Bernardo Silva
Futebol La Liga UEFA Champions League

Bernardo Silva passa no teste de Mourinho e ganha espaço no meio-campo do Real Madrid

Bernardo Silva começou a mostrar por que José Mourinho decidiu apostar nele para a nova temporada do Real Madrid. Em sua primeira titularidade desde que chegou ao clube espanhol, o português recebeu uma missão diferente daquela que costuma exercer: atuar como volante em um meio-campo com poucas opções para a posição. E, apesar de não ter produzido uma atuação espetacular, passou no teste com tranquilidade.

Aos 32 anos, Bernardo já conhece praticamente todos os caminhos possíveis de um campo de futebol. Meia, ponta, interior, armador e, agora, volante. A versatilidade virou uma das principais armas do português, especialmente em um elenco que ainda precisa encontrar sua formação ideal. Contra o Deportivo, Mourinho decidiu explorar justamente essa característica.

O treinador colocou Bernardo ao lado de Eduardo Camavinga em um duplo pivô. A ideia era simples: garantir controle da posse e qualidade na saída de bola sem abrir mão da capacidade técnica do português. O resultado foi bastante positivo, principalmente quando se olha para os números.

Bernardo Silva começa como volante

Bernardo Silva terminou o primeiro tempo com 40 passes certos em 40 tentativas, além de três recuperações de bola e nenhum erro que resultasse em perda de posse. Não são números que fazem alguém disputar imediatamente a Bola de Ouro, mas dizem muito sobre o que Mourinho queria daquela atuação.

O português não precisou inventar jogadas a todo momento. Sua principal função era oferecer uma opção segura para os companheiros, acelerar a circulação quando necessário e ajudar o Real Madrid a controlar o ritmo da partida. E foi exatamente isso que ele fez.

A escolha também mostra uma preocupação clara do treinador. O Real Madrid tem qualidade no meio-campo, mas não conta com uma quantidade enorme de jogadores especializados na função de primeiro homem. Mourinho, então, parece disposto a procurar soluções dentro do próprio elenco antes de pedir reforços à diretoria.

Bernardo não tem o perfil físico de Rodri, tampouco é um volante clássico daqueles que passam boa parte do jogo protegendo a frente da zaga. Mas oferece algo que pode ser ainda mais importante para o modelo de Mourinho: inteligência para ocupar espaços e qualidade para fazer a bola andar.

Mourinho mudou o desenho no segundo tempo

Se o primeiro tempo serviu como uma espécie de prova para Bernardo Silva na função de volante, a segunda etapa mostrou como Mourinho pode utilizar o português quando quiser aproveitar ainda mais suas características ofensivas.

O treinador mudou o desenho para um 4-4-2, colocando mais um meio-campista na base. Valverde e Camavinga passaram a dividir a responsabilidade pelo setor central, enquanto Dumfries ocupou o lado direito. Bernardo foi deslocado para a faixa esquerda e ganhou liberdade para se aproximar da área adversária.

A diferença foi perceptível.

Mais solto, o português passou a aparecer com maior frequência no campo ofensivo, participando mais das construções e procurando espaços entre as linhas. Afinal, é justamente nessa região que Bernardo costuma fazer sua melhor versão aparecer.

A mudança também serviu para Mourinho testar uma possibilidade importante: Bernardo pode começar como volante e terminar praticamente como meia-atacante sem que o treinador precise fazer uma substituição.

Para um técnico que gosta de alterar a estrutura durante os jogos, ter um jogador capaz de acompanhar essas mudanças é praticamente um presente.

Novo “coringa” de Mourinho?

A polivalência de Bernardo Silva não é exatamente uma novidade. Durante sua passagem pelo Manchester City, o português já atuou em diferentes posições e chegou a ser utilizado até em funções mais recuadas por Pep Guardiola.

No Real Madrid, porém, essa característica pode ganhar uma importância ainda maior.

Mourinho encontrou um elenco com várias opções para o meio, mas nem todas apresentam o mesmo perfil. Tchouaméni pode oferecer força física e proteção defensiva. Camavinga combina intensidade e capacidade de condução. Valverde entrega força, velocidade e chegada à área. Arda Güler acrescenta criatividade.

Bernardo, por sua vez, pode fazer um pouco de tudo. E essa é justamente a graça e talvez o problema de ter um jogador tão versátil. Quando alguém consegue atuar em praticamente qualquer lugar, existe sempre a tentação de colocá-lo onde existe uma vaga.

No caso de Mourinho, isso pode significar um Bernardo mais recuado em determinados jogos e mais avançado em outros.

Real Madrid não deve buscar outro volante

A situação do mercado da bola também ajuda a explicar por que Bernardo Silva ganhou tanta importância tão rapidamente.

O Real Madrid não pretende buscar um novo meio-campista especificamente para a função de volante. A ideia do clube é trabalhar com as opções disponíveis e encontrar a melhor combinação dentro do próprio elenco.

Uma exceção poderia acontecer caso Camavinga receba uma proposta considerada interessante e o francês aceite deixar o clube. Nesse cenário, a diretoria poderia voltar ao mercado para repor a posição.

Enquanto isso não acontece, Mourinho precisa encontrar soluções internamente. E Bernardo aparece como um dos candidatos mais interessantes para formar a base do 4-2-3-1 que o treinador pretende utilizar.

O português já mostrou que pode executar a função sem comprometer a circulação de bola. Agora, resta saber se consegue fazer isso contra adversários mais fortes, especialmente em partidas nas quais o Real Madrid será obrigado a defender por longos períodos.

Porque acertar 40 de 40 passes contra o Deportivo é uma coisa. Fazer o mesmo quando o adversário estiver pressionando a saída de bola do Real Madrid em um jogo de Champions League é outra história.

Quem pode jogar ao lado de Bernardo?

A disputa pela outra vaga no duplo pivô promete ser interessante. Camavinga foi o primeiro parceiro escolhido por Mourinho, mas está longe de ser a única alternativa.

Federico Valverde aparece como uma opção natural pela intensidade e capacidade de percorrer grandes distâncias. O uruguaio também pode avançar quando necessário, algo que combina com um sistema no qual Bernardo teria liberdade para alternar sua posição.

Tchouaméni é outra possibilidade. Mais físico e defensivo, o francês poderia assumir a função de proteger a defesa enquanto Bernardo se encarregaria de organizar a saída de bola. Seria uma combinação de características bastante diferente daquela formada por Bernardo e Camavinga.

Até Thiago pode entrar na equação, dependendo das escolhas de Mourinho e do momento da temporada. E existe ainda uma alternativa mais ousada: Arda Güler.

O turco não é exatamente o jogador que alguém escolheria para proteger a defesa, mas sua capacidade técnica poderia permitir ao Real Madrid controlar a bola por mais tempo e empurrar o adversário para trás.

Mourinho, portanto, tem algumas peças para montar esse quebra-cabeça.

Bernardo pode ter encontrado uma nova casa

A grande questão agora é se o duplo pivô será apenas uma solução emergencial ou se Bernardo Silva realmente ganhou uma nova função no Real Madrid.

Ainda é cedo para cravar qualquer coisa. Afinal, foi apenas sua primeira titularidade e a temporada está apenas começando. Mas o desempenho foi suficiente para colocar uma pulga atrás da orelha de Mourinho: talvez o português seja uma solução melhor do que parecia para uma posição que preocupava o treinador.

Bernardo não precisa ser Rodri para funcionar como volante. Pode compensar a falta de características físicas com leitura de jogo, técnica e inteligência posicional. E, quando o time precisar atacar, ainda existe a possibilidade de avançá-lo e aproveitar toda sua criatividade.

O treinador ganhou um jogador que pode mudar de função sem mudar de nível. Para Bernardo, por outro lado, existe a oportunidade de provar que sua carreira ainda pode ganhar novos capítulos, mesmo aos 32 anos.

Por enquanto, o português passou no primeiro exame. E, pelo jeito, Mourinho já está pensando em deixá-lo fazer a prova final.

Foto: Reprodução/Real Madrid