Nas entrevistas pós-jogo, o técnico do Aston Villa, Unai Emery, costuma demonstrar educação, serenidade e controle… mas a postura à beira do campo nem sempre reflete esse comportamento. Contra o Brighton, na quarta-feira, com o time perdendo por 2 a 0 em apenas 30 minutos, o espanhol parecia um verdadeiro vulcão: gesticulava, gritava e demonstrava tanta frustração com o desempenho da equipe que mal conseguiu conduzir adequadamente sua palestra no intervalo. “Eu sabia que ele tinha gritado muito”, contou o atacante Ollie Watkins ao Match of the Day, da BBC. “Não dava para ouvi-lo lá dentro de campo, mas a voz dele praticamente sumiu”.
No entanto, essa presença intensa de Emery à beira do gramado tem um propósito claro — e ela tem sido parte fundamental da guinada do Aston Villa na temporada. Sem dúvida, também ajudou na virada histórica sobre o Brighton, que terminou em 4 a 3 e projetou o time para a terceira posição da Premier League, com 27 pontos. “Ele é extremamente apaixonado, e é por isso que estamos indo tão bem. Ele é muito exigente”, reforçou Watkins. “Agora que estamos vivendo uma boa fase, ele nos cobra ainda mais. Não há elogios suficientes para descrevê-lo”.
Após cinco rodadas, o Aston Villa ocupava a zona de rebaixamento. Apenas nove jogos depois, já estava entre os times que disputam vaga na UEFA Champions League. A equipe se prepara para enfrentar o Arsenal no sábado, consciente de que uma vitória reduziria para três pontos a distância para os líderes. Paralelamente, os Lions mantêm 100% de aproveitamento na fase de grupos da Europa League, ao lado de Lyon e Midtjylland, ambos com quatro vitórias em quatro jogos — e mirando uma vaga direta nas oitavas.
Um dos maiores méritos de Emery em Birmingham tem sido encontrar respostas rápidas para situações adversas. Nos primeiros quatro jogos, o Villa não marcou nenhum gol — o que alimentou dúvidas sobre se o treinador teria atingido seu limite com o elenco. Porém, nos 16 confrontos seguintes, deixou de marcar apenas uma vez. Mais recentemente, levantou-se a hipótese de que o time dependia excessivamente de chutes de longa distância, mas diante do Brighton todos os quatro gols vieram de dentro da área.
A capacidade de adaptação e reinvenção transformou o Aston Villa no time mais consistente da Premier League nos últimos 10 jogos: foram oito vitórias e 25 pontos somados. O triunfo de quarta-feira representou ainda a 62ª vitória de Emery no comando do clube em competições inglesas — marca que o coloca como o treinador com o maior número de triunfos na história do Aston Villa. O clube busca romper o domínio do Big Six, algo que apenas o Leicester City conseguiu na temporada 2015/16.
Outro ponto especialmente animador para os torcedores foi ver Ollie Watkins reencontrar seu melhor momento. Depois de marcar 16 gols na Premier League na temporada passada, iniciara a campanha atual com apenas um gol antes do duelo contra o Brighton. Emery manteve sua confiança no atacante, escalando-o como titular — e Watkins respondeu com dois gols ainda no primeiro tempo, pavimentando a virada do Aston Villa de 0 a 2 para 2 a 2, resultado que abriu caminho para o triunfo final.

Unai Emery lidera renascimento do Aston Villa na temporada
Desde que assumiu o comando em outubro de 2022, Unai Emery tem promovido uma reconstrução profunda no Aston Villa — devolvendo competitividade, organização e ambição a um clube que recentemente flertava com o rebaixamento. A evolução ficou ainda mais evidente na atual temporada. Depois de um início turbulento, sem vitórias nas seis primeiras partidas e enfrentando grave dificuldade ofensiva, o time reagiu com força. Com uma nova mentalidade e ajustes táticos precisos, a equipe engrenou e iniciou uma sequência consistente de bons resultados.
A vitória sobre o Wolverhampton Wanderers consolidou esse momento: foi o sétimo triunfo em oito jogos da Premier League. Para Emery, os sinais de crescimento eram claros. “Estamos reagindo”, declarou após a partida.
Mas o ápice dessa transformação veio no duelo épico contra o Brighton & Hove Albion. Após sair atrás por 2 a 0, o Aston Villa empatou antes do intervalo, virou na etapa final e conquistou uma vitória que o levou à terceira colocação da Premier League, reacendendo o sonho da Champions. Nesta nova fase, o time apresenta solidez defensiva, confiança e um espírito coletivo que Emery considera essencial para consolidar o clube como um “candidato sério” à parte de cima da tabela.
O impacto do técnico vai muito além dos resultados imediatos. Emery restituiu ao Aston Villa autoestima, ambição e perspectiva de longo prazo. Sua renovação até 2029 simboliza o apoio irrestrito da diretoria ao projeto. Com elenco, comissão técnica e torcida alinhados, o clube parece pronto para recuperar seu protagonismo — agora com estabilidade e convicção.

Aston Villa mira protagonismo duplo: favorito na Europa League e candidato surpresa à Premier League 2025/26
O Aston Villa vive um momento raro em sua história recente: ao mesmo tempo em que se posiciona como um dos principais favoritos ao título da Europa League, também se mantém firme na corrida pela Premier League 2025/26. A regularidade, a qualidade das peças do elenco e a maturidade do projeto esportivo colocam o Villa em um patamar competitivo que poucos imaginariam anos atrás.
Depois de chegar às semifinais da competição europeia na temporada anterior, o clube iniciou 2025/26 naturalmente apontado como favorito — muito por conta da especialidade de Emery, tetracampeão do torneio. O técnico reformulou o modelo de jogo, tornando-o mais agressivo com a bola e extremamente disciplinado sem ela, o que proporcionou maior segurança defensiva e eficiência ofensiva. A harmonia entre as linhas transformou o Villa em um adversário temido no cenário europeu.
A campanha tranquila na fase de grupos evidenciou esse crescimento: domínio territorial, pressão coordenada e capacidade de decidir em momentos-chave. O clube não esconde que a Europa League é um objetivo claro, impulsionado tanto pelo histórico de Emery quanto pelo desejo de consolidar a nova identidade internacional da equipe.
Enquanto isso, a briga doméstica segue aberta. Embora não possua os mesmos recursos financeiros de Manchester City, Arsenal ou Liverpool, o Aston Villa se coloca como o grande “intruso” capaz de disputar o título da Premier League. A consistência nos confrontos diretos e o excelente aproveitamento como mandante mantêm o time entre os primeiros colocados.
O elenco, agora mais robusto, permite rotações sem queda de intensidade. O crescimento de jogadores como Ollie Watkins, Emiliano Martínez, Youri Tielemans, Morgan Rogers e Donyell Malen, aliado a reforços pontuais, tornou o Aston Villa mais equilibrado e preparado para competir em duas frentes. Além disso, a gestão minuciosa de Emery — conhecida pela capacidade de ajustar detalhes a cada jogo — fez com que o time deixasse de depender de lampejos individuais.
O principal desafio será manter o ritmo até o final da temporada. Disputar simultaneamente Premier League e Europa League exige foco extremo e resiliência — especialmente para um clube ainda em construção estrutural. Mesmo assim, o Villa entra na fase decisiva com o ingrediente que mais define sua trajetória recente: confiança. Confiança no projeto, no desempenho coletivo e na possibilidade real de transformar esta temporada em um capítulo histórico.
Com ambição europeia e ousadia doméstica, o Aston Villa assume o papel de protagonista em ambas as competições. A Europa League aparece como objetivo concreto; a Premier League, como sonho possível. E, sob o comando incansável de Unai Emery, o clube demonstra cada vez mais capacidade de transformar ambos em realidade.
(Foto: Getty Images)