Inglaterra
Copa do Mundo

Entenda como nasceu a histórica rivalidade entre Inglaterra e Argentina

Poucos confrontos conseguem reunir tanta história, emoção e polêmica quanto Inglaterra e Argentina em Copas do Mundo. O duelo entre as duas seleções vai muito além de um simples jogo de futebol. Ao longo de mais de seis décadas, cada encontro ajudou a construir uma rivalidade marcada por lances históricos, decisões de arbitragem discutidas, provocações, expulsões e até reflexos de acontecimentos políticos que ultrapassaram as quatro linhas.

Nesta Copa do Mundo, Inglaterra e Argentina voltam a medir forças em uma semifinal inédita na história do torneio. Apesar de já terem protagonizado partidas memoráveis em diferentes edições do Mundial, será a primeira vez que o confronto terá como prêmio uma vaga na grande decisão.

A história mostra que ambos os lados possuem motivos para tratar este duelo como um dos maiores clássicos do futebol mundial. Desde o primeiro encontro em 1962 até a última partida em 2002, praticamente todos os confrontos deixaram alguma marca na memória dos torcedores.

De um jogo tranquilo ao nascimento de uma rivalidade histórica

inglaterra x argentina 1966
Foto: Getty Images

Curiosamente, o primeiro encontro entre Inglaterra e Argentina em Copas do Mundo passou longe das polêmicas que marcariam os confrontos seguintes.

Na fase de grupos da Copa de 1962, disputada no Chile, os ingleses venceram por 3 a 1 com relativa tranquilidade. Ron Flowers, Bobby Charlton e Jimmy Greaves marcaram os gols da vitória, resultado que ajudou a Inglaterra a avançar às quartas de final graças ao saldo de gols superior ao da Argentina.

Naquele momento, tratava-se apenas de mais uma partida importante em uma Copa do Mundo.

Tudo mudou quatro anos depois.

Nas quartas de final da Copa de 1966, em Wembley, nasceu oficialmente uma das maiores rivalidades do futebol.

A Inglaterra venceu por 1 a 0, mas o resultado ficou praticamente em segundo plano.

A expulsão do capitão argentino Antonio Rattín dominou toda a partida. O volante se recusou a deixar o gramado após receber cartão vermelho, provocando uma paralisação de quase oito minutos.

Após o apito final, o técnico inglês Alf Ramsey agravou ainda mais o clima ao chamar os jogadores argentinos de “animais” e impedir que seus atletas trocassem camisas com os adversários.

O episódio ficou marcado como um divisor de águas.

Além disso, muitos historiadores apontam aquele confronto como uma das inspirações para a criação dos cartões amarelo e vermelho, que passaram a ser utilizados oficialmente na Copa de 1970.

A rivalidade já estava estabelecida.

Maradona eternizou o maior capítulo da história do confronto

Argentina x Inglaterra, Copa do Mundo 1986. Foto: Reprodução/TV
Argentina x Inglaterra, Copa do Mundo 1986. Foto: Reprodução/TV

Se 1966 criou a rivalidade, 1986 transformou Inglaterra e Argentina em um dos confrontos mais emblemáticos da história das Copas.

A partida aconteceu apenas quatro anos depois da Guerra das Malvinas.

O clima político influenciava diretamente o ambiente esportivo.

Na Argentina, muitos enxergavam o jogo como uma oportunidade de obter uma espécie de revanche simbólica diante dos ingleses.

Dentro de campo surgiu um dos personagens mais importantes da história do futebol.

Diego Maradona.

Primeiro veio a polêmica.

Na disputa de bola com Peter Shilton, o camisa 10 argentino utilizou a mão para marcar o gol que ficaria eternizado como a “Mão de Deus”.

Poucos minutos depois, Maradona produziu um momento que até hoje é considerado por muitos especialistas como o maior gol já marcado em uma Copa do Mundo.

Recebeu a bola ainda no campo de defesa, driblou praticamente toda a seleção inglesa e finalizou após passar também pelo goleiro.

Os dois lances resumem perfeitamente a dualidade daquele jogador.

Um gol marcado com enorme controvérsia.

Outro construído com genialidade absoluta.

Gary Lineker ainda descontou para a Inglaterra, mas a Argentina venceu por 2 a 1 e caminhou até o título mundial.

Foi provavelmente o capítulo mais famoso da história dessa rivalidade.

Beckham viveu do inferno à redenção

David Beckham, Copa do Mundo 1998. Foto: Divulgação/The Mirror
David Beckham, Copa do Mundo 1998. Foto: Divulgação/The Mirror

A rivalidade voltou a ganhar novos capítulos em 1998.

Nas oitavas de final da Copa disputada na França, o duelo entre Inglaterra e Argentina protagonizaram uma das melhores partidas daquele Mundial.

Michael Owen marcou um golaço histórico após arrancar desde o meio-campo, enquanto Javier Zanetti empatou para os argentinos em uma jogada ensaiada de falta.

No entanto, o grande momento da partida foi negativo para David Beckham.

Após uma falta cometida por Diego Simeone, o meia inglês reagiu com um chute no adversário e recebeu cartão vermelho.

Mesmo com um jogador a menos, a Inglaterra resistiu até a disputa por pênaltis, onde acabou eliminada.

Anos depois, Simeone admitiu que exagerou na queda e reconheceu que o lance talvez merecesse apenas cartão amarelo para Beckham.

A redenção do inglês veio quatro anos depois.

Na Copa de 2002, novamente diante da Argentina, Beckham marcou o gol da vitória inglesa em cobrança de pênalti após falta de Mauricio Pochettino sobre Michael Owen.

O triunfo garantiu praticamente a classificação inglesa e eliminou a Argentina ainda na fase de grupos pela primeira vez em 40 anos.

Para Beckham, aquele gol representou muito mais do que três pontos.

Foi o encerramento de um ciclo iniciado com sua expulsão em 1998.

Um novo capítulo será escrito na semifinal

Inglaterra Gordon
Paul Childs

Agora, mais de duas décadas depois do último encontro em Copas do Mundo, Inglaterra e Argentina voltam a se enfrentar.

O contexto mudou completamente.

Nenhum dos protagonistas dos confrontos anteriores permanece em campo.

Maradona já não está mais presente. Beckham se tornou dirigente. Lionel Messi enfrentará a Inglaterra pela primeira vez em uma Copa do Mundo, enquanto Jude Bellingham desponta como o novo grande nome inglês.

Apesar da renovação das gerações, o peso histórico continua exatamente o mesmo.

Os cinco confrontos anteriores produziram praticamente de tudo.

Gols históricos.

Expulsões.

Polêmicas de arbitragem.

Provocações.

Disputas por pênaltis.

E até episódios que ajudaram a modificar regras do futebol.

Agora, pela primeira vez, Inglaterra e Argentina disputarão diretamente uma vaga na final de uma Copa do Mundo.

O retrospecto mostra equilíbrio.

A Inglaterra venceu confrontos importantes em 1962, 1966 e 2002.

A Argentina levou a melhor em 1986 e 1998, justamente em dois dos jogos mais lembrados da história do torneio.

Independentemente do resultado desta nova semifinal, o duelo já entra para mais um capítulo de uma rivalidade construída ao longo de mais de 60 anos.

Poucos confrontos conseguem carregar tanto peso histórico quanto Inglaterra e Argentina.

E quando essas duas camisas se encontram em uma Copa do Mundo, dificilmente o futebol sai sem produzir mais uma história para ser lembrada por décadas.

(Foto de capa: Getty Images)

author
Kaique