Elversberg. Há pouco mais de quatro anos, esse era um nome associado às ligas regionais do futebol alemão, algo bem longe dos holofotes. Hoje, porém, o cenário é completamente diferente: o pequeno clube chegou à Bundesliga, venceu seus dois primeiros jogos na elite e aparece acima do poderoso Bayern de Munique na tabela. Sim, o futebol alemão resolveu entregar uma daquelas histórias que parecem ter saído diretamente do modo carreira ou da série do Ted Lasso, pode escolher.
Neste domingo, o Elversberg terá mais um capítulo especial pela frente. O clube recebe o Bayern no Waldstadion an der Kaiserlinde (sim, escrevi sem ver no Google sim), estádio que atualmente comporta cerca de 10 mil pessoas e passa por reformas para ampliar sua capacidade para 15 mil. Um número curioso, principalmente quando se considera que o município de Spiesen-Elversberg, localizado perto de Saarbrücken, tem aproximadamente 13 mil habitantes.
Ou seja, em breve, o estádio poderá receber praticamente toda a cidade. E provavelmente ainda vai sobrar gente querendo assistir ao Bayern.
Ascensão que parecia improvável
A trajetória recente do Elversberg é impressionante. Em 2022, o clube conquistou o primeiro lugar da Regionalliga Südwest, simplesmente o quarto escalão do sistema de ligas de futebol da Alemanha e iniciou uma sequência de crescimento que mudaria completamente sua realidade. Na temporada 2022/23, conseguiu mais um acesso e chegou pela primeira vez à 2. Bundesliga.
A caminhada até a elite, no entanto, teve seus momentos dolorosos. Na temporada 2024/25, o Elversberg ficou muito perto da Bundesliga, mas acabou derrotado pelo Heidenheim no playoff de acesso, perdendo por 4 a 3 no placar agregado.
A frustração não derrubou o clube. Um ano depois, o time voltou ainda mais forte e terminou a 2. Bundesliga na segunda colocação, atrás apenas do Schalke. A equipe superou o Paderborn no saldo de gols e garantiu o acesso direto à principal divisão do futebol alemão.
Para um clube que recentemente estava nas ligas regionais, o salto já seria gigantesco apenas por disputar a Bundesliga. Mas o Elversberg decidiu não parar por aí.
Começo de Bundesliga para ninguém colocar defeito
A estreia do Elversberg na primeira divisão já deixou claro que o time não pretendia entrar em campo apenas para sobreviver. Logo no primeiro jogo, diante do Bayer Leverkusen, campeão alemão apenas dois anos antes, os estreantes abriram 2 a 0 em apenas nove minutos.
Lukas Petkov e Cole Campbell marcaram os primeiros gols, enquanto David Mokwa ampliou a vantagem no início do segundo tempo.
O Leverkusen, obviamente, não aceitou o papel de figurante. Patrik Schick diminuiu, Christian Kofane marcou nos acréscimos e o fim da partida virou um verdadeiro teste para os nervos dos torcedores da casa. Mas o Elversberg segurou a pressão e conquistou sua primeira vitória na Bundesliga.
Se alguém achou que aquilo tinha sido apenas uma surpresa isolada, o segundo jogo tratou de aumentar ainda mais o barulho.
Virada de cinema contra o Gladbach
Na primeira partida fora de casa, contra o Borussia Mönchengladbach, o Elversberg parecia finalmente estar recebendo o choque de realidade esperado para um recém-promovido.
Aos 56 minutos, a equipe perdia por 3 a 1 no Borussia-Park. Era aquele momento em que muitos poderiam imaginar que a festa tinha acabado. A Bundesliga é outro nível, o adversário tinha tradição e o estreante parecia prestes a descobrir isso da maneira mais dura possível.
Só que o time não quis colaborar com o roteiro. Maurice Krattenmacher diminuiu a diferença, Felix Keidel empatou e, já nos acréscimos, Krattenmacher apareceu novamente para marcar o gol da vitória. Resultado: 4 a 3 e mais uma noite histórica para o Elversberg.
Com os dois triunfos, o clube se tornou apenas o sexto time, desconsiderando a temporada inaugural da Bundesliga, a vencer seus dois primeiros jogos na competição. Também é apenas o segundo a conseguir esse feito desde o início do século. E, após duas rodadas, o Elversberg ainda mantém 100% de aproveitamento.
Pequeno clube acima do Bayern
A situação na tabela deixa a história ainda mais curiosa. Os Alvinegros aparecem acima do Bayern de Munique depois de duas rodadas. Enquanto o recém-chegado venceu seus dois compromissos, o atual campeão tropeçou em um empate sem gols contra o Schalke.
Claro, ainda existem 32 jogos pela frente e ninguém no Elversberg deve estar encomendando a faixa de campeão alemão. Mas poder olhar para a tabela e encontrar seu clube acima do Bayern já é uma recompensa considerável para uma torcida que, poucos anos atrás, acompanhava partidas nas divisões regionais.
Agora, o próprio Bayern será o próximo adversário.
A equipe comandada por Vincent Kompany chega ao pequeno estádio de Spiesen-Elversberg determinada a deixar o empate da rodada passada para trás. Para os donos da casa, será provavelmente o maior teste desde a chegada à elite. E também mais uma oportunidade de mostrar que a ascensão não aconteceu por acidente.
Jovens talentos fazem parte da receita do Elversberg
Uma das principais características do Elversberg nos últimos anos tem sido a capacidade de identificar e desenvolver jogadores jovens.
Alguns nomes passaram pelo clube antes de ganhar mais espaço no futebol alemão. Nick Woltemade, por exemplo, atuou por empréstimo no Elversberg durante a temporada 2022/23, cedido pelo Werder Bremen.
Fisnik Asllani também passou pela equipe antes de ganhar destaque no Hoffenheim. Outro caso importante foi Younes Ebnoutalib. O atacante viveu um grande momento no Elversberg na primeira metade da temporada passada, marcando 12 gols em apenas 17 jogos da liga antes de se transferir para o Eintracht Frankfurt.
Mesmo com sua saída, o clube conseguiu manter o desempenho e seguir firme na luta pelo acesso.
A estratégia continua sendo utilizada agora na Bundesliga. Jovens como Cole Campbell, David Mokwa e Francis Onyeka vêm encontrando espaço, enquanto jogadores mais experientes ajudam a manter o equilíbrio do elenco.
Elversberg não gosta de ficar parado
Os números da última temporada da 2. Bundesliga ajudam a explicar por que o Elversberg conseguiu chegar à elite. A equipe marcou 64 gols, o maior número da competição, com um xG de 64,8. Defensivamente, sofreu apenas 39 gols, número próximo ao xG contra de 39,5, o segundo menor da divisão.
Ou seja, não foi uma campanha construída apenas na base da sorte ou de resultados improváveis.
O Elversberg apresentou equilíbrio. O time também se destacou pela capacidade de fazer a bola avançar. Apesar de ter tentado o menor número de passes longos da 2. Bundesliga, com 1.537, foi uma das equipes que mais realizou passes progressivos: 979, atrás apenas do Magdeburg.
Além disso, nenhum clube conseguiu mais passes em profundidade certos do que os 29 do Elversberg.
Nas bolas paradas, outro ponto forte. Foram 10 gols marcados após escanteios, ficando atrás apenas do Darmstadt, e apenas quatro sofridos nesse tipo de jogada. É um time que sabe atacar, mas que não depende apenas de uma única maneira para chegar ao gol.
Vincent Wagner e a coragem como filosofia
Grande parte da identidade atual do Elversberg passa pelo técnico Vincent Wagner.
O treinador chegou ao clube em junho de 2025 e, logo em sua primeira temporada, conseguiu conduzir a equipe até a Bundesliga. Antes de assumir o time, Wagner trabalhava no Hoffenheim, onde comandou a equipe reserva.
Sua filosofia combina perfeitamente com o projeto do Elversberg: futebol ofensivo, coragem para atacar e espaço para o desenvolvimento dos jogadores.
A postura do treinador pode ser resumida em uma declaração recente. Wagner afirmou que prefere perder por 4 a 0 jogando com coragem do que ficar completamente recuado e acabar derrotado por 1 a 0. E o início da Bundesliga mostra bem essa mentalidade.
O Elversberg marcou sete gols em apenas duas partidas, estabelecendo um recorde para uma equipe recém-promovida nos dois primeiros jogos de uma temporada. Por outro lado, também sofreu cinco.
Não existe muito espaço para o famoso “jogo seguro”.
Ataque que divide responsabilidades
Outro aspecto interessante do Elversberg é a distribuição de gols.
Mesmo tendo sido o melhor ataque da 2. Bundesliga na temporada passada, o clube não teve nenhum jogador entre os nove principais artilheiros da competição. O maior goleador da equipe foi Lukas Petkov, com 13 gols.
O funcionamento coletivo parece ser mais importante do que encontrar um único protagonista. Essa característica também ajuda a explicar a capacidade do clube de sobreviver à saída de jogadores importantes. Quando uma peça deixa o elenco, o sistema continua funcionando e outros atletas encontram espaço para assumir responsabilidades.
Ao mesmo tempo, o Elversberg mantém jogadores que conhecem profundamente a trajetória recente do clube.
Luca Schnellbacher está na equipe desde 2020 e acompanhou a caminhada desde as divisões regionais. O goleiro Nicolas Kristof chegou em 2021 e também viveu praticamente toda a escalada até a Bundesliga.
É uma mistura interessante entre quem ajudou a construir o caminho e quem chegou depois para elevar o nível.
Agora, o desafio é contra o Bayern
O conto de fadas do Elversberg ainda está apenas começando. Duas vitórias não garantem permanência na Bundesliga, muito menos transformam automaticamente o pequeno clube em candidato a grandes feitos. O campeonato é longo, os adversários serão cada vez mais preparados e a própria proposta ofensiva da equipe pode trazer problemas defensivos.
Mas, independentemente do que acontecer contra o Bayern de Munique, o Elversberg já mostrou que não pretende passar despercebido.
Poucos anos atrás, o clube estava fora do radar do grande futebol alemão. Agora, recebe um dos maiores times do planeta em sua própria casa e entra na rodada olhando o Bayern de cima na tabela. Spiesen-Elversberg pode ser uma cidade pequena e tranquila. Seu clube, porém, está fazendo um barulho interessante de ser visto.
Foto: Divulgação/Elversberg



