Estados Unidos, Paraguai, Copa do Mundo 2026
Futebol Copa do Mundo

Estados Unidos vivem chance histórica de crescer no futebol, mas há um grande obstáculo

A Copa do Mundo de 2026 está colocando o futebol em uma posição diferente dentro dos Estados Unidos. Disputado em casa, o torneio vem registrando números muito fortes de audiência, enquanto grandes jogos movimentam o país desde a primeira rodada. Dessa forma, cresce a sensação de que o futebol pode estar diante de uma grande oportunidade para aumentar sua força no mercado esportivo norte-americano.

Neste cenário, o interesse não aparece apenas de forma discreta. A vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina, nos 16 avos da Copa do Mundo, foi acompanhada por mais de 33 milhões de pessoas somando transmissões em inglês e espanhol. O número, inclusive, ainda pode crescer quando a audiência final for divulgada. Para um país acostumado a tratar NFL, NBA, MLB e NHL como os grandes pilares do esporte, o desempenho da Copa chama muita atenção.

Desta forma, o futebol começa a mostrar que pode ocupar um espaço maior. Não se trata apenas de um torneio com bons números. A Copa está criando momentos de grande mobilização, atraindo novos olhares e colocando a seleção dos Estados Unidos no centro do debate esportivo nacional. Com uma campanha forte até aqui, o time também ajuda muito neste processo.

Copa aproxima torcida e seleção nos Estados Unidos

O bom desempenho da seleção norte-americana tem um peso importante nesse crescimento de interesse. Jogando em casa, os Estados Unidos conseguiram transformar a Copa em algo ainda mais próximo da torcida. A equipe avançou no torneio, criou jogos marcantes e passou a ser acompanhada por um público que talvez não estivesse tão ligado ao futebol antes do Mundial.

Esse tipo de ligação pode ser muito importante para o futuro do esporte no país. Em uma Copa do Mundo, a seleção nacional naturalmente carrega um peso emocional maior. Quando o time vence, compete bem e cria uma identificação com o público, a tendência, obviamente, é que mais pessoas se interessem pela modalidade. 

Os recordes de audiência indicam justamente isso. O confronto entre Estados Unidos e Bósnia chegou a números que superam praticamente todos os jogos das Finais da NBA desde 1987, ficando atrás apenas do Jogo 6 de 1998. Na comparação com a World Series, apenas dois jogos desde 2000 tiveram audiência maior. Ou seja, não é um detalhe pequeno. A Copa realmente conseguiu furar a bolha no país.

Sendo assim, existe um argumento positivo aqui. Se parte desse público continuar acompanhando futebol depois do torneio, o impacto pode ser muito grande. Mesmo que apenas uma porcentagem dos novos espectadores siga ligada ao esporte, isso já representaria um avanço importante para a modalidade nos Estados Unidos. Afinal, uma Copa em casa, com audiência histórica e boa campanha da seleção, cria um cenário raro.

No entanto, é preciso ter certo cuidado antes de afirmar que o futebol virou, de vez, um esporte de massa no país. A Copa do Mundo tem uma força própria. É um evento gigantesco, capaz de atrair até pessoas que não acompanham futebol no dia a dia. Desta forma, o grande desafio será transformar esse interesse momentâneo em uma relação mais duradoura com o esporte.

MLS pode desperdiçar uma chance histórica nos Estados Unidos

Apesar do enorme sucesso da Copa do Mundo, ainda existe uma diferença importante entre acompanhar um grande evento e se tornar fã de um esporte no dia a dia. O futebol está em alta nos Estados Unidos durante o torneio, mas isso não significa, automaticamente, que esse interesse será mantido após o Mundial.

Inclusive, o hóquei viveu uma situação semelhante recentemente. A final olímpica de 2026 também registrou uma audiência enorme nos Estados Unidos, com mais de 20 milhões de espectadores. Ainda assim, isso não fez a NHL mudar completamente de patamar dentro do mercado esportivo norte-americano. As Finais da Stanley Cup tiveram bons números depois disso, mas seguiram bem abaixo da NBA e da MLB.

Com o futebol, algo parecido pode acontecer. Muita gente pode estar interessada na Copa do Mundo, na seleção dos Estados Unidos e no peso do evento, mas não necessariamente seguir acompanhando clubes depois do torneio. Essa diferença é importante. O público pode se apaixonar pelo momento, sem transformar isso em hábito.

E é justamente aí que a MLS aparece como um ponto de preocupação. Em teoria, a liga norte-americana deveria ser uma das grandes beneficiadas pela Copa do Mundo. Afinal, se o futebol está crescendo, seria natural esperar que mais pessoas procurassem acompanhar clubes locais, frequentar estádios e criar ligação com times de suas cidades. Porém, a estrutura atual de transmissão pode atrapalhar bastante esse processo.

A MLS tem um acordo forte com a Apple TV, mas isso também cria uma barreira. Diferentemente de outras grandes ligas dos Estados Unidos, a competição não conta com transmissões locais tradicionais dos clubes. Para quem acabou de se interessar por futebol e quer continuar assistindo, a necessidade de assinar uma plataforma específica pode afastar parte desse novo público.

Além disso, a presença da MLS na televisão nacional será limitada depois da Copa. A Fox terá uma partida em horário nobre entre Nashville e Atlanta no dia 17 de julho, aproveitando a reta final do Mundial. LA Galaxy e LAFC também entram em campo no Fox Sports 1 no mesmo dia. Porém, depois disso, a quantidade de jogos com transmissão nacional será pequena. Na prática, a liga pode não estar tão disponível justamente quando deveria aproveitar o aumento de interesse.

Essa situação fica ainda mais delicada quando olhamos para a Premier League. A liga inglesa já tem uma presença mais forte na televisão dos Estados Unidos, com jogos na NBC, USA Network e transmissões pelo Peacock. Ou seja, para muitos americanos, pode ser mais fácil acompanhar o futebol inglês pela TV do que seguir a própria liga nacional.

O problema é que a MLS tem algo que a Premier League não consegue oferecer da mesma forma: a experiência presencial. Ver um time da própria cidade e criar uma relação com o clube local pode ser decisivo para formar novos torcedores. Só que, se essa ligação não for acompanhada por uma transmissão acessível, o interesse pode esfriar rapidamente.

Dessa forma, a Copa do Mundo pode representar um passo importante para o futebol nos Estados Unidos, mas não resolve tudo sozinha. O torneio está mostrando que existe público, interesse e espaço para o esporte crescer. Ao mesmo tempo, a história indica que grandes eventos nem sempre transformam espectadores ocasionais em fãs permanentes.

A Copa está fazendo barulho, a seleção dos Estados Unidos está mais próxima do público e os números mostram uma atenção rara para o futebol no país. Porém, para esse impacto continuar depois do Mundial, será necessário aproveitar melhor a oportunidade. Caso contrário, a MLS pode ver uma chance histórica passar. 

Créditos da foto de capa: Divulgação/AFP via Getty Images.