A Copa do Mundo nunca teve tantos técnicos de elite comandando seleções ao mesmo tempo, e essa “invasão de estrelas da prancheta” já está mudando a forma como o futebol de seleções é jogado e possivelmente como ele será nos próximos anos.
Depois da vitória da Inglaterra por 4 a 2 sobre a Croácia na estreia, o técnico Thomas Tuchel deixou o campo cercado por entrevistas, câmeras e perguntas. No meio disso tudo, encontrou um rosto conhecido: Jürgen Klopp, ex-Liverpool e agora comentarista na televisão alemã.
O abraço entre os dois alemães virou quase uma fotografia simbólica desta Copa: técnicos de altíssimo nível não estão mais só nos bastidores. Eles estão no centro do espetáculo. E, mais do que isso, estão moldando diretamente o rumo do torneio.
A Copa virou também um jogo de gigantes na beira do campo
O que se vê nesta edição do Mundial é algo raro na história recente: seleções comandadas por treinadores com currículo de elite de clubes gigantes da Europa.
Tuchel na Inglaterra é só o começo.
Carlo Ancelotti, no comando do Brasil, parece ter trazido a mesma tranquilidade que mostrava no Real Madrid sem pressa, sem pânico e com ajustes cirúrgicos que já começam a aparecer em jogos grandes.
Mauricio Pochettino, à frente dos Estados Unidos, levou a seleção a um nível de consistência raramente visto na história recente do país, com organização tática e um time que parece saber exatamente o que fazer em campo.
Julian Nagelsmann, ainda jovem mas extremamente respeitado, recolocou a Alemanha em modo competitivo com uma sequência impressionante de vitórias, combinando intensidade e controle como poucos conseguem.
E isso sem falar em Lionel Scaloni e Didier Deschamps, que mesmo sem o histórico recente de clubes, já têm status de elite absoluta por terem transformado suas seleções em máquinas de decisão e, no caso dos dois, com títulos de Copa do Mundo no currículo.
Não é só nome: é impacto direto dentro de campo
O diferencial desses treinadores não está apenas no currículo. Está nas decisões.
Tuchel, por exemplo, foi questionado por suas escolhas iniciais na Inglaterra. Mas rapidamente as críticas deram lugar a elogios após o time encaixar contra a Croácia. Jude Bellingham ganhou liberdade tática, Harry Kane passou a ter mais conexões ofensivas, e nomes como Noni Madueke e Marcus Rashford trouxeram profundidade e velocidade ao ataque.
Do outro lado, a Inglaterra que parecia “experimental demais” virou uma das equipes mais equilibradas da competição.
Ancelotti, por sua vez, também precisou ajustar o Brasil após um início irregular. A entrada de Matheus Cunha mudou o ritmo ofensivo, enquanto Vinícius Júnior passou a atuar com mais liberdade entre linhas, aparecendo mais no jogo e decidindo partidas.
Resultado: menos ansiedade, mais controle e um time que começa a parecer cada vez mais competitivo em cenário de mata-mata.
Pochettino e Nagelsmann também mudam o patamar de suas seleções
Nos Estados Unidos, Pochettino conseguiu algo que parecia distante há pouco tempo: dar identidade real à equipe.
O time norte-americano passou a competir em alto nível contra seleções tradicionais e já mostrou maturidade tática em jogos grandes, algo que historicamente sempre foi um problema.
Já Nagelsmann trouxe para a Alemanha exatamente o que se esperava dele desde os tempos de Bayern: intensidade organizada, variação ofensiva e um time que ataca com muitos jogadores ao mesmo tempo, mas sem perder estrutura.
O resultado é uma Alemanha mais viva e novamente perigosa.
A era dos técnicos “de clube” na seleção
Durante muito tempo, a Copa do Mundo foi dominada por técnicos de seleções nacionais ou nomes menos midiáticos.
Isso acontecia por um motivo simples: os melhores técnicos do mundo estavam nos clubes, onde havia dinheiro, estrutura e controle diário de trabalho.
Seleções, por outro lado, tinham pouco tempo de treino e menos atratividade financeira.
Agora, esse cenário parece ter mudado.
Clubes gigantes já não são a única vitrine de prestígio. A Copa do Mundo virou também um palco onde treinadores de elite querem deixar legado e não apenas trabalhar entre transferências e temporadas longas.
E isso pode não ser só uma fase
A grande questão que surge agora é se isso é apenas um momento específico desta Copa ou o início de uma tendência.
Com nomes como Klopp, Guardiola e Zidane sendo constantemente associados a seleções no futuro, o futebol pode estar entrando em uma nova era: a dos técnicos de elite migrando definitivamente para o cenário internacional.
Klopp já aparece como possível nome futuro para a Alemanha. Guardiola, que nunca escondeu o interesse por seleções, também entra em qualquer lista de especulação de alto nível. Zidane, por sua vez, é visto como praticamente natural para assumir a França após a era Deschamps.
Se isso acontecer, o nível da disputa em Copas do Mundo pode subir ainda mais.
Uma Copa decidida também na beira do campo
O que já ficou claro nesta edição é simples: não se trata apenas de talento dentro de campo.
A diferença entre ganhar e perder agora também passa pela prancheta. E quando seleções contam com nomes como Tuchel, Ancelotti, Nagelsmann e Pochettino, cada ajuste tático pesa mais do que nunca.
No fim, talvez esta Copa do Mundo não esteja apenas coroando uma seleção campeã.
Talvez esteja também marcando o início de uma nova era em que os maiores jogos do mundo começam muito antes do apito inicial. E, cada vez mais, terminam no banco de reservas.
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