A França entrou em campo com um dos ataques mais caros e talentosos do futebol mundial. Somados, os seis jogadores utilizados por Didier Deschamps no setor ofensivo são avaliados em 710 milhões de euros, segundo o Transfermarkt. No papel, uma coleção de estrelas capaz de decidir qualquer partida. Na prática, porém, esbarrou em uma Espanha impecável taticamente e deu adeus à Copa do Mundo após a derrota por 2 a 0, em Dallas.
Com o futuro de Deschamps cada vez mais incerto — e Zinedine Zidane apontado como principal candidato para assumir a seleção —, os franceses apostaram em força máxima.

Mbappé, Olise, Dembélé e Barcola começaram entre os titulares, enquanto Doué e Cherki entraram ao longo da partida para tentar mudar o cenário.
Juntos, os seis atacantes representam um patrimônio milionário: Mbappé e Olise valem 150 milhões de euros cada, Doué está avaliado em 120 milhões, Dembélé em 100 milhões, Cherki em 90 milhões e Barcola em 70 milhões.
O problema é que talento individual, sozinho, não venceu a organização coletiva espanhola.
O plano de Luis de la Fuente

Enquanto Luis de la Fuente montou uma equipe preparada para atacar e, principalmente, para defender sem a bola, a França voltou a depender quase exclusivamente da inspiração de seus craques. A estratégia até lembrava uma escalação de videogame: reunir o maior número possível de jogadores decisivos e esperar que eles resolvessem.
Do outro lado, a Espanha mostrou que futebol continua sendo um esporte coletivo. Se para a França era videogame, para ‘La Roja’ era “bobinho” — um jogo tão básico e usado como aquecimento nos treinamentos pelo mundo afora. Foi basicamente o que Rodri, Fabián Ruiz e Dani Olmo fizeram na partida da última terça-feira (14), algo que deu tão certo que Le Bleus foram incapazes de reter a posse da bola e criar boas chances de gol.
Pedro Porro praticamente anulou Barcola pelo lado direito, enquanto Cucurella contou com o auxílio constante de Álex Baena para fechar os espaços de Dembélé e Olise, que alternavam de posição durante o jogo. Pelo centro, Cubarsí e Laporte controlaram Mbappé com autoridade, sempre protegidos por Rodri e Fabián Ruiz, que impediram o camisa 10 francês de receber a bola em condições favoráveis.
Nem mesmo quando Deschamps lançou Cherki e Doué a França conseguiu mudar o panorama. A Espanha seguiu compacta, diminuindo espaços e obrigando o adversário a buscar soluções pelos lados do campo, especialmente pelo setor defendido por Lucas Digne — aquele quem cometeu o pênalti em cima de Lamine Yamal.
Se houve algum momento de dificuldade para os espanhóis, ele aconteceu nos primeiros minutos, quando Rabiot e Olise encontraram espaços pelo corredor central. A correção veio rapidamente. Luis de la Fuente ajustou o posicionamento da equipe ainda na etapa inicial, e a França nunca mais conseguiu repetir aquele volume ofensivo.
“É uma enorme responsabilidade, mas também um privilégio, reservado apenas a alguns escolhidos, e temos que aceitar isso. Começamos com uma ideia, e nos mantivemos fiéis a ela, e isso nos trouxe até aqui. — analisou De la Fuente.
Certamente estávamos enfrentando uma das melhores equipes do mundo, mas eles estavam enfrentando a melhor equipe do mundo, o que é diferente, é uma vantagem. Esses jogadores merecem tudo por causa do seu talento; foi maravilhoso vê-los jogar hoje” — completou.
O que distinguia a Espanha da França?

A grande diferença entre as duas seleções esteve justamente no comportamento sem a posse de bola.
A Espanha sabia exatamente como pressionar, fechar linhas de passe e recuperar a bola. Já a França, por outro lado, passou boa parte da partida correndo atrás dos espanhóis, sem conseguir encaixar a marcação ou impedir a circulação de bola do adversário.
Rodri foi aquilo que todos esperavam. Soberano, organizador e refinado. O camisa 16 é o jogador com mais passes completados no plantel espanhol, com 694. Para além disso, ele também é aquele quem percorreu a maior distância total, com 83,80 km — um dado crucial para entender que, sem ele, os finalistas não teriam o mesmo sucesso nas recuperações de bola, tampouco na circulação dela.
Outro quem foi merecidamente condecorado foi Pedro Porro. Ao lado de Fabián Ruiz, o camisa 12 foi uma das peças que passaram por “idas e vindas” do onze inicial. Começar como titular, ser relegado para suplente e voltar a ser um destaque, ambos sabem como é. Mas, agora é tudo diferente — principalmente para o jogador do Tottenham.
Autor de dois gols na fase de mata-mata, o lateral direito pôde viver a emoção de ser um protagonista. Marcar o segundo gol da Espanha diante de uma França poderosa não é para qualquer um. Méritos da escolha de Luis de la Fuente, mas mais ainda de Porro, que ainda foi agraciado com uma mensagem emocionante de seu avô, Antonio Sauceda.
“É o melhor presente da minha vida. Dinheiro não resolve nada, mas a felicidade, sim. É a maior alegria de toda a minha vida. É algo que ficará gravado na minha memória”, disse Antonio em prantos, em entrevista para o site FIFA.com.
No fim das contas, a semifinal foi uma demonstração de que investimento e qualidade individual não bastam. A França reuniu um dos ataques mais valiosos do planeta, mas foi dominada por uma equipe muito mais organizada coletivamente.
Em Dallas, o plano de Luis de la Fuente prevaleceu sobre o estrelato francês. E foi a Espanha quem carimbou a vaga na grande decisão da Copa do Mundo.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Fifa.com


