Países com características e interesses semelhantes apesar de estarem em continentes diferentes, Espanha e Marrocos tiveram seus destinos entrelaçados pelo futebol nos últimos anos. Rivais nas oitavas da Copa do Mundo de 2022, e aliados no projeto de sediar a Copa de 2030 junto a Portugal, a dupla vem protagonizando uma guerra recente para descobrir talentos para suas seleções, visando a soberania no esporte.
O caso mais recente de briga entre marroquinos e espanhóis por jogadores em sua equipe nacional aconteceu no Real Madrid, maior campeão da Europa e considerado um dos principais clubes do planeta. Promessas do time B do Real, Rachad Fettal e Thiago Pitarch receberam propostas das duas seleções para se juntarem ao elenco, e estão balançados sobre a possibilidade de defender seu país de origem ou se unirem a um dos principais grupos vitoriosos do velho continente, que conta com jovens como Lamine Yamal.
Marrocos faz “garimpo” na base da Espanha em busca de protagonistas
De volta a briga pelo topo no futebol da África e também ostentando um histórico quarto lugar da última Copa, Marrocos vem agindo de forma ousada para trazer talentos a seleção local, e desenvolver a atividade ainda nas categorias de base. A Espanha, país vizinho que abriga cerca de um milhão de pessoas de origem marroquina, é um dos pontos mais explorados por olheiros que também analisam o vínculo de jogadores com o território africano, para apresentar a estes jogadores um projeto convincente a representar as raízes de seus ancestrais.
Um exemplo de jogador que passou pelo recrutamento de Marrocos e se tornou um símbolo da equipe nos últimos anos foi o lateral do PSG Achraf Hakimi, nascido em Madrid, e que passou a defender o país de seus pais ainda na base do Real, quando nem imaginava a possibilidade de compor uma geração histórica da seleção marroquina. Outros que passaram pelo processo de naturalização após uma passagem pela base da seleção espanhola foram Ilias, lateral-direito do Villarreal, e Brahim, meia-atacante do Real Madrid, que se juntaram ao grupo no ano passado, já de olho na Copa do Mundo de 2026.
Espanhóis também buscam talentos na base de outros países
Assim como os marroquinos, a Espanha também faz um trabalho de descobertas na base de outros países, tendo como um caso recente o zagueiro Dean Huijsen, hoje defensor de La Furia, e que representou até o sub-18 a seleção holandesa. Atual campeã da Euro, a Espanha vem realizando uma abordagem forte para conter os avanços de Marrocos contra jogadores que estão em solo europeu por residência ou naturalização, se espelhando no que fez ao garantir a permanência do jovem Lamine Yamal, e o tornar um dos principais personagens da equipe comandada por Luis de la Fuente.
Mas ao contrário de Yamal, que optou por permanecer atuando pela seleção do país onde se fixou junto aos pais, temos visto exemplos de espanhóis que fizeram a transição para o grupo marroquino ainda na base, mesmo tendo nascido em solo europeu. Na Copa Africana de Nações Sub-17, vencida por Marrocos em abril desse ano, seis atletas do elenco nasceram na Espanha, tendo ainda a chance de jogar por outro território futuramente. De acordo com a Fifa, jogadores a partir de 16 anos, sem limite máximo de idade, podem se transferir de seleção desde que não tenham atuado três partidas pelo time principal.
Marrocos e Espanha causaram mudanças na regra de transferências de seleção
Disputando jogadores para seus respectivos elencos antes do Mundial de 2030 que sediarão juntos, Marrocos e Espanha causaram há cinco anos a alteração da regra de transferências entre seleções. Em 2020, o atacante Munir El Haddadi, espanhol naturalizado marroquino, não podia mais atuar em jogos nacionais devido à uma convocação para a seleção espanhola principal em 2015, onde atuou por 13 minutos, e que impediu sua ida para o grupo africano na época, ficando fora de convocações por quase sete anos.
Àquela altura, o regulamento da Fifa determinava que o jogador que estreasse pela seleção principal de um país, não poderia atuar mais por outro. Entretanto, a entidade revisou a regra e estabeleceu o critério para até três partidas, o que não havia acontecido ainda com Munir, que passou a defender Marrocos em 2021, após contestar esta decisão no Tribunal Arbitral do Esporte.
Projeto de união pelo Mundial de 2030 segue, mas…
Por mais cinco anos, os destinos futebolísticos de Espanha e Marrocos estarão entrelaçados, rumo a Copa do Mundo centenária, que será sediada também por Portugal, e receberá jogos de estreia na América do Sul em Argentina, Uruguai e Paraguai. Os espanhóis vão receber onze jogos, os marroquinos seis, e os portugueses, três.
O projeto de união por este Mundial entre a dupla europeia e o país africano segue de pé, porém, encontra um entrave quando o assunto se torna a sede da grande decisão. No dossiê recebido pela Fifa, dois estádios da Espanha (Camp Nou e Santiago Bernabéu) e um estádio de Marrocos, planejado para 115 mil pessoas na cidade de Casablanca, estão na disputa, e prometem ferver a corrida para se garantir como palco da festa.
Espanhóis e marroquinos sempre passaram uma imagem de cooperação e boa vizinhança no assunto Copa, e veem entre os candidatos, a possibilidade do Bernabéu ser a casa da final. A última palavra caberá à Fifa, que em pouquíssimo tempo, haverá de apresentar seu veredicto, aguardando também que ambos os países estejam totalmente preparados para sediar o evento, tanto em questões de infraestrutura quanto de talentos.
Foto: AFP