciplina tática, eficiência defensiva e jogadores que souberam aparecer nos momentos decisivos. Já para a Alemanha, a eliminação reforça que controlar a posse de bola não basta quando faltam criatividade, poder de decisão e escolhas capazes de potencializar os atletas mais talentosos do elenco.
(Foto de capa: FIFA)