O Atlético-MG de Eduardo Domínguez encontrou uma forma bem particular de competir. Não é um time preocupado em ter mais posse de bola ou terminar as partidas com um número maior de finalizações. A prioridade está em defender bem, manter as linhas próximas e escolher os momentos para atacar.
Esse estilo já ganhou até apelido entre os torcedores: “barbabol”. A ideia é direta e combina com o que o Atlético vem apresentando em campo: linhas mais baixas, maior atenção à defesa e pouca preocupação em acumular volume ofensivo.
Os números dos últimos jogos deixam isso evidente. No empate em 0 a 0 com o Internacional, no sábado, o Atlético teve 48% de posse e finalizou 11 vezes, contra 23 chutes do adversário. Antes disso, no 2 a 2 com o Red Bull Bragantino, pela Sul-Americana, o Galo teve 44% da bola e finalizou 11 vezes, enquanto o rival chegou a 18.
Na ida contra o mesmo Bragantino, também pela Sul-Americana, o Atlético venceu por 1 a 0 mesmo tendo apenas 45% de posse e dez finalizações. O adversário chutou 22 vezes.
Não são números que mostram um time dominante. E nem parecem ser essa a intenção de Domínguez.
Domínguez prefere um Atlético competitivo a um time dominante
A lógica do treinador passa por aceitar que o adversário tenha mais a bola e mais volume, desde que o Atlético consiga controlar os espaços e não permita que isso se transforme em chances claras. Quando recupera a posse, a equipe procura acelerar e atacar os espaços.
O 3 a 0 sobre o Grêmio foi a exceção mais clara nesse recorte. O Atlético teve 51% de posse e finalizou 15 vezes, contra nove do adversário. Foi uma partida em que o time conseguiu controlar mais o jogo sem precisar abandonar suas características.
O confronto com o Juventude, pelas oitavas da Copa do Brasil, também ajuda a entender o cenário. Na ida, o Galo teve 58% de posse e finalizou 17 vezes contra 11, mas o jogo terminou 0 a 0. Na volta, teve 66% da bola, empatou em 15 a 15 nas finalizações e venceu por 1 a 0.
Ou seja, mesmo quando o Atlético tem mais posse, isso não significa necessariamente que vai transformar o domínio em uma produção ofensiva muito maior. O foco é outro.
Domínguez quer uma equipe organizada para sofrer pouco e capaz de aproveitar as oportunidades que aparecem. É uma escolha que torna o Atlético competitivo, mas também explica por que algumas atuações recentes ficaram abaixo do esperado, principalmente nos mata-matas. Contra Ceará, Juventude e Bragantino, o Galo precisou buscar soluções nos minutos finais para confirmar classificações. A equipe avançou, mas não passou por cima dos adversários.
E isso não apaga o que Domínguez conseguiu até aqui. O argentino chegou aos 33 jogos pelo Atlético e já tem números melhores que os de Jorge Sampaoli na última passagem pelo clube. São 15 vitórias, oito empates e dez derrotas, com 53% de aproveitamento. Sampaoli, também em 33 partidas, teve dez vitórias, 15 empates e oito derrotas, com 45%.
Mais importante do que a comparação é que o elenco parece ter comprado a ideia. Houve momentos de pressão. Em abril, depois da derrota por 2 a 0 para o Coritiba, surgiu a informação de que Domínguez poderia deixar o cargo. O treinador negou e conseguiu recuperar o ambiente na sequência.
Hoje, o Atlético está em sétimo no Brasileirão, com 33 pontos, seis atrás do G-5. Também está nas quartas de final da Copa do Brasil e da Sul-Americana. Ou seja, mesmo sem apresentar um futebol de domínio constante, o time continua vivo nos principais objetivos da temporada.
O próximo teste para o modelo de Domínguez
É aí que está o mérito do trabalho até agora, mas também a principal dúvida. Domínguez conseguiu fazer o Atlético jogar de uma maneira que parece confortável para o elenco. O time não precisa ter 60% de posse para competir e também não entra em campo com a obrigação de finalizar 20 vezes.
Mas o modelo ainda tem uma prova importante pela frente. Nesta terça-feira (25), o Atlético visita o Cruzeiro pelo jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. É o tipo de partida em que o adversário também tem qualidade para controlar a bola e criar volume. O Galo terá de saber defender, mas também precisará encontrar momentos para sair da pressão e levar perigo.
Esse é o próximo passo para Domínguez. A invencibilidade mostra que o modelo funciona. O clássico, porém, pode mostrar até onde ele consegue levar o Atlético quando a exigência aumenta. Por enquanto, o “barbabol” deu ao treinador algo que parecia distante no início do trabalho: respaldo para seguir com suas convicções.
Foto: Pedro Souza / Atlético / Divulgação
