O título da Premier League conquistado pelo Arsenal em 2026 representa muito mais do que apenas o fim de um jejum de 22 anos sem vencer o campeonato inglês. A conquista simboliza o resultado de um projeto construído lentamente ao longo de seis temporadas, marcado por mudanças estruturais profundas dentro do clube, decisões estratégicas no mercado e, principalmente, pela transformação cultural implementada por Mikel Arteta desde sua chegada ao norte de Londres.
Quando Arteta assumiu o comando do Arsenal em 2019, o clube vivia um período de instabilidade esportiva e perda de identidade competitiva. O time havia se afastado da disputa pelos grandes títulos nacionais e europeus, além de enfrentar problemas constantes de montagem de elenco e falta de continuidade nos projetos esportivos. A chegada do treinador espanhol mudou gradualmente esse cenário.
Ao longo dos últimos anos, Arteta passou a ter influência cada vez maior nas decisões internas do clube. Em setembro de 2020, deixou oficialmente de ser apenas treinador principal para assumir o cargo de manager, ampliando sua participação na estrutura esportiva do Arsenal. Hoje, ele faz parte diretamente do grupo responsável pelas decisões estratégicas do futebol ao lado de Josh Kroenke, Richard Garlick, James King e Andrea Berta.
Esse crescimento de influência ajudou o Arsenal a construir uma identidade muito clara dentro e fora das quatro linhas.
Arteta construiu cultura de grupo para transformar o Arsenal
Uma das características mais marcantes do trabalho de Arteta foi a tentativa constante de fortalecer laços internos dentro do elenco. O treinador ficou conhecido por métodos pouco convencionais de motivação, utilizando frequentemente elementos emocionais para aproximar jogadores e comissão técnica.
Durante uma fase ruim da equipe nesta temporada, por exemplo, Arteta pediu que os jogadores simbolicamente “jogassem pensamentos negativos no fogo” em uma atividade realizada no centro de treinamento. Além disso, o treinador costuma organizar churrascos com atletas, funcionários e familiares no CT de London Colney para fortalecer o ambiente interno.
Esse lado emocional acabou se tornando uma marca importante do projeto do Arsenal. O clube passou a funcionar como um grupo extremamente conectado, algo que ficou evidente principalmente nos momentos de pressão da temporada.
Até mesmo elementos mais incomuns acabaram ganhando importância dentro da campanha do título. Uma música criada por inteligência artificial, citando os nomes dos jogadores do elenco, virou uma espécie de hino interno do grupo. A música incluía uma das frases preferidas de Arteta: “make it happen” (“faça acontecer”), que acabou simbolizando a mentalidade criada pelo treinador.
Além do aspecto emocional, Arteta também transformou o funcionamento diário da equipe. Sua comissão técnica ganhou fama pela intensidade nos treinamentos e durante os jogos. Analistas participam ativamente das partidas, enquanto auxiliares têm papel importante na condução das atividades para evitar desgaste mental dos jogadores ouvindo apenas a voz do treinador ao longo de toda a temporada.
A chegada de Gabriel Heinze à comissão técnica no último ano também teve influência relevante. Ex-companheiro de Arteta como jogador, o argentino introduziu novas dinâmicas motivacionais, principalmente para o sistema defensivo da equipe.
Mercado agressivo e elenco jovem impulsionaram salto competitivo

O crescimento do Arsenal também passou diretamente pela reformulação do elenco nos últimos anos. Grande parte da estrutura atual foi construída ainda durante o período de Edu Gaspar como diretor esportivo.
Dos 15 jogadores que mais atuaram pelo Arsenal na Premier League nesta temporada, 10 foram contratados durante sua gestão. A estratégia do clube priorizou atletas jovens, fisicamente fortes e com capacidade de evolução técnica e financeira.
A chegada de Andrea Berta em 2025 trouxe uma mudança importante de mentalidade. Enquanto Edu trabalhava pensando em desenvolvimento gradual e valorização de ativos, Berta recebeu uma missão mais objetiva: transformar o Arsenal em campeão imediatamente.
Essa mudança ficou evidente no mercado de transferências. O clube investiu cerca de 250 milhões de libras na última janela e apostou em jogadores com impacto imediato. O principal exemplo foi Viktor Gyokeres. O atacante sueco chegou cercado de expectativa após o Arsenal decidir que precisava de um centroavante pronto para elevar o nível competitivo da equipe.
Benjamin Sesko também era monitorado, mas internamente o entendimento era de que Gyokeres oferecia retorno mais imediato esportivamente. Alexander Isak e Julián Álvarez chegaram a agradar ao departamento de futebol, mas os custos das negociações eram considerados altos demais.
No início da temporada, Gyokeres teve dificuldades de adaptação ao estilo de jogo da Premier League e ao sistema mais direto implementado por Arteta para aproveitar sua capacidade de atacar profundidade. Mas após a pausa internacional de março, quando ajudou a Suécia a garantir vaga na Copa do Mundo, o atacante cresceu de rendimento e terminou a temporada com 21 gols em todas as competições.
Base forte e sustentabilidade financeira moldam próximos passos




