Os Estados Unidos chegam ao mata-mata da Copa do Mundo de 2026 vivendo um momento pouco comum em sua história recente. Pela primeira vez em muitos anos, a seleção masculina consegue reunir boas atuações, um ambiente de confiança e um país verdadeiramente mobilizado em torno do futebol. A classificação em primeiro lugar no Grupo D reforçou a sensação de que a equipe pode finalmente dar um passo além das campanhas anteriores e escrever um novo capítulo no principal torneio do esporte.
Ao mesmo tempo, existe um obstáculo que vai além dos adversários. A seleção norte-americana precisa superar o peso do próprio passado. Durante décadas, o futebol masculino dos Estados Unidos acumulou eliminações frustrantes, campanhas abaixo das expectativas e decisões equivocadas que impediram o crescimento da equipe em nível internacional. Agora, jogando uma Copa do Mundo em casa, o elenco comandado por Mauricio Pochettino tenta provar que essa geração é diferente.
A melhor oportunidade dos Estados Unidos em muitos anos

A campanha na fase de grupos mostrou uma seleção competitiva e capaz de controlar jogos importantes. Os Estados Unidos venceram Paraguai e Austrália com autoridade, somando um placar agregado de 6 a 1 e garantindo a liderança do Grupo D antes mesmo da última rodada.
Mesmo com a derrota por 3 a 2 para a Turquia na despedida da fase de grupos, Mauricio Pochettino preferiu destacar o desempenho coletivo da equipe ao longo da primeira fase.
O treinador argentino demonstrou incômodo ao perceber que boa parte das perguntas após a partida estava concentrada apenas no resultado negativo, ignorando o fato de que os americanos haviam terminado na primeira colocação de um grupo bastante equilibrado.
Segundo Pochettino, a classificação em primeiro lugar deveria ser motivo de orgulho para jogadores, comissão técnica e torcedores.
Sua avaliação fazia sentido.
A equipe apresentou evolução tática, maior controle das partidas e um elenco que começa a oferecer diferentes soluções durante os jogos. Além disso, a utilização de jogadores reservas contra a Turquia permitiu preservar atletas importantes e aumentar o ritmo de competição de quem vinha atuando menos.
Para o treinador, esse planejamento também faz parte da preparação para o mata-mata.
O passado ainda pesa para os torcedores americanos
Apesar do discurso otimista da comissão técnica, existe um sentimento difícil de apagar entre quem acompanha a seleção há muitos anos.
O histórico dos Estados Unidos em grandes competições ajuda a explicar essa cautela.
Nos últimos anos, a seleção acumulou frustrações marcantes. Em 2024, caiu precocemente na Copa América disputada em casa. Antes disso, viveu um dos momentos mais traumáticos de sua história ao perder para Trinidad e Tobago nas Eliminatórias de 2017, resultado que deixou o país fora da Copa do Mundo de 2018.
Também permanecem vivas as eliminações para Gana na Copa de 2010, a campanha decepcionante de 2006, quando os americanos chegaram entre os cinco primeiros do ranking da FIFA e terminaram na última posição do grupo, além da derrota para o Brasil na final da Copa das Confederações de 2009 depois de abrir vantagem de dois gols.
Os números do mata-mata reforçam essa dificuldade.
Antes desta edição da Copa, os Estados Unidos haviam disputado apenas oito partidas eliminatórias em Mundiais e conquistado somente uma vitória: o histórico triunfo por 2 a 0 sobre o México nas oitavas de final de 2002.
Além disso, em sete desses oito jogos a seleção marcou no máximo um gol.
Outro dado chama atenção. A última vitória dos Estados Unidos contra uma seleção europeia aconteceu em 2021, justamente diante da Bósnia e Herzegovina, adversária que volta a cruzar seu caminho agora nos 16 avos de final.
Todo esse histórico faz com que parte da torcida mantenha certo receio, mesmo diante do bom momento vivido pela equipe.
A Copa do Mundo em casa mudou a relação do país com a seleção
Se dentro de campo a seleção mostra evolução, fora dele o crescimento do interesse pelo futebol talvez seja ainda mais impressionante.
A Copa do Mundo de 2026 transformou o ambiente esportivo nos Estados Unidos.
As audiências registradas durante a fase de grupos demonstram isso de maneira clara.
A partida contra a Austrália reuniu cerca de 23 milhões de espectadores entre televisão e plataformas de streaming. Já a estreia diante do Paraguai tornou-se a transmissão em inglês de uma Copa do Mundo mais assistida da história do país.
Mesmo a derrota para a Turquia alcançou mais de 18 milhões de telespectadores em seu pico de audiência, números próximos aos registrados pelas semifinais do tradicional campeonato universitário de futebol americano.
O interesse também aparece nas ruas.
As camisas oficiais da seleção esgotaram rapidamente nas lojas da Nike, inclusive os modelos de goleiro. Eventos para assistir aos jogos passaram a reunir milhares de pessoas em diferentes regiões do país, enquanto vestir a camisa da seleção deixou de ser algo restrito aos apaixonados por futebol e passou a fazer parte da cultura popular durante o torneio.
Esse cenário representa uma mudança importante em comparação com outras Copas realizadas em território americano.
Em 1994, o Mundial serviu para impulsionar a criação da MLS. Cinco anos depois, a seleção feminina iniciou uma das maiores hegemonias da história do futebol. Agora, a expectativa é que a equipe masculina consiga construir um legado semelhante.
O caminho está aberto, mas o desafio aumenta

A classificação para o mata-mata também colocou os Estados Unidos em uma chave considerada favorável.
O primeiro desafio será contra a Bósnia e Herzegovina, seleção que precisou passar pela repescagem para disputar o Mundial, avançou como apenas a quinta melhor terceira colocada e ocupa a 61ª posição no ranking da FIFA.
Caso avance, a equipe enfrentará Senegal ou Bélgica nas quartas de final.
Mesmo reconhecendo a qualidade dos possíveis adversários, o elenco acredita que pode competir em igualdade de condições.
O atacante Folarin Balogun resumiu o pensamento do grupo ao afirmar que é justamente nas fases eliminatórias que os grandes jogadores assumem a responsabilidade e decidem partidas.
O capitão Tim Ream foi ainda mais direto.
Segundo ele, o sonho é simples: ser lembrado como o grupo que conquistou a primeira Copa do Mundo da história dos Estados Unidos.
Ainda existe um longo caminho até que isso aconteça.
Mas pela primeira vez em muito tempo, a seleção americana reúne fatores que antes raramente apareciam ao mesmo tempo: um treinador experiente, uma geração talentosa, apoio popular em escala nacional e a oportunidade de disputar a fase decisiva diante de sua própria torcida. Agora, resta saber se essa combinação será suficiente para transformar décadas de frustrações em um momento histórico para o futebol dos Estados Unidos.
(Foto de capa: Emilee Chinn / Getty Images via AFP)